Nesta conversa exclusiva com o Flashscore, Drubscky reflete sobre a gestão do futebol brasileiro, o tratamento dado aos técnicos, com muitos deles não tendo o devido tempo de mostrar seu trabalho e lembra sobre sua importância na criação da CBF Academy, o curso da Confederação Brasileira de Futebol, pensado em formar novos treinadores e que superou as expectativas.
O treinador citou sobre a falta de união da classe no cenário brasileiro, com um longo caminho sendo necessário para chegarmos em um patamar satisfatório.
Confira a conversa:
Muitos dizem que o futebol brasileiro é uma "máquina de triturar técnicos". Por que a paciência com os treinadores é tão curta no cenário nacional?
A sociedade brasileira como um todo traz suas particularidades que fazem com que isso aconteça. Futebol é interesse de todos, uma paixão nacional. Mas a sociedade também vê o futebol de um jeito especial, é um esporte de preferência avassaladora. É o ópio do povo, isso é algo público e notório há muitos anos.
Os dirigentes, pessoas diretamente envolvidas por contratar e demitir os treinadores, sofrem as consequências desta pressão. Isso faz com que eles não consigam segurar e cedam às pressões. Aliado a isso, temos a falta de uma regulamentação que dê mais estrutura a estes dirigentes de clubes, sejam de SAF ou não. Isso serviria para eles terem mais segurança e manter um profissional por mais tempo. Temos que mexer em muitos pontos para melhorar este quadro.
Caminho é longo (e possível) de ser alterado para que técnicos possam desempenhar seu trabalho por mais tempo?
Existem vários caminhos. Uma das soluções seria regulamentar procedimentos a nível de competições e desporto nacional para que clubes e dirigentes não fiquem vulneráveis às ondas de pressão. Deveria haver algo mais forte do que já foi inventado como limitar número de trocas. Assim, torcida, mídia, jogadores, sociedade e dirigentes vão saber que aquele treinador que ali está vai permanecer, correndo o risco do clube ser punido se não cumprir a regra.
Determinar em quanto tempo isso pode acontecer depende de uma conscientização nacional tomar conta do mercado do futebol, precisamos chegar num consenso. Sempre que tivermos um foro pra discutir as questões do futebol brasileiro, os envolvidos precisam saber que algo será cortado em sua pele. Isso precisa ser aceito. Se não for assim, teremos um período longo de instabilidade em nosso futebol.

Alguma situação mais absurda que se lembra de ter acontecido (com você ou outro treinador) de tempo curto demais para exercer o trabalho?
No Fluminense e Vitória, fiquei dois meses e meio em cada clube. Tive um aproveitamento excelente nos dois, em torno de 60%. Ainda assim, fui demitido por razões fora do controle e sem propósito. Foram pressões absorvidas (ou não), que fizeram com que a demissão fosse o único caminho, ainda que o trabalho estivesse no começo.
Isso acontece com muitos técnicos de vários perfis e níveis. E de forma injusta, pelo curto período de tempo. Isso prova que não existe critério na gestão dos clubes. Lamento porque o futebol sofre com isso. Treinador é a peça da engrenagem que está diretamente relacionada às demissões.
Falta convicção para muitos times na hora de contratar e demitir? Muitos parecem que não definem bem o perfil na hora de contratar, as opções são de técnicos com perfis bem diferentes...
É um tema que vem sendo debatido há muito tempo. Em raras vezes, vemos coerência nos perfis de treinadores contratados. O ponto-chave é o alívio de pressão, com os treinadores absorvendo pra si a responsabilidade de tudo que acontece no clube. As coisas ali dentro vão muito além dos resultados, não deveria ser assim. As contratações são feitas convenientemente, são raros os momentos de lucidez que os clubes encontram. Parece não existir uma preocupação com a construção de um legado, algum tipo de DNA de perfil de jogo. É algo recorrente no futebol brasileiro.

