Esportes de neve no Brasil: da herança de Domingos Giobbi ao impacto de Lucas Pinheiro

Lucas Pinheiro fez história na Olimpíada de Inverno
Lucas Pinheiro fez história na Olimpíada de InvernoDenis Balibouse - Reuters

Os esportes de neve no Brasil começaram a ganhar forma nos anos 1960 e se estruturaram institucionalmente a partir da atuação de Domingos Giobbi e da criação da atual Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN). A entidade, que opera com gestão voluntária e recursos limitados, aposta em planejamento de longo prazo e métricas de competitividade para desenvolver atletas de elite.

Em termos de grandes eventos esportivos, em 1966, a Inglaterra acabava de conquistar seu primeiro (e até hoje único) título mundial de futebol. Mas, no distante Chile, algo inusitado também estava prestes a começar.

No dia 4 de agosto, em Portillo, na Cordilheira dos Andes, teve início o Campeonato Mundial de Esqui Alpino — o único da modalidade, até hoje, a ter sido realizado ao sul do Equador, passados quase 60 anos.

A bandeira verde e amarela esteve representada por Francisco e Luigi Giobbi, Michael Reis de Carvalho e Sérgio Hamburger. Graças a Domingos Giobbi (1925–2013), os esportes de neve no Brasil ganhavam seu primeiro capítulo.

Giobbi, na verdade, era muito mais do que um simples chefe de delegação. Brasileiro, filho de imigrantes italianos do norte da Itália, cresceu entre os dois países e é considerado um dos maiores alpinistas brasileiros de todos os tempos. Se estivesse vivo hoje, aos 100 anos, certamente teria ficado feliz em saber que o Brasil conquistou uma medalha de ouro em uma região que ele conhecia tão bem. 

Anders Pettersson, presidente da CBDN, que no passado competiu no cross country
Anders Pettersson, presidente da CBDN, que no passado competiu no cross countryDivulgação/CBDN

Mas foi no Brasil que ele alavancou não apenas o montanhismo nacional, com a criação do atuante CAP (Clube Alpino Paulista), como também os esportes de neve. Destacou-se em campeonatos latino-americanos de esqui alpino e passou a estruturar a modalidade a partir da virada dos anos 1990.

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A então ABS (Associação Brasileira de Ski) filiou-se ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e, logo em seguida, à Federação Internacional de Ski, assumindo oficialmente a gestão das modalidades de neve no país. Em 2003, a pedido do COB, surgiu a atual Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN).

“É preciso dizer que o Stefano (Arnhold) entregou a mesa pronta para mim há oito anos. Meus antecessores fizeram um trabalho que permitiu alavancar a gestão atual”, afirma Anders Pettersson, atual presidente da CBDN, de forma modesta. Afinal, o trio — ele, Arnhold e Giobbi — atuou junto na estruturação dos esportes de neve no Brasil nos anos 1990. Ao contrário do que ocorre em confederações mais ricas, o trabalho na CBDN, realizado sempre por executivos de destaque em suas áreas de formação no setor privado, é voluntário. 

“Faço isso no meu tempo livre”, afirma Pettersson, conselheiro de várias empresas. O mandato do atual presidente, reeleito em 2022, termina em 30 de abril. “Fazemos isso pelo prazer e pelo esporte. Se o dirigente é remunerado, sobra pouco dinheiro para o atleta. Sou remunerado pelos meus outros trabalhos como conselheiro e diretor de empresas.”

O pilar principal da atual administração, afirma o presidente, é o planejamento estratégico de longo prazo. “Olhamos sempre 12 anos à frente (três ciclos olímpicos). Desenvolver um atleta de elite demora muito; se ele começar aos 15 ou 16 anos, já pode ser tarde para brigar por medalhas mundiais. Como nossos recursos são limitados, usamos uma matriz de competitividade para focar nos esportes em que o gasto é menor e a probabilidade de sucesso é maior”, diz o executivo, nascido no Rio de Janeiro, mas filho de suecos. 

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“Passei um tempo dos meus 60 anos na Suécia, mas meus filhos são brasileiros.” Segundo Pettersson, que chegou a competir no esqui cross country, estatísticas e métricas são fundamentais no dia a dia da CBDN, assim como em qualquer empresa.

