“Queremos manter a bola o quanto pudermos. É por isso que quero jogadores como Xabi e Thiago”. A frase de Pep Guardiola, dita ainda no Bayern de Munique, ajuda a explicar uma transformação silenciosa no futebol contemporâneo.
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Quando a posse se perde, Xabi Alonso pode até virar o “pior jogador do mundo” para defender — mas essa nunca foi a função para a qual foi contratado. O que está em jogo é a redefinição do volante: menos marcador por essência, mais organizador do jogo.
A contratação de Xabi Alonso pelo clube bávaro, em 2015, foi um pedido direto de Guardiola e simboliza essa virada de chave. Peça central da Espanha campeã da Copa do Mundo de 2010 e da Eurocopa de 2012, Xabi representava o volante construtor em seu estado mais puro — um jogador pensado para controlar o jogo com a bola, mesmo que isso implicasse riscos quando ela não estivesse sob controle.
Guardadas as proporções, é essa lógica que aparece com força na Série A do Brasileirão deste ano e que estará em campo nesta quarta-feira (25), em Barueri, no duelo entre Palmeiras e Fluminense.

Os papéis de Marlon Freitas e Martinelli
Em vez do meio-campista exclusivamente destruidor, os dois times apostam em volantes capazes de organizar, circular a bola e dar ritmo — ainda que isso exija compensações coletivas sem ela.
A partir dessa chave conceitual, o Brasileirão 2026 ajuda a entender como essa transformação deixou de ser exceção para virar regra. O meio-campo exclusivamente marcador, que durante décadas estruturou o jogo no país, perde espaço para jogadores capazes de organizar, acelerar ou desacelerar a partida conforme o contexto. Não é uma escolha estética: é uma exigência funcional do futebol atual.
Essa lógica estará em campo às 21h30, no gramado sintético da casa reserva do time paulista. Enquanto o Verdão e Abel Ferreira apostaram em Marlon Freitas como peça central do meio-campo nesta temporada, o Tricolor segue fazendo o jogo girar desde trás com Martinelli.
Eles não são jogadores idênticos — nem em estilo, nem em repertório técnico —, mas exercem funções que se aproximam mais do que se afastam.
Ambos se enquadram no perfil do meio-campista polivalente, capaz de atuar como primeiro organizador à frente da defesa e, ao mesmo tempo, aparecer como apoio mais adiantado quando o time tem a bola. Podem ser chamados de “5” ou de “8”, mas a verdade é que essas nomenclaturas já não dão conta da complexidade do papel que exercem.

Volantes que ditam ritmo
Os números das três primeiras rodadas do Brasileiro reforçam essa leitura. Marlon Freitas e Martinelli estão entre os jogadores que mais participam da circulação de bola de suas equipes, funcionando como pontos de apoio constantes para a saída de jogo.
Titulares absolutos até aqui, os dois ajudam a explicar por que Palmeiras e Fluminense conseguem ter cadência em boa parte do jogo. Há, porém, diferenças claras de comportamento.
Martinelli arrisca mais no drible e aparece com frequência no campo ofensivo — movimento que se intensificou nos últimos jogos do time comandado por Zubeldía, especialmente após o ajuste com Bernal.

Marlon Freitas, por sua vez, avança menos, até pela dinâmica criada com Andreas Pereira, mas ainda assim participa ativamente da construção de jogadas e da criação de chances para o Verdão.
Na vitória do Fluminense sobre o Grêmio por 2 a 1, os dados deixam essa centralidade evidente. Atuando ao lado de Nonato, Martinelli foi o jogador que mais tentou passes na partida (80) e também o mais preciso (94%).
Se o recorte for restrito ao pedaço final do campo, mais próximo do gol adversário, ele novamente lidera: 93% de aproveitamento em 15 passes. É um indicador claro de como sua influência não se limita à saída de bola.

Outro ponto de convergência entre o camisa 8 tricolor e Marlon Freitas é o baixo número de cruzamentos para a área. Nenhum dos dois atua como lançador recorrente pelos lados; sua função é manter o jogo por dentro, aproximar setores e dar continuidade às jogadas.
No caso de Marlon, os dados da temporada passada — quando liderou diversos indicadores ligados à distribuição — foram determinantes para despertar o interesse da comissão técnica portuguesa do Palmeiras.
As estatísticas iniciais de 2026 indicam que esse padrão não apenas se mantém como, em alguns aspectos, se consolida. Mesmo com apenas três rodadas disputadas, o meio-campo alviverde segue entre os mais eficientes da competição.

Escolha ofensiva
Um dado simbólico ajuda a entender essa escolha estrutural: na final da Libertadores contra o Flamengo, Abel Ferreira escalou apenas um meio-campista de ofício entre os titulares (Andreas Pereira, considerando Raphael Veiga como alguém que atua sempre mais perto do ataque).
Para o duelo em Barueri, que pode valer a liderança do campeonato, a principal incógnita está em como esse meio-campo será desenhado. A possível entrada de Arias pelo Palmeiras tende a reforçar um modelo que, com a bola, se aproxima de um 4-2-4 — desenho que se reorganiza sem ela.
A questão central é até que ponto esse arranjo potencializa um setor sem um volante claramente defensivo.
Do lado do Fluminense, os números de Martinelli no último terço do campo mostram sua capacidade de abastecer os jogadores mais técnicos, justamente na zona onde o jogo costuma ser decidido.

A dúvida passa por saber quanto espaço o camisa 8 terá para pensar e jogar diante de um adversário que pressiona alto e tenta encurtar o campo.
Se Xabi Alonso hoje é apontado como um dos treinadores mais promissores do cenário europeu — e até como possível sucessor de Pep Guardiola no Manchester City —, no Brasil, guardadas as devidas proporções, o debate é semelhante.
Abel Ferreira e Luis Zubeldía compartilham uma leitura sofisticada do jogo e sabem que liberar seus meio-campistas construtores exige compensações coletivas bem treinadas.

Ambos concordam em um ponto essencial: a marcação iniciada pelos atacantes tem peso decisivo nesse xadrez tático. Em um confronto direto pelo topo da tabela, não será apenas a qualidade com a bola que definirá o jogo, mas a capacidade de protegê-la — e de recuperá-la — no momento certo.
E, para ficar apenas nos outros dois líderes em pontos da Série A, São Paulo e Bahia, o raciocínio é semelhante. No Tricolor Paulista, Hernán Crespo tem utilizado Bobadilla, Danielzinho e Marcos Antônio — nenhum deles dedicado exclusivamente ao desarme ou à proteção da zaga.
Já no Tricolor Baiano, Rogério Ceni também aposta em um meio-campo de toque e circulação, com Acevedo, Everton Ribeiro e Jean Lucas.
