Ex-Inglaterra relembra dor contra Brasil em 2002 e exalta Ronaldo: "Melhor de todos"

Emile Heskey e Ronaldo durante as quartas de final entre Inglaterra e Brasil na Copa do Mundo de 2002
Emile Heskey e Ronaldo durante as quartas de final entre Inglaterra e Brasil na Copa do Mundo de 2002PHILIPPE HUGUEN / AFP

O ex-atacante Emile Heskey, do Liverpool, representou a Inglaterra nas Copas do Mundo de 2002 e 2010, jogando todas as partidas em ambas as edições, e relembrou esses torneios em uma entrevista exclusiva ao Flashscore.

Apesar de ter estreado em 1999 e entrado duas vezes no segundo tempo na EURO 2000, a carreira de Heskey pela Inglaterra realmente ganhou vida um ano depois.

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Em uma noite chuvosa em Munique, em setembro de 2001, o então jogador do Liverpool marcou para fechar a famosa vitória por 5 a 1 sobre a Alemanha, em uma eliminatória para a Copa do Mundo que, segundo contou ao Flashscore, foi a melhor partida de sua carreira.

Ao se firmar como peça importante no time de Sven-Goran Eriksson, ele garantiu que realizaria um de seus maiores sonhos no ano seguinte, sendo escolhido como um dos 23 jogadores para ir à Coreia do Sul e ao Japão representar a Inglaterra na Copa do Mundo de 2002.

"Lá no topo", diz Heskey, nascido em Leicester, ao ser questionado sobre onde jogar uma Copa do Mundo se encaixa entre os grandes momentos de sua carreira.

"Quando criança, sempre... são essas as memórias que você tem, assistindo à Copa do Mundo. Eu via John Barnes, Gary Lineker é de Leicester, então eu assistia ele marcar vários gols. E aí você sonha em jogar uma Copa."

Bastidores de 2002

Apesar de ter realizado esse sonho aos 24 anos, ele logo percebeu que isso trazia algumas dificuldades.

"Não é fácil", afirma.

Escalação titular da Inglaterra contra a Suécia na Copa do Mundo de 2002
Escalação titular da Inglaterra contra a Suécia na Copa do Mundo de 2002PEDRO UGARTE / AFP

"Você vai convivendo com todo mundo, e tem que lembrar que muitos de nós crescemos juntos. Eu obviamente conhecia o Michael (Owen), e jogava no Liverpool na época, então conhecia alguns jogadores do Liverpool. Mas... É curioso, porque você está em um país estrangeiro, mas não chega a conhecer o país. Você só vê seu quarto de hotel e outros cômodos dentro do hotel."

"O tédio é complicado", continua. "Principalmente para jogadores que não gostam de ficar sozinhos, e tinham vários assim."

No entanto, Heskey e o elenco da Inglaterra conseguiram sair um pouco durante o torneio de 2002, graças ao status de celebridade de um de seus companheiros.

"Tivemos sorte, tínhamos o David Beckham. Ele fechava um shopping, e aí a gente ia só para dar uma volta, basicamente só para sair do hotel."

A dolorosa eliminação para o Brasil

No gramado asiático, a Inglaterra ficou em segundo no grupo graças à vitória por 1 a 0 sobre a Argentina, e Heskey marcou seu primeiro gol em Copas na vitória por 3 a 0 sobre a Dinamarca nas oitavas de final, mas uma seleção estrelada do Brasil venceu por 2 a 1 e eliminou os ingleses.

É uma derrota que ainda dói para Heskey, que acredita que ele e seus companheiros poderiam ter feito algo especial naquele verão se não tivessem cruzado com um time tão talentoso, incluindo quem ele considera o melhor atacante de todos os tempos: Ronaldo.

"Se não fosse pelo Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, provavelmente teríamos uma grande chance de ganhar aquela... Foi (doloroso), e para mim, pessoalmente, eu não estava pronto para voltar para casa. Eu queria ir mais longe", contou.

O atacante continuou sendo peça importante no elenco da Inglaterra depois disso, mas perdeu espaço após a EURO 2004, ficando mais de três anos sem ser convocado. Mesmo assim, nunca duvidou que voltaria a defender seu país.

O retorno em 2007

"Eu sabia que ia jogar de novo", relembra. "Eu sabia o que podia oferecer e o que podia agregar. Era só questão de tempo."

E ele estava certo, muito graças ao Owen. Os dois criaram uma forte parceria no ataque tanto pelo Liverpool quanto pela seleção, e o vencedor da Bola de Ouro de 2001 convenceu o técnico Steve McClaren a trazer Heskey de volta em 2007.

"Foi o Michael. O Michael conversou. Ele disse: 'Traz ele de volta', e aí eu voltei, e fiquei."

Fabio Capello e Emile Heskey
Fabio Capello e Emile HeskeyIAN KINGTON / AFP

A Inglaterra ficou fora da EURO 2008, não se classificando, o que levou à contratação do renomado técnico Fabio Capello, que assumiu a missão de levar o time à Copa do Mundo de 2010.

Capello gostava de Heskey, que virou sua primeira opção para jogar ao lado de Wayne Rooney no ataque, mas, apesar de Heskey nunca ter tido problema com isso, o estilo direto do italiano incomodou muita gente.

"Ele era muito duro em algumas coisas. Gritava, berrava, o que para mim era tranquilo, porque já estava acostumado com esse ambiente desde a base, mas alguns não conseguiam lidar com isso e não gostavam. Eu cheguei a frustrá-lo algumas vezes e ele gritava e jogava coisas", lembrou. 

No fim das contas, o método de Capello não deu certo, com o time mal passando da fase de grupos na África do Sul após empates com os Estados Unidos e a Argélia, antes de perder por 4 a 1 para a Alemanha nas oitavas de final.

Decepção?

Apesar de Heskey considerar que a edição de 2002 foi mais bem-sucedida das duas Copas que disputou, ele atribui isso mais à qualidade dos jogadores do que às diferenças entre Eriksson e Capello.

"Acho que era simplesmente uma qualidade de jogo melhor, para ser sincero. Tínhamos jogadores realmente de alto nível. Não que não tivéssemos em 2010 também, mas senti que em 2002 tínhamos um pouco mais", responde ao ser questionado por que as coisas foram melhores em 2002.

Aquela geração da seleção inglesa é vista por muitos como uma decepção, já que a chamada Geração de Ouro nunca passou das quartas de final em Copas do Mundo ou Eurocopas, caindo também nessa fase em 2004 e 2006.

No entanto, Heskey não concorda totalmente com essa avaliação, argumentando que várias outras grandes seleções eram igualmente fortes na época, destacando o talento que França, Portugal e Brasil tinham à disposição: "Todo mundo tinha sua própria geração de ouro naquela época."

Ainda assim, ele não deixa de pensar no que poderia ter sido para ele e seus companheiros de 2002 em especial.

"Acho que foi o mais perto que chegamos."