Edson Bindilatti: De "Jamaica Abaixo de Zero" à 6ª Olimpíada do pioneiro do bobsled brasileiro

Edson Bindilatti: De "Jamaica Abaixo de Zero" à 6ª Olimpíada do pioneiro do bobsled brasileiro
Edson Bindilatti: De "Jamaica Abaixo de Zero" à 6ª Olimpíada do pioneiro do bobsled brasileiroFlashscore / MADDIE MEYER / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Edson Bindilatti já era velocista quando recebeu um convite improvável: testar o Bobsled, uma modalidade desconhecida no Brasil, disputada sobre o gelo e a mais de 150 km por hora. Antes mesmo da primeira descida, veio o susto em casa. A mãe e a namorada, que viria a ser sua esposa, assistiram ao filme Jamaica Abaixo de Zero e enxergaram perigo onde Emerson via curiosidade. Mas bastou o primeiro contato para tudo mudar.

No instante em que o trenó ganhou velocidade e o gelo virou horizonte, Edson Bindilatti encontrou algo maior que o medo: encontrou propósito. Anos depois, de volta da aposentadoria para pilotar a equipe brasileira em sua sexta Olimpíada de Inverno, ele prova que algumas paixões podem até nascer do cinema, mas a vida se encarrega de torná-las reais. 

O Flashscore conversou com exclusividade com Edson Bindilatti, o veterano atleta do Time Brasil, recordista de participações olímpicas e um dos pioneiros do Bobsled nacional.

Aos 46 anos, ele faz uma reflexão sobre seu retorno às pistas para aquela, que ele garante, será sua última participação em Jogos de Inverno. Edson também analisou sua trajetória na modalidade, as dificuldades de ser um atleta de alto rendimento no Brasil e a projeção do resultado nacional em Milão-Cortina. 

"A referência que me deram foi o filme Jamaica Abaixo de Zero"

- Como foi o início da sua trajetória no bobsled? Quando você decidiu disputar o esporte e falou que queria ir para a Olimpíada de Inverno, como sua família e seus amigos reagiram?

O bobsled é conhecido como a Fórmula 1 do gelo. No meu caso, a entrada na modalidade aconteceu por causa dos resultados que eu tinha no atletismo. Eu também vim do atletismo, competi no decatlo e fui campeão brasileiro e sul-americano diversas vezes. Por conta desses resultados, me procuraram e perguntaram se eu gostaria de experimentar o bobsled. 

Como qualquer brasileiro comum, eu não sabia exatamente o que era a modalidade. A referência que me deram foi o filme Jamaica Abaixo de Zero. Disseram para eu assistir e depois decidir. Assisti na época com a minha mãe e com a minha namorada, que hoje é minha esposa. A reação dela foi de preocupação, achando que era perigoso e que eu poderia me machucar. Eu argumentei que os trenós tinham tecnologia e que não tombavam. Depois percebi que, na verdade, eu só queria conhecer.

Edson Bindilatti na pilotagem do trenó brasileiro
Edson Bindilatti na pilotagem do trenó brasileiroADAM PRETTY / GETTY IMAGES ASIAPAC / GETTY IMAGES VIA AFP

É curioso, porque eu nunca tive coragem de pular de balão, paraquedas ou fazer bungee jump. Mas entrar em um trenó a cerca de 150 km/h, sem cinto de segurança, não me parecia tão absurdo. 

Quando conheci a modalidade de fato, desci pela primeira vez achando que apenas observaria nos primeiros dias. De repente, me mandaram sentar no trenó, colocar o capacete, abaixar a cabeça e simplesmente ir. Eu ainda não era piloto, só abaixava a cabeça e rezava, literalmente. A pista é extremamente sinuosa, com cerca de 20 curvas, e manter o controle é muito desafiador.

Mesmo assim, foi quase um amor à primeira descida. Eu pensei: “Não foi tão ruim assim. Vamos de novo?”. E assim foi acontecendo. Quando contei à minha família que tentaria a qualificação para os Jogos Olímpicos, a reação foi de surpresa. Muitos nem sabiam que existia bobsled nos Jogos Olímpicos. Eu explicava que era igual aos Jogos de Verão, apenas em outra versão.

Com o tempo, eles foram entendendo, assim como eu. Naquela época, poucas pessoas conheciam a modalidade. Até hoje, muita gente ainda não reconhece o bobsled pelo nome, mas associa imediatamente ao filme Jamaica Abaixo de Zero. Quem já assistiu, inclusive, acaba entregando a idade, porque é um filme antigo. Mas, no fim, as pessoas acabam entendendo. E foi mais ou menos assim que tudo começou.

