Diário da Copa: Protestos, bloqueios e improviso cercam abertura do Mundial no México

Os protestos de Fora FIFA na porta do Azteca
Os protestos de Fora FIFA na porta do AztecaJosias Pereira / Flashscore

A jornada para cobrir a grande abertura do Mundial de 2026 começou com um choque cultural antes mesmo do apito inicial. Ao deixar Nova York, o sentimento é nítido: a Copa do Mundo ainda não "pegou" nos Estados Unidos. No aeroporto norte-americano, a imprensa credenciada enfrenta as mesmas filas regulamentares, a burocracia cinzenta e a indiferença de sempre. A credencial oficial da FIFA no peito de nada serve por lá — ao menos ainda.

Contudo, ao pousar em solo mexicano, o cenário vira ao avesso. A organização local montou uma recepção impecável: uma fila exclusiva para quem possui a credencial da FIFA, uma imigração extremamente veloz e uma massa de voluntários dedicados a orientar turistas e jornalistas.

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Mas o tapete vermelho estendido pela entidade termina exatamente na porta de saída do terminal. Dali para frente, o que se viu foi o retrato de uma metrópole sitiada.

Entrada no México foi bastante facilitada pela organização local
Entrada no México foi bastante facilitada pela organização localJosias Pereira / Flashscore

Aeroporto sob cerco e policiais almoçando em pé

A Cidade do México amanheceu tomada por fortes manifestações populares, lideradas por sindicatos de professores. Com o temor generalizado de que os manifestantes ocupassem o aeroporto internacional, o governo local montou um esquema policial reforçadíssimo.

Policiais nas entradas do Aeroporto da Cidade do México
Policiais nas entradas do Aeroporto da Cidade do MéxicoJosias Pereira/Flashscore

A cena na saída do terminal era de pura apreensão. Praticamente todas as entradas do aeroporto foram bloqueadas, deixando apenas duas vias de acesso abertas. O metrô foi fechado e os aplicativos de mobilidade, como o Uber, simplesmente não conseguiam chegar aos terminais de embarque.

O metrô próximo ao Aeroporto estava fechado
O metrô próximo ao Aeroporto estava fechadoJosias Pereira / Flashscore

Apenas viaturas e veículos policiais autorizados circulavam. No meio desse clima tenso, a imagem dos policiais almoçando em pé, sem largar os postos, traduzia o tamanho do alerta de segurança na capital.

Sem Uber e com o transporte público travado, o deslocamento transformou-se em uma extorsão a céu aberto. Taxistas cobravam cifras abusivas entre 60 e 70 dólares por corridas curtas — que normalmente custariam cerca de 16 dólares via aplicativo.

Após muita barganha, naquele "jeitinho brasileiro", alguns motoristas aceitavam baixar para 40 dólares. A reportagem conseguiu romper o bloqueio ao negociar diretamente com um motorista de Uber, fora da plataforma, fechando a viagem por 20 dólares para o destino final: o icônico Estádio Azteca.

Bloqueios policiais no Aeroporto da Cidade do México
Bloqueios policiais no Aeroporto da Cidade do MéxicoJosias Pereira / Flashscore

"Não vai ter Copa" versão mexicana

A viagem até o estádio foi marcada por inúmeros bloqueios viários. O clima de tensão e as confusões nas ruas trouxeram uma forte sensação de déjà-vu, remetendo imediatamente aos protestos que marcaram a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Se em solo brasileiro o slogan era o famoso "Não vai ter Copa", na Cidade do México o tom não é muito diferente.

Nos arredores do Azteca, as marcas do descontentamento social estão estampadas nos muros. Um enorme mural exibe a frase "Fora FIFA" grafada em várias línguas, acompanhada de menções jocosas ao presidente norte-americano Donald Trump. A principal queixa, no entanto, é de cunho ecológico e comunitário.

Os manifestantes protestam contra as obras de modernização do estádio, que afetaram a rede fluvial da região. Faixas com os dizeres "Água é Vida" escancaram o debate que divide a vizinhança e o comitê organizador na véspera da abertura. E a tendência é piorar: se na véspera o trânsito já estava travado, o cerco de segurança da FIFA amanhã fechará completamente o entorno.

Protesto dos professores travou a Cidade do México
Protesto dos professores travou a Cidade do MéxicoREUTERS/Luis Cortes TPX IMAGES OF THE DAY

O discurso de esquiva da FIFA

Para completar o cenário de contrastes, o presidente da FIFA concedeu uma entrevista coletiva no próprio Estádio Azteca. Em um pronunciamento que flertou com a confusão e a pura esquiva política, o mandatário blindou a entidade de qualquer responsabilidade sobre o caos urbano.

Evitando responder diretamente sobre as crises que cercam o evento, ele preferiu transferir o foco para as quatro linhas, assegurando que a abertura será "uma grande festa e um espetáculo inesquecível". Resta saber se o torcedor nas ruas compartilha desse mesmo otimismo institucional.

Gianni Infantino falou com os jornalistas nesta quarta-feira (10)
Gianni Infantino falou com os jornalistas nesta quarta-feira (10)REUTERS/Henry Romero

Enquanto a diretoria se esquivava, a estrutura interna da Copa de 2026 batia cabeça. A sala da imprensa sofreu com picos e quedas de energia, gerando apreensão entre os jornalistas que corriam contra o relógio para enviar seus materiais. A própria sala de imprensa, colada à zona de trabalho dos repórteres, operava sob forte barulho. Além disso, os fotógrafos que foram ao campo se depararam com a falta de cabos de rede. 

Até a logística de alimentação flertou com o improviso. Nos balcões internos, operadores de caixa batiam cabeça e não sabiam informar se o serviço para a imprensa credenciada era gratuito ou pago. Após minutos de consulta e indecisão, a cobrança foi efetuada: 20 dólares por uma refeição básica.

O México se prepara para a festa das arquibancadas com seus 85 mil torcedores. Mas, fora delas, o Diário desta Copa começa registrado em tons de improviso, forte pressão social, respostas evasivas e a certeza de que os bastidores deste Mundial serão uma caótica e inesquecível prova de resistência.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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