Ídolo máximo da Fiel, Tite marcou época no Corinthians. Foi sob seu comando que o clube alcançou a América de forma invicta e conquistou o último Mundial de Clubes vencido por uma equipe do Brasil, em 2012.
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No Cruzeiro, Tite busca reeditar o histórico vitorioso que o levou à Seleção, mas enfrenta a resistência de uma torcida celeste desconfiada. O duelo contra o Corinthians é crucial para o treinador e sua comissão, que seguem sob questionamento apesar da invencibilidade de quatro jogos — três vitórias e um empate.

O "porém" reside no nível técnico: os triunfos vieram no Campeonato Mineiro, contra adversários menos expressivos. É no Brasileirão que o desafio aperta: ainda sem vencer, a Raposa amarga a lanterna com apenas um ponto.
Do outro lado, Dorival Júnior ostenta dois títulos nacionais recentes de peso: a Copa do Brasil de 2025, em que eliminou o próprio Cruzeiro nas semifinais, e a Supercopa do Brasil deste ano, superando o Flamengo, atual campeão brasileiro e da Libertadores.
Mesmo sem o artilheiro Yuri Alberto, entregue ao departamento médico, o Corinthians vive um início de Brasileirão oposto ao do Cruzeiro. Com duas vitórias em três jogos — a última delas um 1 a 0 sobre o Athletico-PR na Arena da Baixada, com gol de Rodrigo Garro —, o Alvinegro chega embalado. Já classificado às semifinais do Paulistão, o Timão busca manter o ritmo diante de uma Raposa que ainda tenta encontrar sua identidade sob o comando de Tite.

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Trajetória que pode servir como inspiração
Tite teve três passagens pelo Corinthians, levando o time a seis conquistas, incluindo a Copa Libertadores e o Mundial de Clubes de 2012, além dos Campeonatos Brasileiros de 2011 e 2015. Mas para chegar à glória, o comandante teve que superar um cenário adverso, parecido com o que vive atualmente no Cruzeiro.
Em 2011, o Corinthians foi o primeiro clube brasileiro a ser eliminado na fase preliminar da Copa Libertadores. Após um empate em 0 a 0 no Pacaembu, o Timão perdeu por 2 a 0 para o modesto Deportes Tolima, na Colômbia.
Tite era o comandante do Corinthians naquele fatídico resultado e a pressão por sua saída foi grande. Porém, em uma decisão raríssima no futebol brasileiro, o então presidente Andrés Sanchez bancou a permanência do treinador. Em vez de seguir o clichê de "demitir o técnico para dar satisfação", a diretoria entendeu que o trabalho era bom e o problema era de fim de ciclo de alguns jogadores.

Com total respaldo da gestão do Corinthians, Tite aproveitou a "terra arrasada" para reconstruir o time com base na disciplina tática e no coletivo, deixando de lado o modelo de "galácticos" — naquela época, o Timão contava com nomes como Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos.
Foi nesse período que Tite se consolidou como um técnico de elite, tanto no cenário nacional quanto mundial, adotando conceitos e bordões que se tornaram marcas registradas de sua carreira. Entre eles, destaca-se o "merecimento" — termo que repetia exaustivamente para enfatizar que o sucesso era fruto de trabalho árduo e repetição. Além disso, o equilíbrio tornou-se seu mantra: embora o time raramente desse espetáculo, operava com uma eficiência cirúrgica. E, claro, o icônico "Fala muito!" direcionado a Felipão, provando que Tite não se deixava intimidar por figuras consagradas.
Quinze anos após o divisor de águas que foi o "Tolima Day", Tite reencontra o Corinthians em uma posição curiosamente familiar. Se no Parque São Jorge a manutenção do seu cargo após uma crise gerou a era mais vitoriosa do clube, no Cruzeiro o treinador busca o mesmo voto de confiança.
Hoje, o mantra do "merecimento" enfrenta o ceticismo de uma torcida que ainda não viu o time engrenar na Série A. No Mineirão, o desafio de Tite é provar que o equilíbrio e a eficiência de outrora não ficaram nos livros de história, mas são as ferramentas exatas para tirar a Raposa da lanterna e recolocá-la no caminho das conquistas. Contra o seu passado mais glorioso, o técnico joga o seu futuro mais imediato.