Despedida ou ainda pode ter mais? 

- Qual é a sua expectativa para mais uma Olimpíada de Inverno e o que significa, para você, disputar novamente os Jogos como um dos nomes consolidados do Time Brasil?

A preparação está sendo sensacional, e estou muito contente por participar dos Jogos Olímpicos. Será a minha sexta participação, mas, desta vez, de forma muito especial, pois marca a minha despedida definitiva.

Além disso, esta Olimpíada tem um significado diferente para mim. Pode parecer curioso, aos 46 anos, mas chego mais bem preparado fisicamente, mentalmente e tecnicamente. Hoje, me sinto plenamente realizado como piloto, com muitos anos de experiência acumulada. Alcançar um nível elevado de pilotagem, com precisão e tranquilidade, exige tempo, e acredito ter chegado a esse estágio com boa qualidade física. 

Edson Bindilatti com o novo trenó brasileiro para os Jogos Olímpicos de Cortina-Milão 2026
Edson Bindilatti com o novo trenó brasileiro para os Jogos Olímpicos de Cortina-Milão 2026Arquivo Pessoal

- Vai ser mesmo a última Olimpíada ou você pode repensar a decisão? 

Eu estava até brincando com os meninos, porque, na qualificação, a gente competiu em várias etapas. Disputamos principalmente a Copa América, mas também a Copa Europa. Ficamos mais concentrados nas provas na América no início. Em uma dessas competições, havia um francês tentando vaga na qualificação olímpica, com 51 anos. Aquilo acabou me motivando. Eu até brinquei: “Isso aqui está querendo me motivar”. Quando você sai, se aposenta, a esposa fala: “Chega!”. Mas depois você escuta, gosta, se empolga e pensa: “Opa, agora vou de novo. Não quero acabar com isso tão cedo”.

Na verdade, foi engraçado, porque a minha volta aconteceu justamente por causa da mudança das regras. Eu tinha me aposentado em 2022. Antes, pela Confederação Internacional, você podia se qualificar apenas no 2-man (trenó com dois atletas) ou apenas no 4-man (trenó com quatro atletas). Depois de 2022, no congresso realizado após os Jogos Olímpicos, a Confederação determinou que, para a qualificação atual, seria necessário um combinado: o atleta teria que pilotar tanto o 2-man quanto o 4-man, somando a pontuação das duas provas.

Com isso, não havia mais a possibilidade de competir apenas em uma das modalidades, porque não seria suficiente em termos de pontuação para se classificar para os Jogos Olímpicos. Naquela época, o Gustavo (Ferreira), que é um piloto em desenvolvimento, ainda não tinha experiência no 4-man. A Confederação ficou receosa de o Brasil não conseguir a qualificação no bobsled, o que seria ruim inclusive do ponto de vista financeiro, já que o Comitê Olímpico apoia a Confederação no custeio de treinamentos e competições, não só no bobsled, mas em outras modalidades também.

Então, eles me perguntaram se eu poderia voltar. Não era uma garantia de classificação, mas havia uma probabilidade muito grande, pela experiência que eu já tinha. Eu pensei por cerca de 30 segundos e aceitei o desafio. Depois, conversando com calma, falei com a minha esposa. Sentamos, conversamos e entendemos que poderia ser importante tanto para a evolução e o desenvolvimento da modalidade quanto para mim, pessoalmente. Então, decidimos encarar. E deu certo. Eu me preparei muito bem para chegar a esse momento e tentar alcançar um grande resultado.

Qual a diferença que você enxerga em relação à primeira Olimpíada que você disputou e a edição deste ano? Acredita que o apoio e a visibilidade aumentaram? 

É uma diferença muito grande. Talvez isso não fosse tão perceptível na primeira Olimpíada que disputei, mas hoje a gente consegue enxergar com mais clareza. Sem dúvida, o apoio também aumentou. De uns dois ou três anos para cá, as coisas melhoraram bastante, principalmente na forma como o próprio Comitê Olímpico passou a enxergar os esportes de inverno.

Hoje, contamos com trenós competitivos. Em 2022, competimos com trenó emprestado, alugado, e até lâminas emprestadas. Agora, chegamos com um trenó novo no four-man e um trenó semi-novo no two-man. Todo esse material foi adquirido pelo Comitê Olímpico em parceria com a nossa confederação, o que demonstra um avanço significativo no apoio às modalidades.

