Natural de Portimão e no Sporting desde 2018/19, o jovem meio-campo, campeão pelo clube na temporada 2024/25, conversou com o Flashscore sobre o percurso, os sacrifícios, a ligação à família e a ambição de chegar à seleção portuguesa.
- Natural de Portimão e no Sporting desde 2018/19, o João Simões foi campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal na mesma temporada. Como foi o caminho até chegar ao Sporting?
Comecei a jogar no Silves e depois fui para o Portimonense. Correu tudo bem e, a partir daí, comecei a participar de torneios. Em 2018/2019, comecei a vir aos finais de semana, de ônibus, de Portimão até Lisboa, todos os sábados.
- Ainda é uma grande viagem, não é verdade?
Sim, o ônibus saía às oito e meia. Chegávamos, jogávamos às 15h, voltávamos às 18h30 e chegávamos a casa por volta das 22h. Isto durante três anos, até chegarmos ao sub-14, onde passei a residir e a fazer o meu percurso.
- Quais mudanças encontrou ao sair do Portimonense para um clube como o Sporting?
Encontrei muitos jogadores com enorme qualidade e talento. A forma de trabalho era muito diferente, um nível superior. Foi um choque positivo e também uma grande alegria, porque queria muito vir para cá.
- Era torcedor do Sporting desde pequeno?
Sim, sempre fui.
- Portanto, está vivendo um sonho.
Sem dúvida. Sempre foi um sonho vir para o Sporting. Claro que exigiu uma grande adaptação e muito sacrifício. Estar longe da família foi difícil, mas o sonho falava mais alto. Sempre disse aos meus pais que queria vir para cá, e isso fez com que as dificuldades não me abalassem. Sabia que estava lutando pelo meu sonho e pelo deles também, porque a minha felicidade é a felicidade deles. Então vinha para cá de cabeça tranquila, sabia que tudo o que estava fazendo seria recompensado.

- E acabou valendo a pena. Você jogou quase sempre em um patamar acima da sua idade?
Sim. A partir do sub-15, fomos campeões. Depois subi para o sub-17, depois para o sub-19 e, a seguir, para a equipe B e depois para a equipe A. Hoje estou num patamar onde sempre quis chegar.
- Durante os anos de formação, como era o seu dia-a-dia entre treinos e escola? Qual tipo de apoio tinha?
O Sporting sempre deu muito apoio. Os valores do clube estão bem definidos e a escola está sempre em primeiro lugar. Só podíamos jogar ou treinar se tivéssemos boas notas, por isso não havia espaço para facilitar. O apoio da senhora Aida, que é como uma mãe para nós, e dos supervisores era essencial, eram figuras paternas. Quando um dia não era bom, eram eles que nos davam aquele abraço que faltava dos pais. Todo o pessoal da academia - supervisores, pedagogia, psicologia - é fundamental para o nosso sucesso, dentro e fora do futebol.
-Mas também depende de vocês.
Claro, mas sem a ajuda deles seria impossível chegar onde queremos.
- Vocês eram o suporte uns dos outros, sobretudo os que vinham de mais longe?
Sem dúvida. Éramos como irmãos. Convivíamos, jantávamos juntos... éramos cerca de cinquenta ou sessenta. Todos com o mesmo sonho de chegar à equipe principal. Tentávamos sempre ajudar uns aos outros, porque só assim é que conseguimos lá chegar.
- Como define a Academia do Sporting e o trabalho que se faz aqui?
É incrível. A academia nos dá tudo o que precisamos para chegar à equipe principal. Em todos os setores. Temos acesso a tudo - treinos, ginásio, acompanhamento psicológico e pedagógico, alimentação, tudo. O espaço é pensado para nos manter focados. Isso ajuda muito. A estrutura está toda montada para formar cada vez mais jovens para a equipe principal.
- Você tem mais de 50 convocações. O que significa representar Portugal sabendo que foi criado nesta academia?
Representar a seleção é o topo. É o expoente máximo para quem joga no seu país. É um orgulho e uma grande responsabilidade, porque além de representar a nação, represento os meus pais e amigos. Todos sonhamos chegar à seleção, sabendo que é muito difícil, mas é esse o objetivo.

- Está entre os seus sonhos futuros jogar pela seleção principal?
Sem dúvida. Não sei quando será, nem se vai acontecer, mas vou trabalhar para isso, consciente da dificuldade, do nível e da responsabilidade que implica.
- Você estreou no sub-17 com 15 anos e nos sub-19 com 16. Jogar acima do seu escalão teve impacto?
Levei de forma natural. Quando era mais novo, jogava na rua com o meu irmão mais velho e com pessoas mais velhas, por isso já estava habituado. Sempre encarei o jogo da mesma forma, com naturalidade e alegria, assim como encaro hoje em dia. Tento levar comigo esse espírito do futebol de rua.
- Passou diretamente dos juniores para a equipe B. Como foi essa transição?
Foi depois da Euro. Fiz cerca de nove jogos na equipe B e depois fui chamado pelo Ruben Amorim para treinar com a equipe A. Desde então, graças a Deus, fiquei até hoje.
- Como recebeu essa notícia de ir treinar com a equipe principal?
Tem a ver com valorização, mas muita responsabilidade. Às vezes nem temos noção do que é a equipe A. Foi uma felicidade enorme. Ver jogadores como o Morten (Hjulmand), o Morita, o Dani (Bragança), o Nuno (Santos), o Pote ou o Trincão, que têm história no clube, foi um orgulho. Para quem os via como torcedor, foi especial. E também um choque bom, perceber que são pessoas normais e que eu também posso um dia fazer história no Sporting.
- Sentiu nervosismo quando entrou pela primeira vez no campo principal?
Não cheguei a tremer, mas senti aquele nervosismo natural. Foi um misto de muita felicidade e responsabilidade.

