Se o trauma da derrota para o Uruguai em 1950, no Maracanã, abriu espaço para técnicos platenses e húngaros — decisivos na formação do futebol campeão mundial em 1958 — e a atual seca de títulos do Brasil levou Carlo Ancelotti à área técnica da Seleção, o cenário dos clubes aponta uma tendência diferente.
Confira o calendário do Brasileirão
No Brasileirão, que começa neste fim de janeiro, apenas dois portugueses iniciam a competição: Abel Ferreira, no Palmeiras, e Luís Castro, no Grêmio. É um contraste evidente com 2022, edição recorde, que teve cinco treinadores portugueses e 10 estrangeiros no total, embalada pelo êxito de Jesus – experiências mal-sucedidas de outros nomes vindos de fora nem sempre são lembradas.

Agora, em 2026, a conta mostra 12 treinadores brasileiros e 8 estrangeiros na elite.

Entre os técnicos nacionais, nomes que passaram pela Seleção, como Tite (Cruzeiro), Dorival Júnior (Corinthians) e Fernando Diniz (Vasco), entram de peito aberto na disputa.
A volta ao trabalho do treinador que comandou o Brasil em duas Copas do Mundo (2018 e 2022), após mais de um ano e meio de afastamento voluntário, pode influenciar até mesmo a forma como dirigentes passam a enxergar o técnico brasileiro. Renato Portaluppi, atualmente sem clube, é um dos que costuma vocalizar essa percepção.
“Não tenho nada contra treinadores de outros lugares do mundo, mas as pessoas falam muito sobre eles e dão pouca atenção aos treinadores brasileiros”, disse o então técnico do Fluminense durante a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, em 2025.
Mais do que uma crítica aos estrangeiros, o ponto levantado por Renato é a subvalorização do profissional nacional, mais habituado às peculiaridades do futebol brasileiro, seja na logística, seja no calendário.
Cofres cheios
A familiaridade com o contexto local inclui, muitas vezes, a necessidade de trabalhar com restrições financeiras — algo de que Abel Ferreira e Luís de Castro, por exemplo, não podem reclamar. Se o Palmeiras não aparece entre os maiores investidores desta temporada, é porque fez esse movimento no ano anterior.
O clube trouxe reforços de peso, como Vitor Roque e Andreas Pereira, e, até por isso, a pressão por títulos cresce em 2026. Abel, aliás, é o treinador mais longevo do lado de cá do Atlântico, com mais de cinco anos à frente de um mesmo clube — um feito notável no futebol brasileiro das últimas décadas.
No Grêmio, que tenta se reconstruir, o cenário também envolve investimento. O clube aparece na quarta posição do ranking de times que mais contrataram jogadores neste ano, atrás de Cruzeiro (Tite), Atlético-MG (Sampaoli) e Fluminense (Zubeldía). Assim como o Palmeiras, o Flamengo iniciou a temporada de forma mais contida até avançar na negociação com Lucas Paquetá.

No comando técnico da Gávea, Filipe Luís segue com a oportunidade de consolidar seu nome como uma das principais promessas da nova geração de treinadores brasileiros, em um clube com cofres robustos desde a reorganização financeira do início da década passada.
Com um ano e quatro meses no cargo, ele é o quarto técnico mais longevo da Série A, atrás de Rogério Ceni (Bahia), vice-líder do ranking, com dois anos e quatro meses, e pouco à frente de Gilmar Dal Pozzo, da Chapecoense.

Vencer ou vencer
Entre os cinco treinadores que iniciam a temporada em um clube novo, a principal novidade é Martín Anselmi, no Botafogo. Trata-se do primeiro trabalho do argentino como técnico no Brasil. Campeão da Sul-Americana de 2022 contra o São Paulo e da Recopa de 2023 diante do Flamengo, Anselmi teve uma passagem turbulenta pelo Porto, em 2025, encerrada após seis meses.
Sem grandes reforços e ainda com a saída de jogadores como Savarino e Marlon Freitas, resta saber se o futebol ofensivo e vertical do jovem treinador encontrará terreno fértil no Botafogo ou se sua passagem se somará à estatística de experiências breves de estrangeiros no país.
A lista inclui casos curiosos. Em 2006, o alemão Lothar Matthäus teve uma passagem meteórica pelo então Atlético-PR: foram três meses, com seis vitórias e dois empates. Oficialmente, ele retornou à Alemanha para contornar uma crise conjugal.
Mais recentemente, o venezuelano Rafael Dudamel chegou ao Atlético-MG credenciado pelo trabalho na seleção de seu país, mas foi demitido após apenas dois meses, abreviados por uma eliminação precoce na Copa do Brasil diante do Afogados da Ingazeira, de Pernambuco.