Retrospecto positivo contra o Corinthians
O duelo desta quarta-feira será o 16º encontro de Tite com o seu ex-clube. E o retrospecto é favorável ao treinador: em 15 jogos disputados até aqui, ele saiu vitorioso em oito oportunidades, sofrendo cinco derrotas e somando dois empates contra o Timão.
Mas a última memória não foi positiva para Tite. No comando do Flamengo, o treinador saiu derrotado pelo adversário paulista por 2 a 1, na Neo Química Arena, em São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro de 2024.

Os jogos de Tite contra o Corinthians:
13/03/1997 – Corinthians 2 x 0 Juventude – Copa do Brasil 1997
20/03/1997 – Juventude 2 x 0 (3 x 5 pen.) Corinthians – Copa do Brasil 1997
10/06/2001 – Grêmio 2 x 2 Corinthians – Copa do Brasil 2001
17/06/2001 – Corinthians 1 x 3 Grêmio – Copa do Brasil 2001
21/10/2001 – Corinthians 1 x 2 Grêmio – Série A do Brasileirão 2001
08/09/2002 – Grêmio 4 x 0 Corinthians – Série A do Brasileirão 2002
08/10/2003 – Corinthians 0 x 3 São Caetano – Série A do Brasileirão 2003
29/05/2005 – Atlético 0 x 1 Corinthians – Série A do Brasileirão 2005
16/07/2006 – Palmeiras 1 x 0 Corinthians – Série A do Brasileirão 2006
10/05/2009 – Corinthians 0 x 1 Internacional – Série A do Brasileirão 2009
17/06/2009 – Corinthians 2 x 0 Internacional – Copa do Brasil 2009
01/07/2009 – Internacional 2 x 2 Corinthians – Copa do Brasil 2009
19/08/2009 – Internacional 1 x 2 Corinthians – Série A do Brasileirão 2009
11/05/2024 – Flamengo 2 x 0 Corinthians – Série A do Brasileirão 2024
1/09/2024 – Corinthians 2 x 1 Flamengo – Série A do Brasileirão 2024
Tabu a ser mantido
A escrita joga a favor do Cruzeiro: são dez anos de invencibilidade como mandante contra o Corinthians no Brasileirão. A última vez que o Timão saiu vitorioso foi em 2015, pelo placar mínimo, com gol de Ángel Romero. O jogo, no entanto, foi disputado na Arena Pantanal porque o Cruzeiro cumpria supensão de mando de campo. Naquela temporada, Tite estava no banco oposto; agora, ele tenta usar a força do Mineirão para manter o tabu e dar fôlego à sua trajetória no Cruzeiro.
Em números gerais, esse domínio celeste se estendeu a outras competições e só foi interrompido recentemente, quando o Corinthians de Dorival Júnior superou o Cruzeiro por 1 a 0, no jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil do ano passado. Naquela ocasião, o brilho ficou por conta do holandês Memphis Depay, autor do gol que garantiu a vantagem alvinegra.
Primeira chance no Cruzeiro
Depois de ter chamado atenção com vice-campeonato paulista no São Caetano, Dorival recebeu sua primeira oportunidade em um grande clube do futebol brasileiro justamente no Cruzeiro. Ele chegou ao clube mineiro em maio de 2007 com a missão urgente de estabilizar um clube em crise. Substituto de Paulo Autuori, o treinador herdou um elenco abatido por quedas traumáticas no Mineiro e na Copa do Brasil.

Apesar da instabilidade inicial, Dorival entregou resultados expressivos: sob seu comando, a Raposa chegou a liderar o Brasileirão e assegurou o retorno à Libertadores ao finalizar a Série A em 5º lugar. No entanto, o fôlego acabou na reta final; uma queda acentuada de rendimento custou sua permanência, levando a diretoria a apostar em Adilson Batista para a temporada seguinte.

A única passagem de Dorival Júnior pelo Cruzeiro durou 27 jogos, com 13 vitórias, três empates e 11 derrotas, um aproveitamento de 51,8%.
Caminhos cruzados e o sucesso recente no Corinthians
As histórias de Tite e Dorival possuem caminhos que se cruzam de forma irônica. Mesmo após faturar a Libertadores e a Copa do Brasil de 2022, Dorival Júnior deixou o Flamengo por divergências com a diretoria. O escolhido para a sucessão foi o português Vítor Pereira, que acabou desligado logo no início de 2023 após a perda de sucessivos títulos.

