Em 5 anos, Brasileirão teve 3 vezes mais trocas de técnicos que Premier League

Filipe Luís foi demitido após Flamengo golear Madureira por 8 a 0
Filipe Luís foi demitido após Flamengo golear Madureira por 8 a 0Fernando Moreno / AGIF via AFP

Respaldado por um grupo de torcedores rubro-negros que fez ecoar a palavra “vergonha” pelo Maracanã após a goleada sobre o Madureira por 8 a 0, o presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap) rifou Filipe Luís do comando técnico da Gávea. O mesmo que, há menos de dois meses, conquistara a Libertadores e o Brasileirão.

Por mais estranha que soe a demissão, realçada por um comunicado lacônico nas redes sociais, os números da dança das cadeiras na Série A mostram que episódios como o visto esta semana estão longe de ser exceção.

Confira a tabela completa do Brasileirão

Entre 2021 e 2025, considerando todas as 38 rodadas do campeonato nacional, houve uma média de 21 demissões, uma marca mais de três vezes maior do que a registrada na Premier League. No cálculo, não entram mudanças antes da primeira rodada ou depois da última, nem pedidos de demissão.

Demissões nas últimas cinco temporadas da Série A
Demissões nas últimas cinco temporadas da Série AStats Perform/Opta

O recorde foi atingido no ano passado, com 23 trocas de técnico. O Vitória, que acabou se livrando do rebaixamento, bateu o recorde da competição, com três alterações. Entre os cinco primeiros colocados, apenas o Fluminense mudou de treinador durante o Brasileirão.

Na Inglaterra, onde não é comum existirem treinadores com mais de três anos no cargo, a média, dentro dos mesmos critérios e intervalo temporal, é de 6,6 demissões. Dos 12 treinadores que ganharam a Premier League até hoje — nenhum inglês —, sete estavam havia mais de três anos no cargo quando conquistaram o título.

Entre eles estão o lendário caso de Alex Ferguson, que dirigiu o Manchester United durante 26 temporadas completas, e Arsène Wenger, que permaneceu 22 anos no Arsenal sem nunca vencer, por exemplo, uma Liga dos Campeões.

Se na Inglaterra a discussão sobre o aumento das trocas no comando recai sobre a pressão de influenciadores nas redes sociais — e a temporada 2022/23, com 12 demissões, é a recordista —, no Brasil, desde que os pontos corridos passaram a ter 20 clubes, em 2006, a tendência é de uma ligeira queda. O recorde pertence a 2015, com 32 mudanças.

A dança das cadeiras de técnicos na Inglaterra
A dança das cadeiras de técnicos na InglaterraStats Perform/ Opta

Abel Ferreira: exceção à regra

O foco sobre duas das principais forças do futebol brasileiro, Flamengo e Palmeiras, mostra estratégias bastante distintas das duas diretorias. Se Abel Ferreira tornou-se o quarto técnico mais longevo do futebol brasileiro em fevereiro, entre clubes das principais divisões do país, com mais de cinco anos no cargo, o Flamengo, no mesmo período, soma 10 nomes diferentes, incluindo o atual, Leonardo Jardim.

Abel ultrapassou Telê Santana, que dirigiu o São Paulo por cinco anos e três meses entre 1990 e 1996, uma das épocas mais vitoriosas do Tricolor Paulista — e ainda está atrás de Flávio Costa (Flamengo, entre 1938 e 1946), Henry Welfare (Vasco, entre 1926 e 1937) e Lula (Santos, entre 1954 e 1967).

Abel Ferreira, técnico mais longevo desde Telê Santana
Abel Ferreira, técnico mais longevo desde Telê SantanaErnesto Benavides/AFP

Se o objetivo da troca é deixar a equipe mais perto das conquistas, a história recente, desde 2020, absolve a diretoria rubro-negra. Desde que Abel chegou ao Brasil, no fim de 2020, o Palmeiras venceu oito grandes troféus, entre Brasileiros (2), Libertadores (2), Copa do Brasil (1) e Paulistas (3), sendo que os comandados da comissão técnica portuguesa ainda disputam mais um estadual contra o Novorizontino.

Na Gávea, considerando as mesmas competições, são 10 títulos no período: dois Brasileiros, duas Libertadores, duas Copas do Brasil e quatro estaduais — podendo conquistar um quinto no fim de semana.

Dados científicos

Se a balança está um pouco mais pesada para o lado carioca, o mundo científico desaconselha esse entra e sai de treinadores.

Um estudo conduzido pelo economista holandês Bas ter Weel, publicado em 2011, analisou o desempenho de clubes da primeira divisão dos Países Baixos ao longo de 18 temporadas para verificar se substituir o comando técnico realmente melhora os resultados.

A pesquisa comparou equipes que sofreram quedas bruscas de rendimento — pelo menos 25% na média de pontos por jogo em quatro partidas — mas mantiveram o técnico, com outras que decidiram demiti-lo após uma sequência semelhante de maus resultados.

O resultado desafia um dos reflexos mais comuns do futebol: a troca imediata no banco. Segundo o estudo, os times que mantiveram seus treinadores recuperaram o desempenho em ritmo semelhante ao das equipes que optaram por contratar um novo comandante. Em outras palavras, a mudança em si não gerou melhora estatisticamente significativa, conclusão que dialoga com pesquisas semelhantes realizadas em outros países europeus.

Treinadores com mais tempo de casa na Inglaterra hoje
Treinadores com mais tempo de casa na Inglaterra hojeStats Perform/Opta

A explicação passa por um fenômeno estatístico conhecido como regressão à média. No futebol, uma sequência ruim muitas vezes é resultado de fatores circunstanciais — lesões, suspensões ou variações de sorte — que tendem a se equilibrar com o tempo.

Assim, um time que despenca de desempenho pode voltar naturalmente ao seu nível habitual nas rodadas seguintes, independentemente de trocar ou não de treinador. Isso ajuda a desmontar o mito de que a simples mudança de comando seja responsável pela recuperação.

Mas, como as decisões da grande maioria dos cartolas passam pelo emocional e, muitas vezes, pela necessidade de “assinar” determinada conquista, a realidade costuma ser outra. Tanto que, na atual temporada da Premier League, nove treinadores já perderam seus cargos desde a primeira rodada, em agosto. No Brasil, Filipe Luís tornou-se o quarto técnico a ruir em quatro rodadas.