A história dos treinadores está entrelaçada e começou a ser contada no futebol brasileiro no ano passado, quando Leonardo Jardim desembarcou no país para comandar o Cruzeiro. Nos dois únicos enfrentamentos contra Abel Ferreira, o então celeste levou a melhor — uma vitória (2 a 1) e um empate (0 a 0).
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Agora, o novo capítulo desta disputa de comandantes vitoriosos acontecerá em um embate direto pelo topo do Brasileirão, com Jardim à frente do poderoso Flamengo, tetracampeão da América, e Abel buscando sustentar o Palmeiras na liderança do torneio nacional.

No Maracanã, a rivalidade incandescente que hoje os separa na tabela será, por 90 minutos, apenas um detalhe diante das tantas histórias e laços invisíveis que os unem. O Flashscore destrincha esta relação.
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Respeito e gratidão: O elo que nasceu na base
O elo entre os treinadores nasceu em Alvalade entre 2013 e 2014: Jardim no comando do elenco principal do Sporting e Abel à frente do time B. Com o clube integrado e apostando alto na base para abastecer o profissional, a dupla trabalhou em total sintonia. Foi sob o olhar atento dos dois que nomes promissores da época, a exemplo de João Mário, Eric Dier, Carlos Mané, Ricardo Esgaio e Matheus Pereira, ganharam espaço.

"Eu conheço o Abel há muitos anos. Quando eu estive no Sporting, o Abel era o técnico da equipe B. A partir daí criamos uma relação de trabalho porque eu pedia jogadores da equipe B, falávamos sobre futebol, sobre estratégia", contou Leonardo Jardim, após a vitória do Flamengo sobre o Estudiantes por 1 a 0, no meio de semana, pela Copa Libertadores.
"A partir daí, não é uma relação de nos telefonarmos todos os meses, mas é uma relação de respeito. Quando estamos juntos, com certeza conversamos sobre futebol e acho que ele no Brasil tem feito um excelente trabalho", acrescentou o técnico do Flamengo.
Abel Ferreira nunca escondeu a profunda admiração que possui por Leonardo Jardim. Publicamente, o técnico do Palmeiras destacou a importância do atual comandante rubro-negro em sua trajetória na beira do gramado.
"Ele (Leonardo Jardim), sem dúvida, é um dos responsáveis por eu chegar onde cheguei. Não só pela simplicidade, mas pelo trabalho, pela seriedade. Ele é uma referência para mim, principalmente pelo aspecto humano, princípios, caráter", exaltou o comandante do Palmeiras.

Carreiras gerenciadas pelos mesmos empresários
Os caminhos de Jardim e Abel na beira do gramado também se cruzam nos bastidores, já que as carreiras de ambos são geridas pelos empresários Hugo Cajuda e Bruno Santos.
Embora comandem agências próprias, os agentes portugueses atuam em parceria na exportação de treinadores para o Brasil. O portfólio da dupla por aqui inclui ainda a gestão de Artur Jorge, técnico do Cruzeiro, e a engenharia que levou Franclim Carvalho ao comando do Botafogo.

A intermediação dos empresários mostrou-se fundamental para que Jardim voltasse ao futebol brasileiro depois de deixar o Cruzeiro ao fim da última temporada. Cajuda e Santos são velhos conhecidos de José Boto, português que dirige o futebol do Flamengo.

Paixão pelos vinhos
Para além da estratégia em campo, Jardim e Abel compartilham a paixão pela cultura do vinho. Conhecido por frequentar confrarias de degustação em São Paulo, o comandante do Palmeiras costuma presentear figuras próximas com um rótulo especial em homenagem a Rui Nabeiro, influente empresário português e histórico ex-dirigente esportivo na região do Alentejo.
O plano original de Abel era lançar um vinho exclusivo com sua assinatura, mas o projeto esbarrou no tempo hábil exigido pela produção vinícola. O plano B transformou-se em um sucesso de bastidor: uma edição limitada embalada em uma caixa personalizada do técnico, miniatura que já foi entregue por ele como prova de respeito a Leila Pereira, Felipão e ao compatriota Álvaro Pacheco.

Abel só não presenteou Leonardo Jardim. Mas ele explicou o motivo.
"Não vou lhe oferecer uma garrafa de vinho quando for na minha casa, mas ele também produz vinho e azeite", brincou o treinador palmeirense.
Nascido na Venezuela, mas criado na Ilha da Madeira, Leonardo Jardim sempre manteve uma ligação umbilical com a agricultura e as tradições portuguesas. Durante o período em que esteve no topo do futebol europeu — especialmente no comando do Mónaco —, ele passou a investir pesado na produção de vinhos de alta gama e azeites extravirgem de qualidade premium.

Seus produtos são desenvolvidos a partir de olivais e vinhas selecionadas em regiões tradicionais de Portugal. O que começou como um hobby de degustação e um investimento familiar nos bastidores acabou se transformando em uma grife de exportação.
Quando Jardim comandou o Cruzeiro, seu principal respaldo de bastidores vinha justamente de Pedro Lourenço, o dono majoritário da SAF do clube celeste. E os dois criaram uma relação comercial, já que os produtos de Jardim chegaram às gôndolas do Supermercados BH, o gigante varejista administrado por Pedrinho.

Relação paradoxal com o país do futebol
No fim das contas, a conexão entre Abel Ferreira e Leonardo Jardim se amarra em um paradoxo tipicamente brasileiro: o desabafo compartilhado sobre a insana pressão do nosso futebol e a incapacidade de deixá-lo.

Em um desabafo sincero, Jardim chegou a perguntar ao amigo como ele conseguia resistir há meia década no cargo, enquanto para ele, em apenas três meses de Cruzeiro, o tempo parecia ter corrido três anos.

Entre críticas às mazelas do nosso calendário e o fascínio pela nossa competitividade, os dois decidiram fincar raízes. O reencontro deste sábado no Maracanã, valendo o topo do Brasileirão, é o capítulo mais vivo dessa relação, onde o cansaço do futebol brasileiro dá lugar à magia de ver dois dos maiores técnicos da atualidade disputando, ponto a ponto, a glória máxima do país.

