Carlos Vinícius transforma reencontro com Brasil em série de hat-tricks pelo Grêmio

Carlos Vinícius vive grande fase no Grêmio
Carlos Vinícius vive grande fase no GrêmioLUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Embalado pela fase artilheira de Carlos Vinícius, o Grêmio enfrenta o São Paulo nesta quarta-feira (11), no MorumBis, pela 3ª rodada do Brasileirão. Autor de dois hat-tricks na Série A desde a volta no ano passado, o atacante tricolor já figura em um ranking restrito do campeonato na última década.

Carlos Vinícius passa por um momento de redescoberta após uma carreira marcada por mudanças de posição, altos e baixos na Europa e um retorno decisivo ao futebol brasileiro. Aos 30 anos, o atacante vive no Grêmio um ponto de inflexão raro em carreiras longas e errantes. 

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Os dois hat-tricks de Carlos Vinícius na Série A desde 2025 não são um dado trivial na história recente do campeonato — é um sinal de impacto. Embalado por esse momento, o camisa 95 chega como uma das principais apostas do Grêmio para o duelo com o São Paulo.

De quase desistente a goleador improvável

A trajetória ajuda a explicar o peso deste momento. Maranhense de Bom Jesus das Selvas, Carlos Vinícius esteve perto de abandonar o futebol antes de receber, em 2017, o convite para atuar em Portugal, pelo Real Sport Clube.

O que parecia uma última tentativa – entre o convite e a viagem se passou menos de uma semana – virou ponto de virada. Vieram o Rio Ave (via empréstimo do Napoli) e, sobretudo, o Benfica, onde viveu seu ano mais produtivo na temporada 2019/20, sob o comando de Jorge Jesus.

Há um detalhe pouco comum nessa história: antes de virar centroavante, Carlos Vinícius foi zagueiro por dois anos e volante por um. A mudança definitiva para o ataque, ainda na base do Palmeiras, em 2015, moldou um jogador com leitura de jogo pouco usual para quem vive da bola final, como ele mesmo se define.

Melhores temporadas de Carlos Vinícius
Melhores temporadas de Carlos ViníciusFlashscore

Europa como aprendizado, não como auge

Depois do Benfica, os números nunca mais atingiram o mesmo patamar. Tottenham, PSV, Galatasaray, Fulham: clubes grandes, contextos competitivos, mas sempre a sensação de que Carlos Vinícius orbitava o protagonismo sem nunca se fixar nele. 

No Tottenham, por exemplo, viveu à sombra de Harry Kane, experiência que pouco ajuda estatísticas, mas muito ensina sobre função e disciplina tática. A volta ao Brasil, curiosamente, recoloca o atacante sob ordens de um treinador português, Luís Castro — e é aí que a engrenagem volta a girar.

Estatísticas de Carlos Vinícius
Estatísticas de Carlos ViníciusFlashscore

Hat-tricks não são acidentes estatísticos

Dois hat-tricks na Série A não acontecem por acaso. Desde 2016, apenas seis jogadores conseguiram marcar mais de um em toda a carreira no Brasileirão, segundo levantamento do Flashscore. Carlos Vinícius já está nesse grupo. 

Entre gremistas, Luis Suárez (2023) e Everton Cebolinha (2017) atingiram o feito uma vez. Do lado do São Paulo, adversário desta rodada, Calleri também figura no ranking, com uma trinca em 2022.

Mais do que a companhia ilustre, o dado aponta para algo maior: hat-tricks são eventos raros em um campeonato marcado por jogos travados, gramados irregulares e longos períodos de antijogo, na comparação com o contexto europeu.

Ranking de jogadores com mais hat-tricks no Brasileirão, desde 2016
Ranking de jogadores com mais hat-tricks no Brasileirão, desde 2016Flashscore

Um clube, um contexto, uma função clara

Com dois hat-tricks na Série A — além de mais um no Campeonato Gaúcho —, Carlos Vinícius se iguala a Keno e Pedro no ranking de jogadores com mais de uma trinca de gols no Brasileirão desde 2016. Ele só aparece atrás de Gabigol, com três, e dos líderes Bruno Henrique e Yuri Alberto, ambos com quatro.

Yuri, hoje no Corinthians, fez seus hat-tricks com duas camisas diferentes. Foram três em 2021, pelo Internacional, e outro em 2025, já vestindo a camisa alvinegra. Ao todo, o atacante soma nove edições da Série A no currículo.

Bruno Henrique, com 11 edições disputadas, anotou seu primeiro hat-trick pelo Santos, em 2017. No Flamengo, foram dois em 2019 e um em 2021. Gabigol, por sua vez, marcou um pelo Santos em 2018 e dois pelo Flamengo em 2021. Atualmente, disputa sua 13ª edição do Campeonato Brasileiro.

Keno e Pedro têm um dado em comum: fizeram seus dois hat-tricks com a mesma camisa. No caso de Keno, ambos pelo Atlético-MG, em 2020; já Pedro alcançou o feito pelo Flamengo, em 2022 e 2025. O atacante rubro-negro disputa sua 11ª Série A, assim como Keno.

Não se trata de comparar Carlos Vinícius tecnicamente a esses nomes, mas de situá-lo em um contexto mais amplo: quando o sistema funciona e a função é clara, o gol aparece. No Grêmio, ele é referência. Não disputa protagonismo — assume.

O contraste com a Premier League

Os números brasileiros ficam ainda mais eloquentes quando comparados aos da Premier League. Desde 1992/93, os ingleses registraram 403 hat-tricks, com média de 11,85 por temporada. É outro futebol, em quase tudo: gramado, ritmo, tempo útil de bola rolando.

O recordista inglês é Sergio Agüero, com 12 hat-tricks em 10 edições pelo Manchester City — número tão simbólico que virou estátua em tamanho real no Etihad Stadium. No Brasil, ao contrário, cada trinca carrega peso histórico.

Jogadores da Premier League com mais hat-tricks
Jogadores da Premier League com mais hat-tricksFlashscore

O que está em jogo no MorumBis

Quando Grêmio e São Paulo se enfrentarem nesta quarta-feira (11), pela 3ª rodada do Brasileirão, o que estará em campo não é apenas um atacante em boa fase. É um debate antigo do futebol brasileiro: contexto, função e confiança ainda fazem mais diferença do que pedigree ou currículo internacional.

Carlos Vinícius é, hoje, a prova viva disso. Será por toda a temporada?

E de onde vem o termo?

O termo hat-trick surgiu no críquete, no século XIX. Ele era usado para designar o feito raro de um jogador eliminar três adversários com três arremessos consecutivos, façanha que costumava ser recompensada com a oferta de um chapéu (hat), pago por meio de uma vaquinha entre torcedores ou membros do clube. 

A expressão passou a ser adotada também no futebol, mantendo a ideia central de três feitos decisivos na mesma partida — no caso, três gols marcados por um mesmo jogador —, tornando-se sinônimo de desempenho excepcional e rapidamente incorporada ao vocabulário esportivo internacional. O hóquei no gelo também usa a expressão. 

Os registros históricos indicam que a expressão foi usada pela primeira vez em 1858, quando o arremessador Stevenson acertou três wickets (três estacas de madeira unidas pelo alto) em três bolas consecutivas, conseguindo comprar um chapéu novo, após a arrecadação do dinheiro.