Muito além do campo: duelo entre Bahia e Bragantino é aula de gestão esportiva

Bahia conta com importante investimento do Grupo City
Bahia conta com importante investimento do Grupo CityRafael Rodrigues/EC Bahia

Em 2019, a Red Bull assumiu o controle do Bragantino, transformando-o em um clube-empresa. Quatro anos mais tarde, em 2023, o Grupo City adquiriu 90% da SAF do Bahia. Ambos os conglomerados desembarcaram no Brasil com pilares semelhantes: pagamento de dívidas, estabilidade técnica, modernização da infraestrutura e a elevação do patamar competitivo.

Por outro lado, as divergências de modelo são notórias. Enquanto o Grupo City replica a metodologia do Manchester City — priorizando a posse de bola e o controle do jogo —, a Red Bull foca em um DNA mais agressivo. A estratégia da marca de energéticos exige um estilo vertical e intenso, espelhado no Leipzig e no Salzburg, sustentado por uma captação agressiva de jovens talentos de grandes clubes brasileiros para revenda e vitrine.

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Perfil de investimento e mercado

Maiores Vendas do Bahia
Maiores Vendas do BahiaFlashscore

Com pouco mais de dois anos à frente do Bahia, o City Football Group já coleciona marcos administrativos expressivos. Entre as pratas da casa, o atacante Tiago (20 anos) protagonizou a maior venda de um jogador formado na base tricolor, custando R$ 27,71 milhões ao Orlando City. No mercado de transferências, o uruguaio Lucho Rodríguez estabeleceu um novo patamar: tornou-se a maior negociação da história do futebol nordestino ao ser vendido ao Neom (Arábia Saudita) por aproximadamente R$ 139 milhões — o dobro do valor investido pelo Esquadrão em sua contratação.

No ano passado, Biel gerou R$ 48 milhões de reais aos cofres do Bahia na sua ida ao Sporting-POR. Até o momento, as cinco principais negociações da gestão geraram um lucro aproximado de R$ 141 milhões. Com exceção de Tiago, todos os atletas foram negociados por valores superiores aos de aquisição — destaque para Everaldo, que chegou sem custos e foi vendido ao Fluminense por R$ 4,5 milhões.

A estratégia do Grupo City é clara: equilibrar a chegada de nomes consolidados no cenário nacional — como Jean Lucas, Éverton Ribeiro e Willian José, que elevam a média de idade do time para 27,2 anos — com o fortalecimento das categorias de base e a captação de jovens talentos. O objetivo é entregar resultados esportivos imediatos e, simultaneamente, garantir sustentabilidade financeira através de revendas futuras.

Contratações do RB Bragantino em 2026
Contratações do RB Bragantino em 2026RB Bragantino

Diferentemente do Bahia, o Red Bull Bragantino mantém um teto de idade rígido em suas contratações, raramente adquirindo atletas acima dos 26 anos. Dos quatro reforços desta temporada, apenas um ultrapassa a barreira dos 30, o que reflete na baixa média de idade do elenco titular, atualmente em 26,1 anos.

O investimento do Massa Bruta concentra-se em "promessas" captadas em grandes clubes brasileiros, no mercado sul-americano e em destaques das divisões inferiores. A estratégia é clara e converge com a do Grupo City em um ponto central: a valorização de ativos para gerar lucros exponenciais em transferências futuras, consolidando o clube como uma vitrine de alta performance.

Maiores Vendas do Bragantino
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Estabilidade técnica

A longevidade no comando técnico é um pilar compartilhado por ambas as gestões, rompendo com o imediatismo histórico do futebol brasileiro. Em pouco mais de três anos sob a administração do Grupo City, o Bahia teve apenas dois treinadores: Renato Paiva e Rogério Ceni. Essa continuidade resulta em uma média de troca a cada 1,5 ano, índice raramente visto em clubes de massa no Brasil.

Do lado paulista, embora a rotatividade no banco de reservas tenha sido ligeiramente maior, o Red Bull Bragantino mantém um padrão de confiança no processo. As mudanças de comando no Massa Bruta só ocorrem após períodos consideráveis de trabalho, estabelecendo uma média de troca de um treinador por ano. Para os dois projetos, o tempo de trabalho é visto como um ativo estratégico, e não apenas um detalhe de calendário.