Você já atuou como preparador físico, dirigente, técnico de time profissional e da base. Isso lhe rende uma visão mais completa para exercer o cargo de treinador?
Ter militado em vários segmentos do futebol me fez ter um entendimento abrangente. Isso me dá um bom suporte nas tomadas de deciões. Sempre trabalhei diretamente no campo de futebol, mesmo quando era diretor.
Quando exerci esta função em clubes grandes, era algo mais ligado ao campo de jogo e treino, é um lugar que tenho a visão bem consolidada. Tive a chance de frequentar esferar decisórias que me fizeram entender os clubes como um todo, compreender o futebol de forma abrangente. Sinto-me um felizardo por ter tido as oportunidades de aumentar este conhecimento.
Deve ser diferente a forma de um técnico atuar na base e no profissional? Ou a exigência deve ser a mesma?
São universos distintos, mesmo com o jogo sendo uma coisa só. Mas a regra de cada faixa etária precisa ser obedecida, existem atenções especiais a serem dadas. Uma frase que resume bem a diferença é: "na base, joga-se para formar, enquanto no profissional joga-se para vencer". É preciso ter um lado formador maior na base, a didática pedagógica é diferente. A partir dos 18 anos, a linha de comportamento muda, são profissões bem distintas.

Tem interesse em voltar a ser dirigente?
Sou um treinador e professor por excelência. Todo técnico é um professor, tenho minha maneira de liderar e conduzir para exercer esta função professoral, transmitir o conhecimento aos jogadores. Sinto-me realizado onde estou, quero levar minha carreira até o final como treinador. Ainda tenho muita coisa pra mostrar, quero fazer o Brasil ver um futebol moderno jogado por brasileiros, dentro do cenário nacional. Este é meu sonho e minha busca constante.
Quais os maiores aprendizados que teve nesta função?
Minha vida é o futebol, ela se confunde com o futebol desde sempre. Não fiz outra coisa na vida a não ser trabalhar com futebol e vivê-lo. Claro que a família divide as atenções, mas o futebol está compulsivamente na minha rotina.
Os prazeres e aprendizados se dividem entre relações humanas, entender a ciência que suporta o esporte, a psicologia, fisiologia, o treinamento esportivo, a arte da comunicação, tudo isso foi agregado.

Quando e como foi o trabalho de montagem da CBF Academy? Você ainda acompanha este projeto?
Esste projeto é um legado que conseguimos deixar junto de outros profissionais, sempre digo que foi um gol de placa. Eu corria atrás de cursos quando era mais jovem e nunca ficava satisfeito com o que era oferecido.
Em certo momento, apareceu a ideia junto das parcerias, como da PUC Minas. Esta escola da CBF está no mesmo nível das conquistas da Seleção, das revelações do futebol brasileiro.
É um produto que não pode sofrer baque, ele precisa evoluir sob todos os aspectos. Não faço mais parte do projeto, a direção e a política foram mudadas, mas estou sempre na torcida para que ele permaneça e seja um caminho de transição para os profissionais. Era algo que faltava no futebol brasileiro, espero que se fortaleça nos próximos anos.

No que ele consiste? Era algo que faltava no futebol brasileiro?
No começo, tínhamos 7 ou 8 alunos, De repente, vieram ex-atletas, profissionais da base, outros do profissional e de divisões menores. Pensávamos que muita gente da comunidade do futebol teria dúvidas e poderiam até rejeitar a ideia. Afinal, estaríamos ensinando futebol em um país onde todo mundo tem um pouco de treinador.
Com o passar do tempo, a ideia só recebeu credibilidade, grandes nomes do futebol passaram por ali e seguem passando. Treinadores de nível de seleção, de dentro e fora do Brasil, América do Sul e outros países. Eles têm visto o que o Brasil transmite na formação de um treinador. É uma ideia que se fez valer e se mostrou resistente, com as salas sempre lotadas.

Falta o futebol brasileiro olhar (ainda mais) para o futebol sul-americano na hora de contratar?
Este olhar melhorou nos últimos 10 anos. Antes, era mais tímida. Estamos falando de olhar treinadores e jogadores, o Brasil tem aberto as portas como antes não estava acostumado, uma abertura significativa para outros profissionais e novos mercados. A médio e longo prazo, isso vai contribuir muito para o futebol brasileiro.
Acha que a Liga de Futebol Brasileiro tem futuro e vai sair do papel? Quais seriam suas maiores contribuições?
Ainda não vimos a ideia ser implantada na prática Tivemos o clube dos 13, que foi uma experiência que não atingiu o nível de atenção que os clubes precisam. A liga não é uma solução, porque o desenvolvimento precisa acontecer em várias outras áreas. As ligas que comandam o futebol europeu estão 100% voltadas para as dificuldades, virtudes e necessidade dos clubes.
A ideia pode ajudar em termos financeiros, mas é preciso ver outras situações como logística, questões de marketing, desenvolvimento científico, são várias coisas a serem equacionadas. O clubes podem ficar lado a lado para discutir um caminho de crescimento. Se uma liga for feita com moldes de uma gestão profissional, pode ser muito valiosa para os clubes brasileiros.

