Tuvalu abriga talvez o projeto de futebol mais ambicioso do mundo. Sendo o 4º menor país em extensão territorial e o 2º menor em população do planeta, Tuvalu busca se tornar o 212º membro da FIFA. É uma tarefa gigantesca para um país tão pequeno e com tantos desafios geográficos, apesar da paixão pelo futebol.
Tuvalu fica a três horas de voo de Fiji, o vizinho mais próximo filiado à FIFA. Um dos principais nomes à frente desse grande projeto é o holandês Michiel van der Werf, de 31 anos, que apoia a federação de futebol de Tuvalu desde a base em seus esforços.
Mas como alguém de uma pequena cidade holandesa com menos de 900 habitantes vai parar em um dos países mais remotos do mundo?

“Sou um viajante. Gosto de conhecer o mundo”, contou Michiel com exclusividade ao Flashscore.
“Então embarquei em algumas aventuras no exterior. Uma coisa levou à outra. Em determinado momento, você se vê nesse universo do futebol e acaba vivenciando de tudo um pouco. Pude conhecer muitos lugares graças ao futebol, e gosto disso. Enquanto tudo estiver indo bem, vamos continuar. Isso te leva a cantos bem remotos do mundo.”
Michiel faz parte do conselho da Netherlands Oceania Support Foundation, uma organização sem fins lucrativos que facilita e apoia oportunidades no futebol no Pacífico.
“Normalmente enviamos treinadores, nomeando técnicos para a seleção ou alguns treinadores de base. Se tivermos sorte com o orçamento, levamos alguns equipamentos, como bolas novas e materiais de treino. Alguns países têm mais recursos que outros. Tuvalu, por exemplo, ainda não é membro da FIFA, então o orçamento próprio é muito pequeno”, explicou.

E foi aí que tudo começou: Tuvalu. Michiel decidiu conferir de perto, pela primeira vez, depois que a pandemia de COVID-19 interrompeu os planos da fundação.
“Minha namorada é da Indonésia, então estou lá com frequência. Aí surgiu a oportunidade de passar alguns meses por lá. Não tinha nada planejado, então pensei: quer saber, vou voltar para Tuvalu em nome da fundação, porque Indonésia ainda é longe, mas é bem mais perto, digamos assim. Iria passar algumas semanas para ver se conseguíamos retomar de onde paramos. E aí começou uma nova aventura”, detalhou.
Essa nova aventura veio após a decisão da TIFA (Associação de Futebol das Ilhas de Tuvalu) de se inscrever para o torneio de futsal da OFC Nations Cup.
“Já tinha agendado uma reunião com a diretoria. Precisávamos bolar algo em pouco tempo, e me perguntaram se eu poderia ajudar a equipe. Então, basicamente, desde o dia em que cheguei, comecei a preparar o time para o torneio, em vez de focar no futebol de campo, que era o motivo inicial da minha viagem”.
Foi assim que Michiel se viu, após três dias de viagem até a ilha, nomeado técnico da seleção de futsal – prioridade máxima para Tuvalu naquele momento – com pouco tempo para montar o time.
“Era a primeira vez em 14 anos que Tuvalu participava. Então, sim, era o mais importante naquele momento. Tive que formar toda a equipe em duas horas, de uma vez só. E nunca tinha visto aqueles garotos jogarem futebol antes”, disse Michiel, rindo.
Ajuda de onde menos se esperava
Apesar de não vencer nenhuma partida no torneio, Tuvalu deixou uma impressão muito melhor do que nas edições anteriores e superou as expectativas. O time que antes perdia jogos por diferenças de 20 gols agora enchia o país de esperança.
“Quando você vê o quanto de positividade já criamos lá, não só na mídia, mas também na região... Todo mundo achava que Tuvalu perderia todos os jogos por 20 a 0 ou 16 a 0, como no passado. Tivemos que enfrentar os quatro países mais fortes da Oceania, já que só havia cinco equipes no torneio."
“Perdemos as quatro partidas, mas não foi nada ruim. Contra a Nova Zelândia, por exemplo, perdemos de 6 a 1, com o segundo tempo terminando 1 a 1. Isso é impressionante contra um país de 5,3 milhões de habitantes, enquanto Tuvalu tem 10 mil.”

