Minha jornada começou muito antes do apito inicial, precisamente no dia 29 de maio, quando pousei nos Estados Unidos. O tamanho do desafio se desenhou logo nas primeiras horas, quando fui até o MetLife Stadium para mapear e entender a logística complexa que envolveria a competição. Ali, diante da imensidão daquela arena, ficou claro que esta não seria uma cobertura comum.
Veja como foi Espanha 1 x 0 Argentina
O futebol já havia experimentado sedes divididas em 2002, com a Copa na Coreia do Sul e no Japão. Porém, o que testemunhamos em 2026 extrapolou qualquer paralelo anterior. Diferente do Catar, onde tudo estava a poucos quilômetros de distância, esta foi uma Copa de dimensões continentais e geográficas implacáveis.

Uma verdadeira maratona que exigiu um desgaste físico e mental absurdo de todos os envolvidos. Não foi uma Copa fácil. Muito pelo contrário. Em vários momentos, o cansaço acumulado falou mais alto.

Burocracia invisível e as aventuras de aeroporto
O grande vilão da cobertura não foram as distâncias em si, mas a burocracia enfadonha e imprevisível que envolve o deslocamento. Mesmo com os esforços do governo americano para tentar agilizar os processos de imigração e embarque para a imprensa e torcedores, a rotina de aeroporto se tornou um teste de paciência.
Atrasos inesperados e mudanças repentinas de voos eram frequentes, nos deixando completamente na mão das companhias aéreas. Qualquer mínima alteração carregava consigo o risco catastrófico de fazer você perder o jogo do dia — aquele para o qual você passou semanas se preparando.

Sobreviver a essa engrenagem exigiu jogo de cintura. A rotina se transformou em chegar horas e horas mais cedo nos aeroportos, cruzar os dedos e passar a depender de fatores que nenhum manual de jornalismo ensina: a boa vontade dos atendentes das companhias e, acima de tudo, o fator humano.
Foi nas situações de maior aperto que o verdadeiro espírito da Copa se revelou longe dos gramados. Em momentos de desespero por conexões caóticas, a salvação veio da empatia pura: torcedores que perceberam o sufoco e chegaram até a oferecer carona de um aeroporto a outro para que eu não ficasse pelo caminho.

Confira a tabela final da Copa do Mundo no Flashscore
Sucesso de bilheteria e a ilusão das cadeiras vazias
Mas se a estrada foi brutal para quem cobriu, os números finais mostram que a engrenagem bilionária da FIFA funcionou como um relógio. Antes de o torneio começar, o ceticismo ditava o tom. Dizia-se que os ingressos inflacionados afastariam o público e que as arenas ficariam vazias. Pura balela.
Esta se consolidou, sem contestação, como a Copa do Mundo com o maior público de toda a história, gerando um sucesso financeiro estrondoso. Claro, o olhar atento de quem está na tribuna de imprensa percebe os detalhes. A FIFA frequentemente anunciava "casa cheia" com um entusiasmo que nem sempre correspondia perfeitamente à realidade visual das arquibancadas.

Aqui e ali, era possível notar pequenos clarões de cadeiras vazias. Mas, em arenas gigantescas moldadas para o futebol americano, essas pequenas falhas eram microscopicamente irrelevantes. Visualmente e comercialmente, o impacto foi de lotação absoluta. O torneio fluiu, impulsionado também pelo inchaço de seleções que, por consequência lógica do número de jogos, transformou esta na edição com maior volume de gols da história.
Organização deixou muito a desejar
Do ponto de vista organizacional, a Copa do Mundo deixou uma impressão muito aquém da grandiosidade prometida. E isso talvez tenha sido o aspecto mais surpreendente: ver um torneio disputado majoritariamente nos Estados Unidos, referência mundial na realização de grandes eventos, sofrer com falhas que destoavam da reputação americana. Em conversas com jornalistas locais, o sentimento era unânime de que a operação estava distante dos padrões da NFL, apesar de os jogos acontecerem justamente em estádios da liga.
Houve improvisos em áreas de trabalho, internet instável em diversos momentos, profissionais espremidos em cadeiras destinadas aos torcedores, sem estrutura adequada para trabalhar e expostos a um sol escaldante — o protetor solar virou item indispensável da cobertura.

