Na semifinal de 1958, com três gols do ainda desconhecido Pelé, o Brasil passou pelos Bleus por 5 a 2 e, dias depois, ganharia sua primeira Copa do Mundo sobre os donos da casa, a Suécia. “Eles parecem vir de outro planeta", escreveu o famoso periódico francês L’Equipe após o jogo.
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Na soma de todas as partidas entre as duas seleções — que se enfrentam nesta quinta-feira (26), nos Estados Unidos, às 17h (de Brasília) —, o Brasil até leva vantagem: são sete vitórias, quatro empates e cinco derrotas.

Mas, desses 16 jogos, o peso das vitórias francesas em jogos oficiais — quatro conquistas, contando a Copa das Confederações de 2001 — é muito maior. São três triunfos gauleses em jogos eliminatórios de Copas do Mundo contra uma única derrota, justamente a de 1958.
O duelo em solo sueco
O ataque da França (Wisnieski, Kopa, Fontaine, Piantoni e Vincent) era a grande sensação do Mundial. Chegou à semifinal, no estádio Råsunda, em Estocolmo, com 15 gols em quatro jogos — média exuberante de 3,7 por partida.
Os sul-americanos, nos mesmos quatro duelos anteriores, haviam marcado seis gols. A vantagem brasileira estava na defesa: nenhum gol sofrido. A expectativa não demorou a se confirmar. Aos oito minutos, o placar já estava 1 a 1.
Antes do fim do primeiro tempo, Didi e sua folha seca entraram em ação. Um chute de longe parecia sair, mas a bola fez a curva e, como uma folha seca ao sabor do vento, caiu de repente dentro da meta de Abbes.
No segundo tempo, vieram mais três gols de Pelé, e a França ainda descontou quando o placar já estava 5 a 1. “Hoje sei que sonhamos o impossível: marcar jogadores imarcáveis”, disse Raymond Kopa anos depois.

A França jogou boa parte do segundo tempo com um a menos — o zagueiro Jonquet saiu machucado — e, naquela época, substituições eram proibidas.
Os franceses, ou mais precisamente Just Fontaine, saíram com um prêmio de consolação histórico. Filho de pai francês e mãe espanhola, nascido em Marrakesh, o atacante marcou 13 gols naquele Mundial — recorde que jamais foi quebrado em uma única edição.
Somando Copas, o alemão Gerd Müller superaria a marca nos anos 1970, com 14 gols entre 1970 e 1974. Ronaldo, com quatro Copas e 15 gols, assumiu o topo em 2002.
Mas o posto de maior artilheiro da história das Copas hoje pertence ao alemão Klose: são 16 gols somando 2002, 2006, 2010 e 2014. O último desta lista foi no fatídico 7 a 1, contra o Brasil, na semifinal.
O drama dos pênaltis
Se o dia 24 de junho de 1958 entrou para a história como o nascimento de Pelé para o mundo, o dia 21 de junho de 1986 também não pode ser esquecido — mas por outro motivo.
A vitória da França sobre o Brasil nas quartas de final, nos pênaltis, enterrou de vez as chances da geração de Zico — que já havia encantado o mundo, mas caído em 1982 para a Itália — conquistar uma Copa com a camisa amarela.
Do outro lado, Platini e companhia comemoravam — era aniversário do craque francês. A partida terminou 1 a 1 e, nos pênaltis, Bats defendeu a cobrança decisiva de Júlio César. Sócrates, pelo Brasil, e o próprio Platini também haviam desperdiçado suas cobranças.

A torcida brasileira não esquece dois lances daquele jogo.
“Um erro meu resultou no pênalti batido pelo Zico. Assim que aconteceu, Platini veio correndo até mim e disse: ‘É melhor você rezar para que eles errem essa, ou vou te dar um chute no traseiro’. Dei um grande abraço em Bats quando ele fez a defesa. Era aniversário do Michel, clima de festa. Fiquei muito aliviado por não ter estragado tudo”, disse o lateral Luis Fernandez, descrevendo o pênalti perdido por Zico no tempo normal.
O craque brasileiro havia entrado no decorrer da partida. Se tivesse feito o gol da marca da cal, poderia ter evitado a decisão.
O terceiro pênalti francês durante a disputa também entrou para a história: Bellone bateu, a bola acertou a trave, tocou nas costas do goleiro Carlos e morreu no fundo do gol.
Champions du monde
A convulsão de Ronaldo, o erro de Zagallo e a França imponente de Deschamps, Zidane e Djorkaeff. Há vários ângulos para descrever a final de 1998, disputada para 80 mil pessoas no Stade de France, mas o mais preciso está dentro das quatro linhas.
“O triunfo da razão” foi uma das manchetes da revista francesa Onze para celebrar o primeiro título mundial dos Bleus. Era uma França que havia chegado ao fundo do poço em 1993, mas que, em quatro anos, se reconstruiu sob o comando de Aimé Jacquet.

Pela segunda vez na história — e a primeira fora de casa —, o Brasil perdia uma final de Copa. Teorias à parte, Zidane marcou dois gols no primeiro tempo (aos 27 e aos 45), e os donos da casa ainda contaram com a segurança de Barthez.
As falhas defensivas brasileiras foram decisivas. Petit fechou o placar aos 47 do segundo tempo. Explosão tricolor em Paris.

Outra vez a defesa
Quartas de final da Copa da Alemanha. Falta para a França aos 12 minutos do segundo tempo. Zidane na bola. O cruzamento por trás da zaga encontra Henry, em velocidade. Roberto Carlos sai atrasado — até hoje se diz que arrumava a meia — e Dida é vencido.
O Brasil está eliminado. A França chegaria à final, mas cairia diante da Itália, nos pênaltis, na partida marcada pela cabeçada de Zidane em Materazzi.

Um amistoso turbinado
A partida desta quinta será o 12º amistoso entre Brasil e França. Apenas um, em 1978, ocorreu tão perto de uma Copa do Mundo — vitória francesa por 1 a 0, em casa, contra a seleção de Cláudio Coutinho.
O cenário atual é outro. A França vive um período consistente, com o mesmo treinador há mais de uma década. Deschamps é um dos três homens a conquistar a Copa como jogador e técnico, ao lado de Beckenbauer e Zagallo. São duas finais recentes, com um título — na Rússia, contra a Croácia.
O time francês tem uma geração ofensiva que rivaliza — ou até supera — a brasileira.
Do lado do Brasil, as contusões embaralharam as certezas de Carlo Ancelotti às vésperas do Mundial. O trabalho do italiano ainda é recente.
O duelo ganha importância mesmo sendo amistoso, porque europeus e sul-americanos têm se enfrentado pouco fora das competições oficiais. Desde a final perdida para a Argentina no Catar, por exemplo, a França enfrentou apenas uma seleção sul-americana: vitória por 3 a 2 sobre o Chile, em 2024.
Depois deste encontro, Brasil e França só voltam a se cruzar nesta Copa da América do Norte se chegarem à final — e liderarem seus grupos na fase de classificação.