Contra Vanuatu, um país com população 50 vezes maior que Tuvalu, Michiel e sua equipe lutaram até o fim e perderam por 3 a 2, para alegria do holandês. Esse torneio impulsionou ainda mais o esforço de Michiel para colocar Tuvalu no mapa do futebol mundial. Assim que ele e a delegação voltaram do torneio em Fiji, retomaram a missão principal: conquistar a filiação à FIFA.
Tuvalu tem recursos muito limitados, inclusive financeiros, já que não recebe os subsídios destinados aos membros plenos da FIFA e da OFC. Por isso, um patrocinador seria fundamental, e, por sorte, Michiel encontrou as pessoas certas em um restaurante em Tuvalu.
Pouco antes do torneio de futsal, o holandês conversou com dois americanos donos de uma empresa de inteligência artificial em San Francisco, que ajudava ilhas remotas com internet e conexões via satélite. Ao ouvir a história do futebol tuvaluano, eles se encantaram.

“Eles disseram: sabe o que vamos fazer? Vamos patrocinar vocês para que possam se preparar direito”, após ouvirem sobre a falta de instalações de treino na ilha, onde os times de futebol e rugby dividem o mesmo campo, obrigando o outro a treinar na pista de pouso.
“Então fomos para Fiji um pouco antes. E, em troca, veríamos se os jogadores poderiam ajudar a empresa com contatos no governo. Tuvalu é um país pequeno, então quase todo mundo se conhece.”
Os próximos passos
O patrocínio mudou completamente o rumo do projeto tuvaluano. “A ideia inicial era avaliar como as coisas estavam e mapear a situação. E, durante o tempo em que estivesse lá, dar cursos, treinar treinadores e fazer clínicas para jovens”, contou Michiel.
“Mas, por causa do torneio, quase nada disso aconteceu ainda. Mas vai acontecer em breve. Graças ao patrocinador americano, que quer continuar envolvido, vamos fazer muito mais. O objetivo final é a filiação à FIFA. Por isso vamos à Nova Zelândia para discutir, pois é preciso cumprir uma série de exigências. Esse é o próximo passo”, disse.