No México, a abertura foi marcada pelo caos, e, não fosse o 5G das operadoras de telefonia, boa parte da imprensa teria enfrentado sérias dificuldades para trabalhar. No Canadá, a experiência foi mais organizada e fluida, embora um estádio com capacidade para 40 mil pessoas contasse com banheiros insuficientes, resultando em uma fila de mais de meia hora para usar o sanitário — algo inédito para mim em uma cobertura esportiva.

O ápice da desorganização, porém, aconteceu na final. Jornalistas, voluntários, funcionários e demais profissionais envolvidos na decisão enfrentaram até cinco horas de espera para entrar no MetLife Stadium, em razão do rígido esquema de segurança do Serviço Secreto e da TSA para a presença do presidente Donald Trump. Em outras Copas do Mundo, chefes de Estado dos países-sede também compareceram às partidas decisivas, inclusive Vladimir Putin, em 2018, sem que algo semelhante tivesse sido registrado. A sensação que ficou foi a de que, dentro de campo, a Copa entregou um espetáculo histórico. Nos bastidores, porém, a organização esteve longe do nível que um evento dessa magnitude exige.

Filtro alienante da bola e o fantasma do ICE
Viver a Copa dentro dos Estados Unidos foi testemunhar uma bolha sociopolítica fascinante. Em 2014, no Brasil, o bordão "Não vai ter Copa" ecoou até o dia da abertura, mas sumiu assim que a bola rolou. Em 2026, o fenômeno foi ainda mais agudo. Enquanto o torneio acontecia, a geopolítica externa ardia — o governo americano promoveu ataques ao Irã no mesmo período —, mas o planeta que consome futebol permaneceu em um estado de quase completa alienação.
Ninguém parecia saber o que estava acontecendo politicamente fora dali. Dentro dos estádios, o clima era de festa, provando que o esporte tem a capacidade quase anestésica de empurrar a realidade para o segundo plano, tensionadas apenas quando a seleção iraniana e sua logística de entrar e sair imediatamente dos Estados Unidos era acionada. Mas existia ali também um misto de sentimentos para os iranianos residentes no país norte-americano, de que aquela seleção não representava inteiramente o país que eles conheceram.

O mesmo aconteceu com o fantasma do ICE (Immigration and Customs Enforcement). O alarmismo pré-Copa dava conta de que os agentes de imigração montariam cercos nos arredores das arenas para fiscalizar o imenso fluxo de imigrantes. Na prática do dia a dia dos jogos, o ICE foi invisível. Não houve operações em estádios, não houve abordagens nas zonas de torcedores. Embora a agência tenha mantido sua rotina dura e ativa nas ruas e bairros com forte presença imigrante — seguindo um cronograma que já existia —, o ambiente do torneio foi blindado de qualquer interferência. Uma distância gritante entre o pânico previsto e a realidade vivida. Porém, como sequela do temor, o estrago da ausência já estava feito.

Copa da exclusão e o espectro do visto
A ausência de tensões migratórias nos eixos dos estádios escancarou outra realidade incômoda: o esvaziamento de certas culturas. Um dos pontos mais lamentáveis e tristes desta Copa do Mundo foi a severa limitação do público africano em solo americano. Enquanto as ruas e arquibancadas de Toronto, Vancouver, Cidade do México e Monterrey exibiam uma bela mistura global, os estádios nos Estados Unidos sofreram com barreiras diplomáticas intransponíveis.

