Diário da Copa: Por onde anda o Padrão FIFA no Mundial da América do Norte?

A Copa do Mundo do Federalismo
A Copa do Mundo do FederalismoReuters/Kyle Ross

Quem vivenciou as Copas do Mundo de 2010, 2014, 2018 ou 2022 lembra-se bem do poder quase imperial da FIFA. Onde a entidade máxima do futebol passava, governos se dobravam. No Brasil, criou-se a "Lei Geral da Copa" para, inclusive, atropelar o Estatuto do Torcedor. Na Rússia e no Catar, perímetros de exclusão cercados pelas forças de segurança isolavam os estádios. Havia uma cartilha. Havia uma identidade visual, logística e comportamental idêntica, fosse em Joanesburgo, Manaus ou Moscou. Era o tão falado “Padrão FIFA”.

Corte para 2026. Na primeira Copa da história disputada em três países — e com o bloco principal concentrado nos Estados Unidos —, o Padrão FIFA anda obliterado por vários outros aspectos. Digamos que ele tenha sido engolido pela realidade da maior potência do planeta.

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O torneio que historicamente impunha as suas regras descobriu que, nos Estados Unidos, quem manda é o presidente, os governadores, os prefeitos e o pragmatismo econômico local. Em vez de padronizar esta Copa, a FIFA precisou se moldar ao padrão norte-americano.

Infantino ao lado de Marco Rubio, secretário de estado norte-americano
Infantino ao lado de Marco Rubio, secretário de estado norte-americanoREUTERS/Mario Anzuoni

O federalismo da bola: cada sede, uma lei

A experiência de ir ao estádio nesta Copa se transformou em um exercício de geografia política. O modelo se assemelha à própria estrutura dos EUA: existe um poder central, mas cada estado tem sua autonomia e sua própria diretriz.

Tente assistir a um jogo em Nova Jersey e depois na Filadélfia, e você jurará estar em dois torneios diferentes. Para sair de Nova York e chegar ao MetLife Stadium, o torcedor enfrenta uma logística engessada e tarifas de trem abusivas, que facilmente chegam a 98 ou 100 dólares por pessoa. 

A complicada e cara chegada ao MetLife Stadium
A complicada e cara chegada ao MetLife StadiumDUSTIN SATLOFF / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

A poucas milhas dali, na Filadélfia, a atmosfera muda. Por ser uma cidade menor e que não respira o turismo predatório o tempo todo, a comunidade local parece ter abraçado mais o torneio, esforçando-se, inclusive, para receber os visitantes de todo mundo com cordialidade e benefícios.

Metrô na Filadélfia tem até volta gratuita garantida ao torcedor
Metrô na Filadélfia tem até volta gratuita garantida ao torcedorEMILEE CHINN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

O metrô não sofreu alterações severas, você paga US$ 2,90 (quase R$ 15) para ir ao estádio e a volta é gratuita. O governo local se desdobrou para criar uma experiência real de futebol e liberou até mesmo o famoso tailgating, aquele churrasco de confraternização nos arredores do estádio, uma tradição do futebol americano. 

As boas vindas na Filadélfia para a Copa do Mundo
As boas vindas na Filadélfia para a Copa do MundoEMILEE CHINN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Para o fã de esporte, o perímetro FIFA sempre foi uma área asséptica. Mas nos EUA, o estacionamento é o coração do jogo. Cidades como Filadélfia (Lincoln Financial Field), Dallas (AT&T Stadium), Houston (NRG Stadium) e Kansas City (Arrowhead Stadium) fincaram o pé e garantiram a liberação do tailgating.

Embora o preço para estacionar na Filadélfia seja extorsivo — flutuando entre os 150 e surreais 600 dólares dependendo do tamanho do veículo —, a permissão para abrir o porta-malas, ligar a churrasqueira, tomar uma cerveja e confraternizar antes de a bola rolar devolveu ao torcedor a espontaneidade que a FIFA tentou soterrar por duas décadas. É a cultura da NFL engolindo a burocracia de Zurique.

O tailgating no jogo entre Costa do Marfim e Equador
O tailgating no jogo entre Costa do Marfim e EquadorREUTERS/Matthew Hatcher

Por outro lado, em estádios como o de Miami (Hard Rock Stadium) e o próprio MetLife, as restrições de segurança e os perímetros encurtados ou privatizados sufocaram essa cultura, gerando uma experiência estéril.

Até as regras de comportamento variam. Há arenas onde a fiscalização é implacável. Em outras, impera o "fazer vista grossa".

"Torneio de verão" com grife?

A FIFA, que antes arrastava multidões de jovens dispostos a trabalhar de graça em troca de um uniforme e uma credencial, parece ter falhado na mobilização. O contingente de voluntários nesta Copa é visivelmente menor e menos treinado do que em edições anteriores.

Parte do atendimento foi terceirizada e vem sendo operada por funcionários das próprias arenas. Foi o que se viu na área de guest services durante o jogo do Brasil, onde, a cada segundo, os orientadores tentavam conter o público, impedindo os torcedores de torcerem em pé ou de se aglomerarem nos corredores.

Guest services do MetLife Stadium teve trabalho com a torcida brasileira
Guest services do MetLife Stadium teve trabalho com a torcida brasileiraJosias Pereira / Flashscore

Diante de arenas gigantescas, seleções espalhadas por distâncias continentais e uma total falta de identidade visual urbana unificada, a sensação que fica é incômoda: às vezes, esta Copa do Mundo parece apenas um gigantesco "torneio de verão" de pré-temporada europeia acontecendo nos Estados Unidos.

A queda de braço política nos bastidores foi feroz. Prefeitos e governadores americanos não aceitaram a cartilha de Zurique de braços cruzados; exigiram contrapartidas financeiras, negociaram segurança, transporte público e ditaram como seus estádios seriam utilizados.

O Padrão FIFA, no fim das contas, virou um mito. A entidade máxima do futebol acreditava que iria colonizar a América com a bola nos pés, mas acabou descobrindo que, nos Estados Unidos, o futebol é só mais um negócio na engrenagem do show business.

FIFA divide espaço no letreiro com os naming rights e o verdadeiro dono do estádio, o Philaldelphia Eagles
FIFA divide espaço no letreiro com os naming rights e o verdadeiro dono do estádio, o Philaldelphia EaglesEMILEE CHINN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Quem dita as regras do show são os donos da casa, mesmo que a entidade ganhe algumas batalhas pontuais — como a exigência de cobrir os naming rights dos estádios do Mundial, decisão que virou até meme e estratégia de marketing por parte de marcas como a Levi's.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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