Michiel e a delegação de Tuvalu vão se reunir com a OFC (Confederação de Futebol da Oceania) para buscar a filiação plena, primeiro passo para entrar na FIFA.
“Tuvalu é atualmente membro associado. Isso significa que é um membro parcial. Mas não recebe subsídios por isso. Se for membro pleno, aí sim recebe subsídios. E com esses recursos, dá para realizar muita coisa. No momento, tudo só está de pé graças ao patrocinador. Quando tivermos a filiação plena, aí sim será possível contratar pessoas e melhorar as instalações.”
Para se tornar membro de qualquer confederação, uma federação de futebol precisa cumprir uma lista de exigências. Isso inclui ter um estádio, dois centros de treinamento e um hotel adequado para receber as delegações visitantes, tudo no próprio país. Michiel espera que a reunião com a OFC e os membros da confederação ajude nessa jornada.
“Quando nos encontrarmos com a OFC, será a abertura da OFC Pro League, a primeira competição profissional da Oceania, e estaremos lá também. Vamos conversar com todos os outros países e ver o quão realista é nosso plano. Conseguimos cumprir 90% das exigências, mas algumas realmente exigem investimento pesado, e aí entra aquela história do ovo e da galinha. Simplesmente não dá para competir sem subsídios", exclamou.
O desafio começa pelas instalações esportivas, que Tuvalu ainda não possui.
“Tuvalu só tem um campo. Acrescentar mais dois é praticamente impossível. Não há terra suficiente para construir. E, claro, é muito caro construir um campo de grama sintética, por exemplo. Estamos falando de um milhão de euros se for preciso importar tudo. E o hotel que existe hoje tem cerca de 20 quartos. Não dá para acomodar uma seleção inteira ali", disse.
"Já conversamos com Fiji para ver se podemos mandar nossos jogos lá. Mas há algumas exigências que são praticamente impossíveis de cumprir. Então vamos ver como resolver isso.”
Tuvalu mandar seus jogos oficiais fora do país não seria inédito. Gibraltar, Coreia do Norte e Timor-Leste, por exemplo, já jogaram como mandantes em Portugal, Arábia Saudita e Indonésia.
"Somos muito mais do que a crise climática"
O quanto a filiação à OFC e à FIFA significaria para o povo de Tuvalu não pode ser subestimado, revela Michiel.
“É um país pequeno, mas há outros pequenos na Oceania e também no Caribe. Esses países também têm direito a ser membros da FIFA. E Tuvalu é um país apaixonado por futebol. O futebol é realmente o esporte número um. Então, para o povo, seria fantástico", comentou.
“Porque em Tuvalu, há os Jogos do Pacífico a cada quatro anos. É como se fosse a Olimpíada do Pacífico. E sempre tem torneio de futebol. Tuvalu pode participar porque não é um torneio da FIFA, e quase sempre vence outros pequenos países da Oceania que já são membros da FIFA. Ou seja, em termos de futebol, conseguimos competir muito bem com outros pequenos países”, afirmou.
É difícil prever quando Tuvalu poderá disputar partidas oficiais da FIFA. O futuro depende da reunião com a OFC, mas o objetivo é disputar as eliminatórias da Copa do Mundo FIFA de 2034.
“Provavelmente vai demorar um pouco. Porque, no fim das contas, é preciso aprovação de todos os membros. Todos são membros da OFC. E da própria OFC. Se eles estiverem dispostos a pensar em algumas alternativas, seria ótimo se conseguíssemos até o fim de 2027, por exemplo. Então, dois anos, digamos assim”, projetou.
Dois anos. Dois anos para Tuvalu se tornar membro pleno da FIFA, com as instalações adequadas, desde o futebol de base até a seleção. Em um ano, Michiel gostaria de ver as instalações de Tuvalu melhores.
“Já se joga muito futebol todos os dias. Isso vai continuar. Mas, acima de tudo, espero que possamos participar mais internacionalmente. Se pudéssemos disputar torneios da FIFA, também poderíamos participar muito mais de torneios de base na região, além do time principal. Assim, aumentamos a visibilidade e ajudamos os atletas a ganhar experiência", declarou.
"Porque hoje Valo tem oito times na liga. Você sempre joga contra os mesmos adversários, ano após ano. E claro que é importante se desenvolver enfrentando outros jogadores”, completou.
É justamente a história do futebol que Michiel quer que o mundo conheça sobre Tuvalu.
“Veja, se você pesquisar Tuvalu no Google, quase todo mundo, todo jornalista que aparece, vem por causa da crise climática. Tuvalu é conhecido como o primeiro país que pode desaparecer no mar devido ao aumento do nível do oceano. Todos escrevem sobre isso. Já disse para alguns jornalistas: escrevam sobre a história do futebol, por uma vez. Assim, mostram o país sob outro ângulo. Porque Tuvalu é mais do que o problema climático”, declarou.
Uma história especial
Michiel foi para Fiji com a equipe de futsal em agosto e, agora, está ajudando a conduzir Tuvalu para um futuro promissor no futebol. Com tudo acontecendo tão rápido, demorou um pouco para cair a ficha.
“Com o torneio e tudo mais, foi tudo muito rápido, claro. E naquele momento, você está totalmente imerso, então o foco é total em buscar o melhor resultado possível. Quando você volta para a Holanda dois meses depois e olha para trás, pensa: ‘uau, realmente foi uma experiência especial’. E veja, se tivesse ficado só nisso, já teria ficado feliz, teria sido uma experiência maravilhosa. Mas agora, acho muito especial que vai ter uma continuação”, detalhou.
Depois de apenas um torneio de futsal, o projeto já mostra sinais positivos.
“Todo mundo ficou agradavelmente surpreso com o que conseguimos, e isso em apenas três semanas – imagine se pudéssemos trabalhar nisso por um ano inteiro. Tenho certeza de que a história pode decolar de verdade. Com bons resultados no futebol, você também coloca seu país no mapa”, disse.
O tempo de Michiel no projeto de Tuvalu vai chegar ao fim em algum momento, mas enquanto estiver lá, ele quer garantir que o país esteja no caminho para realizar seus sonhos no futebol.
“Sei que as pessoas realmente querem se tornar membros da FIFA. Elas só querem participar do cenário internacional. É algo de que falamos há muito tempo. E só quero apoiá-los nisso. Meu tempo vai acabar em algum momento. E aí só espero que possam continuar no caminho do sucesso com novas pessoas. E que eu possa, pelo menos, olhar para trás e ver que ajudei a direcioná-los para o caminho certo.”