A combinação de critérios rigorosos de imigração, exigências financeiras astronômicas para a aprovação de vistos — que muitas vezes obrigavam o cidadão a desembolsar pequenas fortunas apenas para tentar o documento — e restrições sanitárias severas ligadas a surtos de doenças como o vírus Ebola minaram a presença desses torcedores.
Os africanos foram sumariamente barrados pelas engrenagens burocráticas do governo americano, empobrecendo a festa de uma torcida tradicionalmente conhecida por sua alegria e cor.

Privatização do espetáculo: o futebol dos ricos
Esse filtro diplomático caminha lado a lado com a elitização sem precedentes do torneio. A verdade nua e crua é que a Copa de 2026 se transformou em um evento feito por ricos e para ricos. A política de preços abusivos e as cobranças exageradas da FIFA nos ingressos transformaram o acesso aos estádios em um artigo de luxo quase inacessível.
Aqui nos Estados Unidos, a moeda forte e o poder de compra local absorvem o impacto; as pessoas e os turistas de alto poder aquisitivo tiveram condições financeiras de realizar loucuras para estar ali. No entanto, o faturamento recorde desta edição pode se tornar um tiro no pé para o futuro do esporte. O risco real é que a FIFA, entusiasmada com os bilhões arrecadados, replique o mesmo modelo predatório em 2030.

O futebol atual caminha a passos largos para se isolar da população que realmente respira e mais ama o esporte, deixando a paixão popular do lado de fora dos portões.
Nestas andaças pelas pelas sedes, conversei com muitos motoristas de Uber entusiastas do futebol. Entre a admiração quase mimética da credencial e o fato de estarmos ali a cobrir a Copa, eles destacavam a escolha que muitos fizeram: trabalhar e sustentar a casa ou pagar um ingresso caro para ver uma partida de futebol. A resposta, com as contas sobre a mesa, era bem simples.

A bola rolou e o campo ditou as regras
Mas se o ambiente extra-campo gerou exclusão, o veredito estritamente esportivo foi maravilhoso. O medo de que 48 seleções pulverizassem a qualidade técnica entregando jogos ruins foi superado. Mesmo os confrontos teoricamente menos atraentes ganharam contornos dramáticos, impulsionados pela excelente novidade dos 16 avos de final — uma fase de mata-mata prévia às oitavas que injetou eletricidade pura no torneio.

No fim, a justiça do campo prevaleceu e as quatro maiores camisas alcançaram as semifinais. Uma pena que o Brasil não estivesse entre elas. A eliminação precoce nas oitavas foi a crônica de uma tragédia anunciada: um time mal montado, fruto de uma convocação que privou a Seleção de um legítimo camisa 10, insistindo em improvisações nas laterais e ignorando nomes que poderiam ditar o ritmo no meio de campo. O Brasil pagou o preço de uma geração complexa e de escolhas erradas, deixando o futuro da Amarelinha sob uma enorme névoa de incertezas.
Em contrapartida, o nível ofensivo global foi altíssimo. Vimos os grandes astros — Kylian Mbappé, Erling Haaland, Harry Kane, Lionel Messi e até mesmo Vini Jr. — chamarem a responsabilidade e justificarem o espetáculo. Uma Copa resolvida do meio para a frente, coroada pelo duelo definitivo na final: a genialidade individual e o peso histórico da Argentina de Messi contra o jogo coletivo irretocável da Espanha.

Inovação dos quatro quartos e os limites da tecnologia
Este Mundial também funcionou como um grande laboratório de regras. A introdução do hydration break (a pausa para hidratação) sob calor extremo acabou gerando um efeito colateral tático fascinante. Embora as vaias dos torcedores ecoassem pelas arenas diante do claro viés comercial da interrupção em dias menos quentes, o futebol acabou se redesenhando, na prática, como um esporte de quatro períodos.

