"Eu sabia que estava diante de uma grande e única oportunidade. Era um jogo pela Copa da Bulgária, partida única, sem transmissão e o time de Sofia estava em busca de um lateral-esquerdo. As coisas conspiraram a favor e fui com tudo para esta partida. Perdemos, mas tive um bom desempenho e chamei atenção deles", lembra Bruno.
Foi a partir desta transferência que ele deixou de lado uma realidade no Brasil que passou por juntar trocados com colegas de time para almoçar biscoito de água e sal. As marmitas prometidas pelo clube que defendia costumavam chegar frias e azedas, já no final de tarde.
No cenário nacional, Bruno rodou pelos paulistas Batatais, Guarulhos, Rio Branco e Matonense, e enfrentou uma constante realidade de atrasos e não pagamento de salários, o que o fez duvidar, várias vezes, do que o futuro no mundo da bola lhe daria.

Um dos alojamentos era apelidado de "Carandiru" pela estrutura e número de pessoas com quem dividia a casa. "Ali foi o fundo do poço. Como eu ia jogar futebol sem conseguir me alimentar?", conta. Bruno já começava a mexer seus pauzinhos para ser motorista de Uber, sem ter muito pra onde correr.

Nada mole vida
A situação oscilante no Brasil não o fez pensar duas vezes quando chegou uma proposta de fora. Na chegada à Bulgária, para defender o Spartak Pleven, os perrengues seguiram, já que o visto de trabalho demorou a sair.
Bruno ficou entre três e quatro meses somente treinando, sem receber salário, tendo direito a uma única refeição por dia, morando no hotel que era de propriedade do dono do clube.
"A gente acha que vai chegar na Europa e vai encontrar campo bom e não foi nada disso. Os gramados de lá me fizeram lembrar da Bezinha (5ª divisão paulista). Desembarquei com um pensamento e me deparei com outro cenário, em vários aspectos. Mas admito que os perrengues da Europa não são nada comparados com os que passei no Brasil", compara.
A ajuda dos pais (uma faxineira e um funcionário da fábrica Lupo) foi o que salvou desde quando passava apuros no Brasil, precisando pagar do próprio bolso para manter vivo o sonho de jogar na Europa. "Eu até brinco que era melhor passar perrengue na Europa do que no Brasil. Mas era perrengue do mesmo jeito", conta.
A espera até a chance de ouro vir, no jogo contra o Lokomotiv Sofia, pareceu uma eternidade. O tempo de sobra, já que treinava apenas uma vez por dia, foi bem usado em aulas online de inglês para conseguir se virar de forma mínima nas ruas búlgaras. "Eu treinava no quarto para estar bem preparado. Precisava dar a vida quando o visto saísse", lembra.

A esperada estabilidade
Hoje, ele atua no Araz Naxcivan, do Azerbaijão, tendo uma condição financeira que permitiu levar seus pais para morarem ao seu lado. Lá, se deparou com uma realidade de jogar as partidas como mandante na capital Baku, longe da cidade do clube, algo comum para o seu e outros times.

Outra novidade foi atuar ao lado de muçulmanos, com o momento de reza sendo prioridade para eles, que se ausentam dos treinos para atender ao chamado de seu Deus. O inglês, que parecia bem mais útil na Bulgária, de pouco adianta em solo azeri, precisando recorrer ao tradutor do celular em mercado e restaurantes.

O sentimento de segurança e um salário que lhe permite fazer um "pé de meia" lhe dão a certeza de que a escolha da mudança para o Azerbaijão foi certa, colhendo frutos depois de "roer o osso" perto e longe de casa.
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