Dupla brasileira do bobsled – Edson Bindilatti e Luís Bacca — teve melhor resultado da história do país nessa prova em Olimpíadas de Inverno
Dupla brasileira do bobsled – Edson Bindilatti e Luís Bacca — teve melhor resultado da história do país nessa prova em Olimpíadas de InvernoREUTERS/Annegret Hilse

Depois do sucesso na Itália — e apesar de admitir que Lucas Pinheiro é um ponto fora da curva —, a expectativa do executivo da CBDN é que os esportes de neve brasileiros ganhem impulso, embora o financiamento continue sendo, sempre, um gargalo.

A seguir, trechos da entrevista exclusiva de Anders Pettersson, 60 anos, ao Flashscore Brasil.

O caso do Lucas Braathen é um ponto fora da curva?

O caso de Lucas é tratado internamente como absolutamente excepcional, por uma série de razões. Há, antes de tudo, um princípio claro que orienta a atuação da Confederação Brasileira de Desportos na Neve: a entidade nunca toma a iniciativa de entrar em contato com atletas que competem por outros países. Qualquer movimento precisa partir do próprio atleta. A avaliação é ética — o Brasil não deve “recrutar” ou “tirar” atletas de outras federações.

Houve, no passado, casos de atletas que passaram a competir pelo país, mas sempre depois de encerrada a trajetória na modalidade ou na federação de origem. No caso de Lucas, o primeiro contato partiu dele próprio, por volta de dois anos atrás. Em outubro de 2023, ele anunciou oficialmente sua aposentadoria da competição pela Noruega, alegando desgaste com o ambiente competitivo, falta de liberdade e outros fatores pessoais.

Em janeiro de 2024, procurou a CBDN para saber se haveria interesse em representá-lo. A resposta foi imediata e positiva: havia, sim, grande interesse. À distância, a entidade já acompanhava sua trajetória e o considerava um talento raro, um “diamante”. Ainda assim, o processo estava longe de ser simples, pois envolvia uma série de exigências burocráticas.

Como a nacionalidade?

Lucas não possuía passaporte brasileiro. Ter mãe brasileira não era suficiente: era necessário comprovar formalmente a cidadania. Para isso, ele precisou emitir o passaporte brasileiro junto à Embaixada Brasileira em Oslo. Resolvida essa etapa, foi necessário obter as autorizações esportivas.

Como ele já estava aposentado, não havia conflito direto de competição, mas ainda assim era indispensável o aval da federação de origem. A CBDN mantém bom relacionamento institucional com a Confederação Norueguesa de Ski, que concedeu a liberação, assim como a Federação Internacional de Ski.

Esse alinhamento foi decisivo. Caso a federação norueguesa não tivesse autorizado a mudança, Lucas ficaria sujeito a um período de quarentena de dois anos sem poder competir. Na prática, ele não perdeu tempo competitivo: ficou cerca de um ano aposentado, enquanto o processo avançava. A Federação Internacional de Ski analisa mudanças de nacionalidade em reuniões anuais de seu conselho, mediante extensa documentação, justificativas e exposição das motivações. A aprovação ocorreu na reunião de maio de 2024, permitindo que Lucas competisse já na temporada 2024/2025 pelo Brasil. A atual, 2025/2026, é sua segunda temporada defendendo o país.

Foi uma estratégia vencedora, então?

Para a CBDN, o movimento representou uma oportunidade estratégica clara: contar com um atleta de alto nível ajudaria a projetar o nome do Brasil e a fortalecer o esporte como um todo. Lucas foi recebido de braços abertos. Para ele, a mudança também fazia sentido. Muito jovem — tinha 23 anos quando iniciou o processo e hoje tem 25 —, aposentar-se definitivamente parecia precoce. Ele buscava uma confederação organizada, com clareza de objetivos e, sobretudo, que lhe garantisse liberdade. Essa foi a base da negociação, conduzida em conjunto com outros dirigentes, incluindo Stefano Arnhold.

