Defesa que ninguém passa: pressão seletiva sobre a bola é a chave do Palmeiras

Palmeiras tomou apenas 10 gols no Brasileirão
Palmeiras tomou apenas 10 gols no BrasileirãoAlexandre Schneider/Getty Images

O Palmeiras de Abel Ferreira, com quase 32% do campeonato disputado, está com uma média de aproveitamento de 81% — superior, por enquanto, aos 79% do Flamengo de Jorge Jesus em 2019. Se o Verdão é dono do melhor ataque (sozinho) e da melhor defesa do Brasileirão (ao lado do Fla) é porque a pressão defensiva seletiva que a equipe exerce sobre os adversários vem sendo fundamental.

A métrica que analisa a eficiência defensiva real de um time de futebol — separando a influência do goleiro e o fator sorte, tão importante no esporte — é o xGA (gols esperados contra). É um índice que mede não quantos gols um time sofreu, mas quantos deveria ter sofrido com base na qualidade das chances que concedeu.

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No caso do Palmeiras, que está com um xGA de 10,3 (ou 0,86 por jogo) e tomou, na realidade, 10 gols (média de 0,83), os dados corroboram uma defesa sólida — aquela que "ninguém passa", como gostam de cantar os alviverdes nas cadeiras do Allianz Parque, que ainda não teve o seu nome mudado.

G5 do Brasileirão: Palmeiras e Flamengo têm melhores defesas
G5 do Brasileirão: Palmeiras e Flamengo têm melhores defesasFlashscore

Carlos Miguel não está precisando fazer milagres, nem o time está sendo azarado. O sistema vem concedendo poucas chances de qualidade, e essas chances estão sendo defendidas de forma proporcional ao esperado. É uma defesa eficiente de verdade, não inflada por um goleiro extraordinário ou pela sorte. O padrão palmeirense de xGA é nível Europa.

Mas o que sustenta toda essa solidez nem sempre é o que se imagina. Ao cruzar o xGA com os indicadores de pressão sobre o adversário da Opta, o retrato que emerge é de um time que opera com volume de pressão mediano — 11º entre as 20 equipes da Série A em sequências de pressão aplicadas por jogo, com média de 3,44.

Atrás de uma boa defesa, Carlos Miguel tende a trabalhar menos
Atrás de uma boa defesa, Carlos Miguel tende a trabalhar menosCesar Greco/Palmeiras

Longe, portanto, do Flamengo (4,28), do Fluminense (3,89) e até do Remo (4,46), que lideram esse ranking. Nos desarmes no campo adversário — as recuperações de bola no terço ofensivo, chamadas de high turnovers — o Palmeiras aparece ainda mais abaixo, com 56 no total, enquanto Flamengo (99), Santos (90) e Cruzeiro (86) dominam a lista.

A distância média de início de sequências ofensivas completa o quadro. Com 40,4 metros do gol adversário — 15º entre os 20 times —, o Palmeiras está longe de ser um time de linha alta. Opera com o bloco mais recuado do que avançado, abaixo do Corinthians (41,6 m) e muito aquém do Flamengo (45,3 m), que inicia suas jogadas já no campo adversário.

Na derrota de virada para o Vasco, por 2 a 1, time jogou mais espaçado
Na derrota de virada para o Vasco, por 2 a 1, time jogou mais espaçadoStats Perform/Opta

Sucesso no equilíbrio

O paradoxo aparente se resolve quando se entende que volume de pressão e eficiência defensiva não são a mesma coisa. A Chapecoense, por exemplo, tem a maior média de sequências de pressão da Série A (4,46 por jogo) e, ao mesmo tempo, o pior xGA da competição (20,22). 

Pressionar muito pode ser sinal de desorganização — um time que corre atrás da bola por necessidade, não por escolha. Quando a pressão falha, e ela sempre falha em algum momento, o adversário encontra espaço em campo aberto para finalizar em condições muito mais favoráveis.

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O Palmeiras escolheu outro caminho. Pressiona de forma seletiva e pontual — e quando pressiona, é eficiente: das 108 sequências de pressão aplicadas em 12 jogos, 56 resultaram em recuperações no terço ofensivo, uma taxa de conversão de 52%.

Compactação maior contra o Bahia ajudou na vitória por 2 a 1
Compactação maior contra o Bahia ajudou na vitória por 2 a 1Stats Perform/Opta

Quando recua, mantém o bloco organizado o suficiente para forçar o adversário a finalizar de longe ou em ângulos desfavoráveis, o que explica o xGA baixo mesmo sem pressão intensa.

Há ainda uma camada adicional em se tratando dos comandados de Abel Ferreira. O Palmeiras sofreu 128 sequências de pressão por parte dos adversários — mais do que aplicou. Como se sabe que o Verdão tenta construir desde a sua linha defensiva, com os zagueiros, muitos treinadores optam por dificultar essa saída de bola com frequência.

Com 3,4 passes por sequência — ou seja, o adversário consegue encaixar apenas 3,4 passes antes de ser interrompido ou neutralizado —, o Palmeiras demonstra que escapa das eventuais blitzes com eficiência. O time aceita o risco de jogar com a bola no chão mesmo sob pressão e, até agora, tem dado conta de sair dela.

As três equipes que menos concedem chances aos adversários no Brasileiro
As três equipes que menos concedem chances aos adversários no BrasileiroStats Perform/Opta

O Corinthians, melhor xGA da competição com 10,02, percorre um caminho parecido — bloco recuado, pressão moderada, organização posicional. O Flamengo é o contraponto: linha alta, pressão intensa e volumosa, mesmo xGA de 10,31 do Palmeiras.

São três filosofias defensivas distintas convergindo para resultados semelhantes — no caso do Corinthians, dois técnicos diferentes e um ataque inoperante explicam melhor a posição na tabela de classificação.

Sem fórmulas mágicas, além do talento e do acaso, um time eficiente no longo prazo é aquele que constrói coerência entre proposta tática e execução. O que sempre demanda tempo e, também, dinheiro para a busca por jogadores que se encaixem na filosofia de trabalho.