- O mister Ruben Amorim deixou todos vocês à vontade?
Sim. O grupo me recebeu muito bem desde o primeiro dia. É habitual jogadores da base treinarem com a equipe principal, o que facilita a adaptação e aproxima os dois grupos.
- Olhando para a equipe B e para os escalões abaixo, achas que há mais jogadores capazes de atingir o teu patamar?
Sem dúvida. Eu e o Quenda vamos muitas vezes ver jogos do sub-13 ou sub-14, e há jovens com muita qualidade que podem chegar à equipe A. O caminho é longo, mas vê-se muito talento. É incrível.
- Você assinou contrato profissional em fevereiro de 2023. O que sentiu nesse momento?
Foi um sonho concretizado, mas não significa que o caminho esteja feito. É um percurso longo, com muitas dificuldades. Há muita gente que tenta chegar e não consegue. É preciso manter os pés no chão, seguir com calma e ouvir os mais experientes. Só ouvindo os mais velhos que é possível chegar lá.
- Foi o João Pereira quem o lançou na equipe principal, no jogo da Taça de Portugal com o Amarante. Como recorda esse momento?
Foi um sonho tornado realidade. Desde que cheguei ao Sporting, sempre quis jogar em Alvalade. Além da realização pessoal, é também uma grande responsabilidade, porque os jovens da base olham para nós como exemplo.
- Sente-se uma referência para eles?
Sim.
- E costuma falar com os mais novos?
Sim, todos os dias. Vou falar com a Aida, a minha "mãe" e do Quenda, e costumo falar com os jovens. Pergunto como estão, como vai a escola, dou conselhos e, às vezes, também umas duras quando é preciso. É importante lembrar de onde vim e estar disponível para eles. Nós somos pessoas normais. E eu me coloco na pele deles, eu gostava que alguém da equipe principal viesse falar comigo.
- Esse espírito é parte do DNA do Sporting?
Sem dúvida. Há muita ajuda, somos todos irmãos. O grupo é muito unido e isso reflete em campo. Os valores estão muito bem definidos.

- Você marcou o seu primeiro gol pela equipe principal contra o Nacional. Foi um momento especial?
Sim, muito. Pela minha reação dá para ver que foi algo muito importante. Marcar é sempre o objetivo do jogo, e fazê-lo pelo clube do coração, em Alvalade, com a família presente, e ouvir o nome do estádio, é indescritível. Parecia um sonho saído da televisão. Estou muito grato.
- Foi um momento que compensou todo o trabalho e sacrifício ao longo dos anos?
Sim. Só o fato de estar aqui já é uma enorme gratidão. Tudo valeu a pena. Estou vivendo o meu sonho, no clube onde sempre quis jogar. Não podia pedir mais nada.
- Você ganhou o prêmio Stromp na categoria "Academia" e depois na categoria "Revelação". Sente que é uma revelação ou já uma certeza?
Sinto que ainda tenho muito para crescer e evoluir. Tenho apenas 18 anos e muito para aprender. Vou continuar a trabalhar e a ouvir os mais velhos, sempre com calma e foco em ajudar o Sporting.
- Qual conselho daria a um jovem a quem o Sporting batesse à porta?
Diria para dizer logo que sim. O Sporting dá um apoio incrível - pedagogia, psicologia, supervisão - e forma homens além de jogadores. No fim, a carreira acaba e o mais importante é o ser humano. Os valores que aprendemos aqui ficam para a vida.

- E nos estudos? Continua a estudar?
Sim. Acabei o 12º ano e entrei na universidade, na FMH, em Ciências do Esporte.
- Sente que pode ser útil no futuro, quando terminar a carreira?
Sem dúvida. Nunca se sabe o dia de amanhã. A carreira de jogador é curta, e conhecimento nunca ocupa espaço.
- Esses também são valores transmitidos na formação?
Sim. Sempre nos disseram que a escola é muito importante. Temos o Projeto, em Alcochete, com professores que nos ajudam e dedicam tempo extra. Aproveito para agradecer a eles, porque são fundamentais.
- Por fim: o que sente ao passar o portão da Academia, sabendo que ali foram formados dois Bolas de Ouro, incluindo Cristiano Ronaldo?
É um grande reflexo do que é a formação do Sporting. Há muitos jogadores de enorme qualidade - Nuno Mendes, Quaresma, Inácio, Quenda e tantos outros. O quadro do lado da formação mostra bem a qualidade e o talento que existe aqui.
