Entre a euforia e a preocupação, o saldo da Seleção Feminina nos amistosos contra os EUA

Brasil alternou bons momentos e dificuldades nos duelos contra os Estados Unidos.
Brasil alternou bons momentos e dificuldades nos duelos contra os Estados Unidos.CBF

Entre a histórica vitória e os alertas da derrota, os amistosos contra os Estados Unidos ensinaram ao Brasil de Arthur Elias para além das quatro linhas. A Seleção Feminina venceu os Estados Unidos pela segunda vez consecutiva, mas tropeçou no segundo duelo e expôs desafios que ainda precisam ser corrigidos antes da Copa do Mundo.

E apesar das falhas a serem corrigidas, o público surpreendeu, deu um show e ainda balançou a equipe adversária com uma festa que deixou a expectativa ainda mais alta para o que vai acontecer em 2027.

Se o primeiro amistoso contra os Estados Unidos terminou com uma vitória histórica por 2 a 1, o segundo confronto, vencido pelas norte-americanas por 1 a 0, serviu como um importante choque de realidade.

Entre motivos para comemorar e pontos de atenção, a equipe comandada por Arthur Elias saiu dos dois compromissos com mais respostas e também algumas preocupações

A comentarista do Flashscore, Fran Alberto, analisou os dois amistosos e destacou pontos positivos e falhas a serem corrigidas pelo Brasil.

Na avaliação de Fran, o primeiro jogo mostrou uma característica que por muito tempo foi cobrada da equipe: a capacidade de reagir em momentos adversos. Após sofrer um gol logo no primeiro minuto, o Brasil não se abalou. Pelo contrário. Cresceu na partida, virou o placar e apresentou uma das melhores versões do trabalho desenvolvido por Arthur Elias.

"Eu gostei do nosso poder de reação. Isso foi algo que sempre foi muito questionado quando a gente sofre gols. Há um tempo atrás a gente derretia, sentia muito. E não foi o que aconteceu."

A virada veio com gols de Tainá Maranhão e Bia, em uma atuação marcada pela intensidade nos duelos individuais e pela pressão alta característica da equipe brasileira. Segundo Fran, o segredo do bom desempenho esteve justamente na forma como o Brasil conseguiu executar seu modelo de jogo.

"A chave foi vencer os duelos. Principalmente desse jeito que o Arthur Elias joga."

Outro fator destacado foi o apoio da torcida. Com mais de 31 mil pessoas presentes nas arquibancadas, a atmosfera ajudou a impulsionar a Seleção em um resultado que entrou para a história: foi a segunda vitória consecutiva do Brasil sobre as norte-americanas, algo inédito nos confrontos entre as equipes.

A movimentação da torcida em São Paulo esteve presente até mesmo no discurso de motivação da técnica da seleção norte-americana Emma Hayes.

"Eu comandei muitos jogos de futebol e nunca vi nada assim antes. E sabendo que isso é uma simulação e não vamos para casa, é muito importante o aprendizado", disse.

As estatísticas de Brasil 2x1 Estados Unidos
As estatísticas de Brasil 2x1 Estados UnidosFlashscore

O desconforto do segundo jogo

Se o primeiro encontro trouxe confiança, o segundo escancarou dificuldades que ainda acompanham a Seleção. Os Estados Unidos ajustaram sua estratégia, neutralizaram parte das ações brasileiras e transformaram a partida em um confronto mais físico e truncado.

O resultado foi um Brasil menos criativo, com dificuldades para construir jogadas e praticamente sem conseguir ameaçar a meta adversária.

"Os Estados Unidos ajustaram um pouquinho a sua marcação, ajustaram o jeito de jogar e acabaram igualando muito o estilo de jogo da Seleção Brasileira", afirmou Fran Alberto.

O retrato do desempenho ofensivo preocupa. Foram apenas seis finalizações durante toda a partida e nenhuma delas na direção do gol. A derrota por 1 a 0 poderia até ter sido mais pesada. Para Fran, a goleira Lorena foi a principal responsável por evitar um placar mais elástico.

"Os Estados Unidos poderiam ter saído com uma goleada de Fortaleza se não fosse a boa partida da Lorena."

Além da derrota, outro momento causou apreensão. Dudinha, uma das jogadoras que mais se destacaram nos amistosos, deixou o campo lesionada ainda no primeiro tempo. A preocupação aumenta pelo fato de a lesão envolver a região do joelho, algo que pode representar um período maior de recuperação dependendo do diagnóstico.

"Talvez uma das nossas melhores jogadoras. Saiu lesionada e preocupa demais."

Apesar do resultado e dos desgastes da partida, a torcida voltou a ser destaque positivo, desta vez, na Arena Castelão. O público final foi de 55.744 pessoas. Um número que já gera uma ótima expectativa em relação ao mundial que será realizado no país no próximo ano.

As estatísticas de Brasil 0x1 Estados Unidos
As estatísticas de Brasil 0x1 Estados UnidosFlashscore

Arbitragem com protagonismo negativo

A arbitragem também foi alvo de críticas. O jogo teve clima de rivalidade, muitas faltas e discussões. Na visão da analista, a condução da partida contribuiu para aumentar a tensão dentro de campo.

"A arbitragem foi horrorosa, foi ruim."

Além das falhas na aplicação da regra, a arbitragem teve papel central no clima de tensão que marcou o duelo em Fortaleza. Com critérios inconsistentes e decisões amplamente contestadas pelas brasileiras, a condução da partida gerou revolta dentro e fora de campo.

As reclamações se intensificaram após lances considerados duros das norte-americanas sem punições mais severas e culminaram em uma sequência de expulsões envolvendo Arthur Elias, membros da comissão técnica e as atletas Bia Zaneratto, Tarciane, Ludmila e Kerolin. O episódio transformou os minutos finais em um cenário recheado de nervosismo.

Kerolin foi uma das expulsas em Brasil 0x1 EUA
Kerolin foi uma das expulsas em Brasil 0x1 EUAČTK / imago sportfotodienst / LC Moreira

Apesar da derrota, Fran acredita que os maiores aprendizados talvez estejam fora das quatro linhas. O ambiente hostil, as provocações, os erros de arbitragem e o controle emocional em momentos de pressão são situações que a seleção poderá encontrar novamente em competições importantes, especialmente na Copa do Mundo.

"A gente não pode se desestabilizar. Por mais que o sangue seja quente, por mais que seja algo bizarro, grotesco, a gente não pode perder a cabeça."

Para a ex-jogadora da Seleção Brasileira, o saldo final dos amistosos é positivo justamente porque expõe aspectos que ainda podem ser corrigidos antes dos desafios mais importantes do ciclo. A vitória mostrou que o Brasil tem capacidade para competir de igual para igual com a principal potência do futebol feminino.

A derrota, por sua vez, lembrou que ainda existe um caminho a percorrer. E, às vezes, as derrotas ensinam tanto quanto as vitórias.

"Mesmo na derrota, mesmo nos momentos complicados, dá para tirar muita lição disso e aprender para que não se repita futuramente."

A Seleção Feminina não tem seus próximos confrontos definidos, mas deve retornar aos gramados em outubro com a disputa da Finalíssima e amistosos na Data FIFA.