O que lhe inspirou para escrever seu livro? Gostou do resultado?
Escrever fez parte da minha vida desde sempre. Principamente depois que entrei pra escola de Educação Física com 19 ou 20 anos. Ali, eu já comecei a escrever sobre futebol, gostava de expressar ideias e rabiscar algumas coisas. Isso veio se fortalecendo.
Tenho a convicção que sou um profissional que produz conhecimento. Não deixo passar as coisas que não entendo, procuro sempre correr atrás, construo conhecimento a toda hora, tento transformar este conhecimento para outras variáveis que podem trazer benefícios.

Tenho prazer pela literatura, escrever é algo natural, acordo de madrugada e tenho caneta e papel espalhados pela casa. Estou sempre redigindo algo, sempre pensando no futebol, é algo que me faz crescer. Escrever é um pedaço de mim, não tenho como me separar disso. No momento, finalizado o trabalho no Betim Futebol, estou aguardando uma oportunidade no mercado e, quando voltar à beirada do campo, seguirei sendo um escritor. É algo que gosto e me sinto à vontade e capacitado para exercer.
Classe dos treinadores do futebol brasileiro poderia ser mais unida?
Procurar um sentimento de classe pode ser incoerente. Ainda mais dentro de um mercado confuso. Quando se demite um treinador, já se tem outros à espreita. Tudo fora disso é um pouco de fantasia. Muitos poucos clubes conseguem terminar seus projetos no meio ou final da temporada sem mudanças. Há muito ferimento à ética profissional. Culpar treinador só por isso é injustiça, o mercado é assim.
Precisamos mudar muita coisa para reinvincidar este movimento de classe. Os treinadores poderiam ser mais próximos, buscando ações mais éticas e respeitosas. Tivemos uma Federação dos Treinadores que se apagou, era um movimento importante mas não se firmou como deveria.
Mas, aqui no Brasil, infelizmente, as coisas são um pouco volúveis. São ondas que batem e terminam. Tínhamos um grupo de WhatsApp onde ideias eram colocadas, mas ele se acabou. Fica a sensação de que cada um briga por si e Deus olhe por todos.
Recentemente você quase conquistou o seu 6º acesso na carreira ao trabalhar no Betim. Como foi esse trabalho?
Confesso que passei uns dois dias chateado. Perdemos no último jogo quando o empate era nosso. Foram 21 jogos com um nível de jogo muito bom. O trabalho foi bem feito, tivemos problemas que fazem parte. Mas isso não perturbou em nada o interesse, dedicação e qualidade do trabalho.
Fomos eliminados com ares de crueldade, quando um pênalti na prorrogação nos deixou de fora. Perdemos para o futebol, é algo que acontece. Uberlândia e Itabirito, que subiram para a elite mineira, tiveram seus méritos.
A URT também foi bem. Ficamos devendo ao povo de Betim, ao clube que nos ajudou e acolheu, dando condições para fazer um bom trabalho. Batemos na trave mas confio muito que o Betim vai subir em breve.
Confira os cargos já exercidos por Ricardo Drubscky
Treinador (Botafogo, Volta Redonda, Athletico-PR, Fluminense, Tupi, América-MG, Joinville, Ipatinga, Caxias, Betim, Vitória, Anápolis, Tombense, Boston City, Floresta, Araçatuba, Atlético-MG, América-MG, Democrata, Mamoré, Monte Azul, Paraná, Criciúma, Goiás)
Diretor de Futebol Profissional (Cruzeiro, América-MG, Atlético-MG)
Coordenador Técnico (Cruzeiro)
Gerente de Futebol de Base (Cruzeiro, Atlético-MG, América-MG, Athletico-PR)
Treinador de Base (Cruzeiro, Atlético-MG, América-MG, Tokai It Kow School-JAP)
Preparador físico (Cruzeiro, Universidade Católica de Quito-EQU, Penafiel-POR, Chaves-POR)