Equipe brasileira do bobsled exibe capacete para a disputa olímpica
Equipe brasileira do bobsled exibe capacete para a disputa olímpicaDivulgação

Também não posso deixar de exaltar o trabalho de vocês da comunicação, da imprensa e dos veículos que vêm crescendo de forma impressionante. Isso já ficou muito claro em Paris 2024. Foi a primeira Olimpíada que gerou um impacto tão grande, com várias transmissões, múltiplas plataformas e um volume enorme de cobertura. O sucesso dos Jogos Olímpicos de Verão foi evidente.

Acreditamos que, mesmo antes do início dos Jogos Olímpicos de Inverno, essa já será a melhor cobertura da história para a modalidade. Isso me deixa muito feliz por fazer parte desse processo e por contribuir para que os esportes de inverno ganhem mais visibilidade. Esse movimento também inspira outros atletas.

"Se a gente não se vira, viver do esporte no Brasil é praticamente impossível"

- Você não vive apenas do bobsled. Como é conciliar essa vida de atleta de alto rendimento com o cotidiano longe das pistas? Em algum momento pensou em desistir? 

A gente é atleta, mas também é ser humano. Eu já bati em muitas portas de possíveis patrocinadores e, na maioria das vezes, ouvi apenas “não”. No ano passado, porém, foi diferente. Foi um ano muito especial, porque consegui um patrocínio que eu nunca tinha tido na vida. Isso me motivou bastante e foi fundamental para que eu continuasse, porque, em vários momentos, pensei seriamente em parar. Não foi fácil, foi muito difícil.

No Brasil, em muitas modalidades, o atleta amador não consegue viver apenas do esporte. Hoje eu recebo o Bolsa Atleta, por meio do governo federal, e só tenho a agradecer por esse programa, que ajuda muitos atletas a continuarem treinando e competindo. Muitos só conseguem seguir na modalidade por causa desse suporte.

Brasileiros estão preparados para entregar a melhor campanha brasileira em Jogos Olímpicos de Inverno
Brasileiros estão preparados para entregar a melhor campanha brasileira em Jogos Olímpicos de InvernoDivulgação

Mesmo assim, eu sou pai de família, tenho esposa e filhos, e apenas o Bolsa Atleta não é suficiente para me sustentar nem para me preparar adequadamente para as competições. Por isso, trabalho em várias frentes. Sou personal trainer, professor de educação física e preparador físico. Tenho clientes e alunos no Brasil, mas existe uma dificuldade: quando eu viajo para competir, não recebo, porque se não dou aula, não ganho.

Para equilibrar isso, também criei uma consultoria online de corrida. Trabalho à distância com meus alunos — que eu chamo de atletas —, seja para quem quer começar a correr, melhorar a qualidade de vida, buscar emagrecimento ou evoluir no desempenho. Uso um aplicativo para montar treinos personalizados, de acordo com o objetivo de cada um. Isso acaba ajudando um pouco, mas a realidade é essa: não é fácil. Se a gente não se vira, se não dá os próprios “pulos”, viver apenas do esporte no Brasil se torna praticamente impossível.

- Qual é a sensação de poder olhar para trás e ver o esforço recompensado ao participar de não apenas uma, mas da sua sexta Olimpíada? 

Passa um filme na cabeça. Na verdade, tudo isso precisou ser muito estudado para chegar até onde a gente chegou, apesar de todas as dificuldades. Foi muita vontade, muita resiliência e muita crença de que uma hora daria certo, de que em algum momento as coisas iriam melhorar.

Acredito que eu sou um case de sucesso. Não apenas para atletas ou para quem pensa em ser atleta, mas como exemplo de resiliência para a vida. Para qualquer trabalho ou meta que alguém se proponha a alcançar. Se você acredita, se você quer, pode até demorar — para alguns chega mais rápido, para outros leva mais tempo —, mas chega. Se houver persistência, acontece. 

Edson Bindilatti, o porta-bandeira do Brasil nos Jogos Olímpicos de Pyeongchang 2018
Edson Bindilatti, o porta-bandeira do Brasil nos Jogos Olímpicos de Pyeongchang 2018ROBERTO SCHMIDT / AFP

Eu nunca parei de querer aprender e estudar. E isso não vai ficar só comigo. Vai ficar para os próximos que estão chegando — e que vão chegar com muito mais facilidade e mais perto de uma possível medalha olímpica no futuro. Quando olho para trás, tenho a sensação real de dever cumprido. Fiz tudo o que precisava ser feito de coração, por amor ao esporte. Porque, financeiramente, definitivamente não foi por isso.