Últimos treinadores do Bragantino
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Infraestrutura e longo prazo

A modernização da infraestrutura é outro compromisso firmado — e entregue — por ambas as gestões. Se, por um lado, o Red Bull Bragantino consolidou seu projeto com a inauguração de um moderníssimo Centro de Treinamento em 2024, o Bahia prepara-se para viver o mesmo salto tecnológico no próximo ano.

Em outubro do ano passado, o Grupo City revelou os detalhes do City Football Academy Bahia. Localizado na Via Metropolitana, em Camaçari, o complexo ocupará uma área monumental de 560 mil metros quadrados. Para se ter uma dimensão da escala, o novo centro de excelência tricolor terá mais que o triplo do tamanho da área total do novo CT do Bragantino, consolidando-se como um dos maiores e mais avançados equipamentos esportivos da América Latina.

Projeto do novo CT do Bahia
Projeto do novo CT do BahiaECBahia

Com 12 campos de futebol — cinco a mais que o complexo do adversário paulista —, o novo CT substituirá a Cidade Tricolor, que, apesar do alto padrão de modernidade, já ficou pequena para as ambições do grupo. As obras em Camaçari devem custar R$ 300 milhões ao conglomerado internacional. Além disso, o City Football Group já sinalizou o interesse em assumir a administração da Arena Fonte Nova a partir de 2028, logo após o encerramento do atual contrato de Parceria Público-Privada (PPP) com o Governo do Estado.

Em contrapartida, se a Red Bull investiu um valor menor em seu centro de treinamento, o foco financeiro voltou-se para a transformação do Nabi Abi Chedid na futura Arena Red Bull. Com investimento estimado em R$ 400 milhões, o projeto prevê uma arena moderna com capacidade para 20 mil pessoas. O novo palco do Massa Bruta tem prazo de entrega previsto para 2030, consolidando de vez a marca no cenário nacional.

Projeto da Arena Red Bull
Projeto da Arena Red BullRB Bragantino

O desafio da massa: gestão vs expectativa

O maior desafio para uma SAF que administra um clube com média de 45 mil torcedores por jogo é equilibrar a modernização administrativa com a sede por resultados imediatos. Desde a chegada do Grupo City, o Bahia conquistou três títulosdois estaduais e uma Copa do Nordeste —, mas a torcida tricolor agora clama por um troféu de relevância nacional para consolidar a nova era.

Com um mercado mais contido nesta temporada — marcado pelas chegadas de Kike Oliveira e Román Gómez, além do retorno de Everaldo —, a diretoria tem enfrentado protestos por novos reforços. A eliminação precoce na fase prévia da Libertadores de 2026 inflamou os ânimos, gerando questionamentos sobre a continuidade de Rogério Ceni. O técnico, por sua vez, tem buscado alinhar as expectativas, explicando a lógica de investimentos do conglomerado:

“Aqui não sai dinheiro como as pessoas imaginam... As pessoas falam: 'Vamos gastar R$10 milhões, R$20 milhões'. Não é assim que funciona. É um projeto de longo prazo.” — Rogério Ceni, em entrevista coletiva.

Torcida do Bragantino
Torcida do BragantinoRB Bragantino

Com uma base de torcedores menor e de caráter regional, a Red Bull usufrui de uma "liberdade" singular para testar conceitos e medidas administrativas sem a pressão constante das grandes massas. Esse baixo ruído popular em Bragança Paulista permite que o clube execute planejamentos de longo prazo sem sofrer as oscilações emocionais típicas das arquibancadas tradicionais.

Controle vs Pressão

Gráfico de pressão Grêmio x RB Bragantino
Gráfico de pressão Grêmio x RB BragantinoFlashscore

O duelo desta quarta-feira colocará frente a frente duas filosofias antagônicas: de um lado, o Bahia, com sua consolidada valorização da posse de bola; do outro, o Bragantino, que mantém a pressão alta e agressiva como marca registrada, mesmo atuando como visitante. Esse DNA vertical é uma característica inata — e inegociável — dos clubes da Red Bull.

Para o Esquadrão, resistir ao ímpeto paulista será um desafio estratégico, especialmente considerando que a equipe tricolor ainda busca solidez defensiva, tendo sofrido gols em todas as rodadas como mandante neste campeonato. O ponto positivo para o Esquadrão é o retrospecto: desde a chegada do Grupo City, Bahia e Bragantino já duelaram em cinco oportunidades e o Massa Bruta venceu em apenas uma. Nas outras quatro o tricolor saiu vitorioso.

Números das SAF's de Bahia e Bragantino
Números das SAF's de Bahia e BragantinoFlashscore