A pergunta central feita a Lucas foi direta: o que era essencial para ele? A resposta foi igualmente clara. Ele queria liberdade para montar sua própria equipe, escolher treinador, nutricionista, profissionais de apoio e definir a relação com a imprensa. A CBDN concordou com esses termos.

A contrapartida, no entanto, também foi explicitada desde o início: a confederação não teria recursos financeiros significativos para custear essa estrutura. Caberia ao próprio atleta financiar sua equipe. O acordo foi fechado nesses termos, com transparência de ambos os lados, e acabou sendo viabilizado por uma rara combinação de timing, interesses e circunstâncias favoráveis.

Lucas Pinheiro em disputa em que levou ao ouro olímpico no slalom gigante
Lucas Pinheiro em disputa em que levou ao ouro olímpico no slalom giganteREUTERS/Denis Balibouse

A equipe do Lucas é financiada por ele?

O orçamento anual dele é de cerca de 1,5 milhão de euros (R$ 9,2 milhões). Isso representa quase metade do orçamento total da CBDN, que foi de R$ 19 milhões no ano passado. Ele tem seus próprios patrocinadores, que custeiam a equipe; a CBDN contribui com cerca de 8% a 10% do orçamento total. Ele tem liberdade para montar o próprio time, e nós damos a retaguarda.

A medalha deve impulsionar outras modalidades além do esqui alpino?

Sim, a neve como um todo. Ele é uma referência e muito simpático com os outros atletas brasileiros. Serve de inspiração até para esportes de verão. Ele já confirmou que quer estar na próxima Olimpíada, daqui a quatro anos.

No caso brasileiro, os técnicos para competições de alto nível são brasileiros ou estrangeiros? Temos mão de obra? Como é essa formação?

É mista. A maioria é brasileira, mas buscamos talento fora quando necessário, como profissionais de equipamentos que vêm da Argentina ou por meio de parcerias na Europa. Trazer gente de fora é caro, então preferimos trazer alguém para ensinar os brasileiros aqui ou enviar nossos técnicos para acompanhar equipes na Espanha, Nova Zelândia ou Austrália.

Qual o grande nome nacional que você destaca, que vestiu a camisa desde sempre?

Com certeza, Leandro Ribela. Ele foi atleta olímpico de cross-country e hoje cuida da equipe paralímpica. Se há um nome crucial, que vestiu a camisa e continua tendo importância vital, é o dele.

É interessante o fato de a Noruega não ter complicado a transferência do Lucas. Quais são as grandes rivalidades dos esportes de inverno?

Na América do Sul, Brasil, Argentina e Chile se ajudam muito. Somos países “pequenos” nos esportes de inverno, então torcemos uns pelos outros e colaboramos na logística. Já na Europa, a rivalidade é forte e “ferve”: Suécia contra Noruega no cross-country e Finlândia contra Suécia no hóquei. É uma rivalidade sadia, mas muito intensa. Ainda na Europa, Suíça e Áustria, dois países pequenos, também rivalizam.

Jens Luraas Oftebro, da Noruega, celebra o ouro na prova combinada de cross country (10 km) e trampolim grande
Jens Luraas Oftebro, da Noruega, celebra o ouro na prova combinada de cross country (10 km) e trampolim grandeREUTERS/Kai Pfaffenbach

Tenho curiosidade sobre a presença ou não de neve nas competições. A mudança climática, para vocês dos esportes de neve, é uma ameaça real?

É uma realidade duríssima. A neve natural está cada vez mais rara e as temporadas, mais curtas. Precisamos subir cada vez mais as montanhas e usar neve artificial, o que é caro e consome muita água. Por isso, sustentabilidade é prioridade no nosso relatório anual. Modalidades como o biatlo já estão investindo no “biatlo de verão” (com patins no asfalto) para compensar essa falta de neve.

Você nasceu no Rio, mas tem raízes suecas. Como se define?

Sou nascido no Rio, mas meus pais são suecos. Morei 20 anos no Brasil, 10 na Suécia e depois voltei. Sou casado com uma mineira, e meus filhos nasceram aqui. Apesar de me acharem “gringo”, sou mais brasileiro do que sueco.