Na sequência, a direção apostou em Jorge Sampaoli, mas o argentino viu o título da Copa do Brasil de 2023 escapar justamente para o São Paulo de Dorival. Com a queda de Sampaoli, o Flamengo abriu as portas para Tite, que estava disponível desde o término da Copa do Mundo de 2022.
Tite assumiu o Flamengo com a expectativa de ser o "salvador", mas enfrentou muitas críticas pelo estilo de jogo e pela dificuldade em conquistar a torcida, o que culminou em sua saída.

Enquanto isso, Dorival deixou o São Paulo para ser justamente uma das tentativas da CBF de encontrar um substituto para Tite no comando da Seleção Brasileira. A passagem de Dorival na Amarelinha não foi bem sucedida, marcada por uma eliminação na Copa América de 2024, além de resultados ruins nas Eliminatórias.
A demissão ocorreu após uma sequência de datas FIFA com atuações muito criticadas. A decisão foi comunicada de forma direta, com a CBF agradecendo os serviços prestados, mas alegando a necessidade de uma "mudança de filosofia" para o restante do ciclo.

Pouco tempo depois, Dorival retornou ao futebol de clubes ao ser anunciado pelo Corinthians no início de 2025. No Parque São Jorge, ele recuperou rapidamente seu prestígio ao conquistar a Copa do Brasil e, já neste ano, a Supercopa Rei — reafirmando sua marca de 'carrasco' ao levar a melhor sobre o Flamengo mais uma vez.

Retrospecto equilibrado contra o Cruzeiro
Dorival Júnior já enfrentou o Cruzeiro por mais de 30 vezes durante sua carreira e o retrospecto frente ao time celeste é bem equilibrado. São 12 vitórias do técnico, contra 11 derrotas e oito empates. Desde que deixou o Cruzeiro em 2007, foram 26 jogos, com 10 vitórias, 10 empates e seis derrotas.
O mais recente triunfo de Dorival sobre o Cruzeiro foi na Copa do Brasil do ano passado, quando o Corinthians eliminou o time celeste, comandado à época pelo português Leonardo Jardim. O Timão venceu o jogo de ida, no Mineirão, por 1 a 0, mas perdeu a partida da volta, na Neo Química Arena, por 2 a 1. Nos pênaltis, o Corinthians levou a melhor e eliminou o adversário mineiro.

Tite x Dorival na Seleção
O dado mais impressionante de Tite na Seleção é a solidez defensiva. Em seis anos, o Brasil sofreu apenas 30 gols. Sob seu comando, a Seleção passava meses sem ser vazada. Sua média de 0,37 gols sofridos por jogo é uma das melhores da história da Amarelinha, o que explica o aproveitamento altíssimo de 80,2%.
Dorival Júnior enfrentou um cenário de "terra arrasada" após as passagens de Ramon Menezes, Fernando Diniz e o imbróglio na contratação de Carlo Ancelotti. No entanto, os números mostram grande dificuldade defensiva: em apenas 14 jogos, sofreu quase metade dos gols que Tite sofreu em 81 partidas. O aproveitamento abaixo dos 50% foi o que selou seu destino na CBF.

O elo Ancelotti
O passado e o presente da Seleção Brasileira vão se encontrar no Mineirão nesta quarta-feira. A presença de Carlo Ancelotti para ver o embate entre Tite e Dorival em um dos camarotes do Mineirão não é mera cortesia. O comandante da Amarelinha desembarca em Belo Horizonte com um objetivo claro: observar peças que podem carimbar o passaporte para o próximo Mundial.
Sob o radar do italiano, o Cruzeiro apresenta nomes como Fabrício Bruno, Gerson, Matheus Pereira e Kaio Jorge, enquanto o Corinthians de Dorival oferece a excelente fase do goleiro Hugo Souza. Para os atletas, o gramado deixa de ser apenas palco de um clássico nacional e se torna um campo de provas sob os olhos atentos do homem que detém a palavra final sobre a lista da Seleção para a Copa.

