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Como a emoção de Casagrande no berço de King definiu o adeus de Atlanta da Copa

"O Jogo do Povo": exposição marcou a Copa do Mundo em Atlanta
"O Jogo do Povo": exposição marcou a Copa do Mundo em Atlanta Josias Pereira / Flashscore

Há cidades que servem como meros cenários para grandes eventos, e há aquelas que se fundem à alma da competição. Nesta última quarta-feira, 15 de julho, Atlanta não apenas se despediu de sua participação nesta Copa, mas eternizou seu nome na história do futebol. Justamente 30 anos depois de ter recebido outro grande evento marcante: os Jogos Olímpicos de Verão de 1996, um marco para o Olimpismo.

Com o Mercedes-Benz Stadium lotado, a eletrizante vitória por 2 a 1 da Argentina sobre a Inglaterra, de virada, pela semifinal da Copa, foi o desfecho perfeito para uma jornada onde a bola dividiu o protagonismo com a história, a cultura e a incansável vocação da cidade para a transformação social.

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Para quem acompanha o esporte apenas de longe, a enorme paixão dos torcedores locais pode parecer uma novidade. Mas a verdade é que a principal cidade do estado norte-americano da Geórgia respira futebol. 

Atlanta é a casa do Atlanta United, um dos clubes mais tradicionais da Major League Soccer (MLS). Com recordes sucessivos de público que rivalizam com grandes ligas europeias, a franquia alcançou a glória máxima ao conquistar a prestigiada MLS Cup em 2018, sob o comando tático do argentino Gerardo "Tata" Martino

Essa cultura de arquibancada vibrante pavimentou o caminho para que a cidade recebesse os maiores craques do planeta de braços abertos.

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Exemplo global de legado 

A receptividade do povo de Atlanta foi um dos pontos mais elogiados por delegações, imprensa e torcedores de todo o mundo. Esse acolhimento caloroso ganhou forma no coração da cidade: a pulsante Fan Fest instalada no Centennial Olympic Park.

A escolha do local não foi por acaso, mas sim o símbolo de uma cidade que entende como poucas o real significado de "legado". Trinta anos atrás, Atlanta sediava os Jogos Olímpicos de 1996. Enquanto muitas sedes sofrem com o abandono de suas estruturas pós-evento, a cidade consolidou-se como um exemplo global de aproveitamento dos espaços olímpicos.

A Fan Festival de Atlanta no Centennial Park
A Fan Festival de Atlanta no Centennial ParkMI NEWS / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

O parque, criado originalmente para ser o ponto de encontro daquela Olimpíada, hoje se mantém vivo, integrado ao cotidiano dos cidadãos e durante a Copa foi o espaço perfeito para o encontro dos apaixonados por futebol. 

O espaço conectou perfeitamente o Mundial aos maiores cartões-postais locais. A poucos passos dali, os visitantes podiam explorar o fascinante Mundo da Coca-Cola e o imenso Georgia Aquarium. No entanto, foi a vizinhança com o Centro Nacional para os Direitos Humanos e Civis que deu ao evento uma profundidade que nenhuma outra cidade-sede conseguiu replicar.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho na América do Norte. Veja tudo o que você precisa saber sobre o torneio:

 

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O jogo do povo

Atlanta é o berço de Martin Luther King Jr., um dos maiores líderes negros dos Estados Unidos e ganhador do prêmio Nobel da paz; além do epicentro histórico do movimento pelos direitos civis. Essa vocação para a justiça social e a igualdade conectou-se com o esporte através da exposição The People’s Game (O Jogo do Povo), abrigada temporariamente no Centro de Direitos Civis.

As camisas autografadas dos craques do futebol mundial
As camisas autografadas dos craques do futebol mundialJosias Pereira / Flashscore

A mostra apresentou uma homenagem histórica ao esporte mais popular do mundo, exibindo camisas históricas e autografadas por lendas imortais e astros contemporâneos do futebol, como os brasileiros Pelé, Ronaldo e Vini Jr., além de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Mais do que celebrar o talento dentro das quatro linhas, a curadoria da exposição reservou uma ala inteira para discutir o impacto do futebol como ferramenta de transformação e resistência política. Um dos destaques da seção foi a Democracia Corintiana, movimento liderado por atletas do Corinthians na década de 1980 em plena ditadura militar brasileira, demonstrando como o vestiário e o campo podem se tornar trincheiras pela liberdade.

O Pelé e o Santos representado em Atlanta
O Pelé e o Santos representado em AtlantaJosias Pereira / Flashscore

O ex-jogador brasileiro Walter Casagrande, um dos pilares daquele movimento e personagem retratado com destaque na exposição por sua história de luta, visitou o museu durante a cobertura do torneio e não escondeu a emoção ao ver a história de resistência do futebol brasileiro reverenciada no mesmo solo que gerou os discursos de King.

“Estou bastante emocionado, primeiro pelo lugar e por ser um apaixonado pela história do Dr. Martin Luther King. Ver o que nós fizemos nos anos 80 — os jogadores da Democracia Corintiana, a diretoria e os torcedores da época — em evidência neste museu, que não é de futebol, é o mais importante para mim. Este é um museu de direitos civis. Nossa história aqui não representa apenas um time de futebol campeão ou atletas que foram para a Seleção, disse. 

Walter Casagrande, ex-Corinthians e Seleção, no Centro dos Direitos Civis em Atlanta.
Placar / Reprodução

“Aqui não tem gol; tem um movimento social, político e de inclusão. Ver o Magrão (Sócrates), o nosso time e a faixa que colocamos em 1983... ver a mim mesmo com a camisa da Democracia Corintiana em meio a essa garotada que visita o espaço é incrível. Um dia, eles vão olhar para tudo isso, ter curiosidade de saber o que esse time fez e quem foram esses caras. O mais interessante é que estou aqui física e historicamente, mas eles nem sabem quem eu sou. E isso é o mais legal de tudo”, concluiu. 

Ao apito final de Argentina e Inglaterra, Atlanta encerrou seu ciclo de jogos consagrando-se não apenas pela infraestrutura impecável ou pelo histórico gol de Lautaro que decidiu a semifinal. A cidade se despede mostrando ao mundo que o futebol, quando praticado e vivido em sua plenitude, é muito mais do que tática e placar. É representação e identidade. 

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