Trenós de mais de R$ 700 mil e até onde o Brasil pode chegar

- Qual é o custo do bobsled? Quanto custa um trenó? Existe alguma limitação de peso para as equipes? 

Existem regras bem definidas no bobsled, tanto no two-man quanto no four-man. No two-man, o trenó não pode pesar menos de 170 quilos, sendo que o peso ideal do trenó gira em torno de 175 quilos. Caso a soma do trenó com os atletas não alcance o limite máximo permitido, é possível acrescentar lastro. No total, trenó e atletas podem chegar a, no máximo, 390 quilos. Se, por exemplo, a equipe estiver com 370 ou 380 quilos, é permitido adicionar peso para se aproximar desse limite, o que, em tese, ajuda na velocidade de descida. Ainda assim, tudo depende da largada, da pilotagem e da qualidade do material.

No four-man, o peso mínimo do trenó é de 210 quilos, e o peso máximo total, incluindo os atletas, é de 630 quilos. Muitas vezes, as equipes ficam com 610, 620 ou 625 quilos e podem acrescentar peso até chegar ao limite. O ideal, no entanto, é que esse peso esteja nos atletas, pois isso permite manter o trenó mais leve dentro das regras e, teoricamente, facilita uma largada mais rápida, completando o peso total com o corpo dos competidores.

É justamente por isso que o bobsled é conhecido como a Fórmula 1 do gelo. Um trenó competitivo novo de four-man custa hoje entre 100 mil (cerca de R$ 619 mil) e 120 mil euros (R$ 742 mil). No two-man, os valores variam entre 60 mil (R$ 371,4 mil) e 70 mil euros (R$ 433,3 mil). Isso faz com que o Brasil largue em desvantagem financeira em relação a muitas equipes do mundo, o que mostra o tamanho do desafio para competir em alto nível e ainda assim alcançar resultados expressivos.

Mesmo com essas dificuldades, somos campeões da Copa América de bobsled e acabamos de conquistar uma medalha na Copa Europa, em uma pista extremamente competitiva. Isso comprova que temos potencial e condições de alcançar grandes resultados, embora o investimento ainda seja uma necessidade clara.

Equipe brasileira em São Caetano do Sul durante preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022
Equipe brasileira em São Caetano do Sul durante preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022BUDA MENDES / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

- O que esperar da participação da equipe brasileira de bobsled e qual mensagem você deixa para quem vai acompanhar a modalidade pela primeira vez? 

A mensagem que eu deixo para quem vai acompanhar os Jogos Olímpicos de Inverno agora em Cortina, especialmente o bobsled — modalidade da qual eu sou piloto e vou competir tanto no Two-Man quanto no Four-Man —, é que torçam bastante. O brasileiro, muitas vezes, tem a ideia de que, se não ganhou, foi ruim, que segundo, terceiro ou quarto lugar não valem nada. Mas a verdade é que somos um time com muita vontade, um time muito forte. A gente não está aqui para passear nem para brincar. Viemos para mostrar ao mundo que somos Brasil de verdade e que temos condições de estar entre os melhores.

É claro que existem apenas três medalhas para 28 equipes, então a disputa é muito difícil. A gente não fala abertamente em medalha, mas eu nunca entro em uma competição sem pensar em ouro. Se você não entra pensando em medalha, já entra perdendo — e isso, com certeza, não vai acontecer com a gente. A gente sabe o quanto é difícil, mas antes de começar, todos têm chance.

Brasil inicia disputa no bobsled nesta segunda-feira (16)
Brasil inicia disputa no bobsled nesta segunda-feira (16)Gabriel Heusi/COB

Quando o Brasil vai competir no bobsled nos Jogos Olímpicos de Inverno?

16 de fevereiro (segunda-feira)

6h e 7h57: bobsled 2-Man - descidas 1 e 2

17 de fevereiro (terça-feira)

15h e 17h05: bobsled 2-Man - descidas 3 e 4

21 de fevereiro (sábado)

6h e 7h57: bobsled 4-Man - descidas 1 e 2

22 de fevereiro (domingo)

6h e 8h15: bobsled 4-Man - descidas 3 e 4