Van Persie nunca foi alguém que gostasse de chamar atenção fora do gramado. Tudo de brilhante que tinha a oferecer, ele mostrava em campo. Fez isso na Holanda, com o Feyenoord e a seleção holandesa, e na Inglaterra, com o Arsenal e o Manchester United. O atacante constriuiu uma carreira repleta de troféus e foi um dos melhores de sua geração.
Depois de pendurar as chuteiras, Robin agora tenta a sorte como técnico, observando o jogo por uma perspectiva diferente e descobrindo um novo lado do futebol.
Conversamos com o ex-jogador durante o Festival Internacional de Ciclismo de Girona, onde ele participava como embaixador global da marca ENGWE.
O Festival aconteceu a apenas alguns quilômetros do Camp Nou, palco de um dos momentos mais controversos de sua carreira: a expulsão contra o Barcelona na Champions League, depois que ele continuou um ataque apesar do apito do árbitro: "Foi incrível. Havia 100 mil pessoas, e eu realmente não ouvi o apito do árbitro".
Confira o papo com Van Persie:
• Que tipo de abordagem no futebol fascina você hoje?
"No futebol, fico fascinado por abordagens muito diferentes. Como jogador, eu tinha uma visão mais ligada a certos princípios, enquanto minha experiência no banco me ensinou a observar o jogo de uma perspectiva mais ampla. Hoje consigo apreciar tanto um time que sabe atacar rapidamente no contra-ataque quanto um time capaz de dominar uma partida por meio da posse de bola e da construção das jogadas".

• Você disse certa vez: “O futebol pode ser arte”. Quais foram os gols mais bonitos da sua carreira, aqueles que você realmente consideraria obras de arte?
"Obviamente, o gol contra a Espanha, de cabeça (na Copa de 2014). E, em nível de clubes, os voleios contra o Charlton, pelo Arsenal, e contra o Aston Villa, pelo Manchester United.
"Mas, para mim, não são tanto esses momentos que são mais importantes. São mais os momentos que levaram a eles, porque todos veem o que acontece no gramado.
"A maioria das pessoas vê apenas os momentos bonitos, mas, para mim, o que importa mais é o trabalho duro, a luta, o que você faz quando ninguém está vendo. E, para mim, isso é mais importante do que um gol específico".
• Falando dos momentos que as pessoas não veem: como você lidou com as lesões?
"A vida não é feita apenas de momentos bons, mas é preciso sofrer muito para alcançar bons momentos, e isso é algo que valorizo muito. Os momentos difíceis deixam marcas e inevitavelmente colocam você à prova.
"Para atravessar certos períodos, é preciso ter força, paciência e, acima de tudo, a capacidade de se reerguer sem desistir. Considero esses momentos muito importantes, mais importantes do que os troféus que conquistei, assim como a lembrança das pessoas que estiveram comigo.
"Valorizo muito isso, porque é fácil ter pessoas ao seu redor quando você está no auge e quando tudo está indo bem. Todo mundo fica feliz por você. Mas quem está ao seu lado quando você passa por um momento difícil? Quem continua leal?"
• Quem foi um zagueiro rival que você admirava e respeitava especialmente?
"Os adversários mais difíceis foram John Terry, Thiago Silva, Rio Ferdinand e Nemanja Vidic."
• E com qual jogador você mais aprendeu?
"Na verdade, aprendi basicamente com todo o time do Arsenal quando cheguei a Londres. Com o time inteiro, basicamente. Eu era jovem; eles eram mais velhos; eram melhores. Então, aquele foi um lugar muito bom para eu estar".
• Chegar à Premier League foi um pouco como ir para a universidade, então.
"Quando cheguei ao Arsenal, achava que era o jogador número um do meu país, mas, na verdade, era apenas um jovem talentoso que ainda tinha tudo a provar.
"Com o passar dos anos, comecei a entender qual era o meu lugar no futebol. E, durante meu período na Inglaterra, percebi: 'Ei, espere, existem jogadores muito melhores'. Então, precisei estar aberto, aprender, manter a cabeça baixa e ser humilde".
• Uma lição que, passo a passo, levou você a ganhar o prêmio de Jogador do Ano em 2012.
"Foi uma grande honra, mas preciso admitir que não gosto pessoalmente de troféus individuais, porque eles não são um fato. São opiniões das pessoas; dependem do que os outros gostam. Se elas invejarem você por qualquer motivo, não votarão em você. Portanto, há muitos motivos diferentes pelos quais você pode ganhar ou não".
• Como você alcança seu potencial máximo?
"Tudo começa com a disciplina diária, sua mentalidade e sua disposição para continuar evoluindo. Para alcançar um objetivo, é preciso estar disposto a dar tudo por ele, passo a passo. A verdade é que, para permanecer no topo por muito tempo, você precisa conviver com o tédio, os sacrifícios, a consistência e pouquíssimas distrações".
• O futebol mudou muito?
"Comparado a alguns anos atrás, parece que o futebol mudou de pele. No passado, a qualidade técnica e a capacidade de ler o jogo tinham mais peso, enquanto hoje o aspecto físico e a velocidade desempenham um papel cada vez mais importante. É uma evolução que, de certa forma, também reflete a sociedade em que vivemos: temos cada vez menos tempo para parar, e parece que tudo precisa acontecer mais rápido".
• E então, o que resta do bom e velho futebol?
"Na minha opinião, os aspectos do jogo em si devem sempre continuar sendo os mais importantes. Porque, se você sair um segundo antes e chegar a tempo, já tiver visto onde estão os adversários e onde estão seus companheiros e der o passe perfeito, mesmo que não tenha acelerado, ainda terá causado impacto, ainda terá feito a diferença".

• Para um holandês, a transição do futebol para o ciclismo foi quase natural. Você se tornou embaixador global da marca ENGWE. O que convenceu você a participar deste projeto, que promove um estilo de vida ativo e sustentável?
"Quando você decide assumir uma parceria, sempre observa a qualidade da marca, o que ela representa, quais são seus valores e o que eu represento. Sou holandês, então basicamente crescemos com o ciclismo. É como a primeira coisa que você ganha quando tem dois, três ou quatro anos: uma bicicleta. E essa parte nunca me abandonou de verdade. Eu ia de bicicleta para a escola, para todos os lugares.
"E é isso que procuro em qualquer parceria: compartilhamos os mesmos valores? Ela representa qualidade? É confiável? Tem uma boa aparência, o que também é importante, e é esportiva?"
• Qual é a importância do conceito de sustentabilidade para você?
"É muito importante. Temos uma dívida com o planeta. E também vejo isso como um pouco mais de qualidade de vida. Além de manter você em forma, uma bicicleta elétrica dá a oportunidade de ter uma qualidade de vida melhor com as pessoas que ama. Você pode fazer trajetos mais longos do que faria normalmente com uma bicicleta comum".
