Paralelamente à midiática corrida pela Chuteira de Ouro no Velho Continente, desenrola-se uma outra disputa, igualmente fascinante, mas muitas vezes deixada em segundo plano: a luta pela liderança das assistências, com foco especial nos homens da última linha.
Se o artilheiro monopoliza os aplausos, o assistente é o arquiteto silencioso, a mente que desenha a jogada antes da finalização fatal.
A criação deixou de ser exclusividade de meias e atacantes: as linhas defensivas oferecem agora contribuições vitais no último terço do campo. Nas cinco principais ligas europeias, dois nomes dominam a cena: Federico Dimarco, figura central da Serie A italiana pela Inter de Milão, e Julian Ryerson, um dos pilares do Borussia Dortmund na Bundesliga.
A maturidade de Dimarco: a arte do cruzamento a serviço dos nerazzurri
O percurso de Dimarco é um exemplo de ascensão sustentada, moldada com paciência e cimentada com exibições de alto nível. Após passagens por Ascoli, Empoli, Sion, Parma e Verona, o lateral nascido em 1997 deu o salto definitivo na temporada 2021/22 com a camisa da Inter, iniciando uma progressão que o levou a se especializar na arte do último passe.
Esta evolução tem sido linear, culminando na atual temporada com a entrada direta para a elite europeia dos laterais assistentes. Os números ilustram bem este trajeto: quatro assistências em 2022/23, seis em 2023/24 e sete na campanha seguinte.
Na temporada atual, contudo, passadas 26 rodadas, Dimarco já atingiu a impressionante marca de 13 assistências no campeonato, um registro sem paralelo entre os defensores das principais ligas europeias. Para além do volume estatístico, destaca-se o impacto direto destes passes nos resultados.
Nos dez jogos do campeonato em que deu assistência, a Inter somou nove vitórias. A única exceção ocorreu no Derby da Itália, na terceira rodada, quando Dimarco serviu Thuram para o 2 a 3 momentâneo, antes da virada da Juventus que fechou o placar em 4 a 3.
Desde então, cada passe decisivo do italiano foi sinônimo de triunfo da Inter. O duelo contra o Sassuolo, no Mapei Stadium, foi o ápice desta tendência, com o lateral assinando um hat-trick de assistências na goleada por 5 a 0. Esses 13 passes para gol não são apenas um recorde; são o selo de sua importância vital na manobra ofensiva da equipe de Milão.
Ryerson: o "outsider" que ameaça o trono europeu
Se Dimarco é uma confirmação esperada, Ryerson é a grande revelação da temporada. Também nascido em 1997, o norueguês construiu seu caminho longe dos holofotes, passando por Viking Stavanger e Union Berlin antes de reforçar o Borussia Dortmund em 2022/23.
Até a temporada atual, seu perfil não indicava números tão expressivos, mas este ano o jogador operou um salto qualitativo no plano ofensivo, somando já 11 passes decisivos em 23 rodadas da Bundesliga. Sua metamorfose revela um lateral capaz de ampliar seu raio de ação, refinando a qualidade do cruzamento e tornando-se uma ameaça constante pelo corredor direito.
Embora seu impacto nos resultados seja ligeiramente menos acentuado que o de Dimarco, as 11 assistências distribuídas por oito confrontos resultaram em um saldo muito positivo: seis vitórias, um empate e apenas uma derrota, confirmando o peso de suas subidas para o sucesso do Dortmund.
Memorável foi sua exibição de gala frente ao Mainz, onde assinou um quatro assistências no triunfo por 4 a 0 diante da "Muralha Amarela". Uma demonstração de visão de jogo que o consagrou como um dos defensores mais generosos do continente.
Um abismo na elite dos defensores criativos
No retrovisor desta dupla, a classificação dos defensores mais produtivos revela uma distância considerável. As 13 assistências de Dimarco e as 11 de Ryerson estabeleceram uma margem que, nesta fase da temporada, parece inalcançável para a concorrência. A luta pelo trono tornou-se, efetivamente, um assunto particular entre os dois.
Para completar o pódio, surgem Vladimír Coufal, do Hoffenheim, e Matthieu Udol, do Lens, os outros nomes capazes de manter a consistência ofensiva nas grandes ligas. Ambos somam seis assistências, mas permanecem a uma distância enorme dos líderes. Mais abaixo, mas ainda em destaque, estão Sael Kumbedi, Guela Doué, Alejandro Grimaldo, Jonathan Clauss e David Raum, todos com cinco passes para gol.
Este hiato deixa pouco espaço para surpresas de última hora. Num futebol dominado pelos dados, mas onde a intuição continua ditando as regras, Dimarco e Ryerson provam que a visão de jogo vinda de trás pode ser tão letal e decisiva quanto o instinto de um centroavante.