Como espectador e analista, vejo isso com bons olhos. O futebol é um esporte que demanda tempo. Muitas vezes, o treinador é incapaz de reorganizar um posicionamento apenas gritando na beira do gramado. Essa pausa — semelhante ao que já ocorre no futsal, no basquete e no futebol americano — concede ao técnico o direito de exercer o seu talento e virar um jogo estrategicamente. Se as ligas europeias torcerão o nariz para a novidade, no Brasil o formato deve colar com facilidade, sob a eterna justificativa do nosso clima tropical e do histórico recente de paradas médicas em nossos campeonatos.
Se a pausa tática e o impedimento semiautomático receberam avaliações positivas que redimensionaram o jogo, a FIFA cruzou a linha do bom senso com o sistema de rastreamento por microchip na bola. A anulação do gol da Croácia contra Portugal, baseada em captação de ondas sonoras milimétricas, me pareceu confusa, bem como a explicação da bola não ter tocado a spider cam no gol inglês contra a Noruega. Esse nível de intervencionismo tecnológico desumaniza o esporte e esvazia a autoridade do árbitro de campo.
Raio-X das Sedes: Orgulho, encantamento e distanciamento
Ao analisar o impacto cultural nos três países-sedes, as máscaras caíram. O México provou que respira futebol em níveis viscerais. O orgulho do povo em receber o torneio pela terceira vez blindou o evento até mesmo dos graves problemas sociais e políticos que o país enfrenta internamente — como a crise dos desaparecidos e as greves populares que ameaçaram os dias iniciais. O mexicano jogou junto.

O país tem tanta paixão e estrutura de torcida que teria condições de abrigar essa Copa de 48 seleções completamente sozinho. Os sombreiros sendo jogados ao alto na abertura foi um encantamento imediato e trouxeram uma lembrança quase imediata de 1970 e 1986.
No Canadá, o cenário foi o oposto. Houve um breve momento de encantamento e euforia popular, inflamado pela goleada histórica por 6 a 0 sobre o Catar na fase de grupos. O país confirmou sua fama de excelente anfitrião para megaeventos, mas o envolvimento parou por aí. O torneio não mudou a alma do canadense. O futebol por lá ainda engatinha e claramente não figura entre as prioridades do cenário esportivo nacional.

Veredito americano
Mas a resposta mais emblemática sobre o verdadeiro espaço do futebol no mercado da América do Norte foi dada nos Estados Unidos. É preciso ser justo: os americanos foram anfitriões impecáveis. Aqueles que previam um ambiente hostil ou xenófobo quebraram a cara. Os locais se abriram para o mundo, acolheram os turistas com extrema cordialidade e até ironizavam os velhos fantasmas políticos locais ao brincarem com os estrangeiros nas ruas. A Times Square foi invadida pelas festas barulhentas e de cores de torcedores do mundo inteiro.

Contudo, a ilusão de que esta Copa transformaria os EUA no país do futebol não pegou. Em 1994, tentava-se popularizar o "beautiful game". Em 2026, o esporte já é amplamente conhecido, mas simplesmente não é o preferido do público nativo. O país é um gigante multicultural feito de colônias; o futebol ali continuará sendo o esporte que move e emociona os imigrantes.
O diagnóstico definitivo dessa relação aconteceu de forma paralela ao apito inicial da grande final da Copa do Mundo. Enquanto Espanha e Argentina lutavam pelo título, Nova York deslocava-se também em sua rotina: torcedores dirigindo-se ao clássico da Major League Baseball entre New York Yankees e Los Angeles Dodgers. O Yankee Stadium lotado, sem sofrer qualquer tipo de concorrência ou sofrimento por causa do futebol.
Nos Estados Unidos, cada esporte mantém o seu quadrado intocável. O americano consumiu a Copa do Mundo com a curiosidade típica de quem assiste a um grande show de entretenimento pop, reconhecendo o tamanho de Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas a profundidade da paixão, aquela que nós, sul-americanos, carregamos no peito e na identidade, eles reservam para quadras e outros campos.

