Do mestre ao rival: como o Japão aprendeu com o Brasil e criou uma potência do futebol

Na Copa de 2006, na Alemanha, Zico era o treinador do Japão
Na Copa de 2006, na Alemanha, Zico era o treinador do JapãoJUERGEN SCHWARZ/DDP IMAGES VIA AFP

“Havia me entregado inteiramente ao sonho de disputar a Copa do Mundo. Passamos tanto tempo concentrados que fiquei mais tempo com os meus colegas de seleção do que com a minha família. Já conseguia ver a Copa do Mundo bem na minha frente, mas, quando fui pegá-la, ela desapareceu no ar.” Assim o atual treinador da seleção japonesa, Hajime Moriyasu, descreve a lembrança da chamada Tragédia de Doha.

Meio-campista titular do Japão em 1993, Moriyasu estava em campo quando o empate por 2 a 2 com o Iraque, nos acréscimos, acabou com o sonho de disputar a primeira Copa do Mundo da história do país. E depois de um primeiro tempo em que o Japão poderia ter definido a vaga.

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Trinta e três anos depois, ele encontra o Brasil em um jogo eliminatório de Copa com um cenário inimaginável naquela época. O país que um dia importou craques brasileiros para aprender a jogar futebol agora exporta talentos para as principais ligas da Europa, disputa sua oitava Copa do Mundo consecutiva e chega à fase de 16 avos de final convencido de que pode enfrentar qualquer adversário. A transformação é uma das mais bem-sucedidas do esporte mundial. E começou com forte influência brasileira.

Projeto começou antes da primeira Copa

Até o fim dos anos 1980, o futebol japonês vivia à sombra do beisebol. O campeonato era formado por equipes ligadas a grandes empresas, o profissionalismo ainda engatinhava e a seleção colecionava fracassos nas Eliminatórias. Apesar de a Federação Japonesa de Futebol existir desde 1921 e o Japão ter chegado às quartas-de-final do torneio de futebol da Olimpíada de Berlin, em 1936.

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A criação da J.League, em 1993, é um ponto importante da mudança. A nova liga nasceu com um plano que extrapolava o futebol profissional. Batizado de "Visão dos 100 Anos", o projeto previa clubes ligados às comunidades, investimentos pesados em categorias de base, formação de treinadores e estádios capazes de aproximar torcedores e equipes. O objetivo era transformar o futebol em um dos esportes mais populares do país e fazer do Japão uma potência internacional. Para acelerar esse processo, como os resultados já mostram, a solução foi importar conhecimento.

Zico foi o professor

Nenhum estrangeiro exerceu influência maior do que Zico.

Em 1991, o maior ídolo da história do Flamengo desembarcou no então Sumitomo Metals, clube que se transformaria no Kashima Antlers. Mais do que um camisa 10, o brasileiro levou ao Japão uma cultura de treinamento, disciplina e competitividade que ainda estava sendo construída.

Sua influência rapidamente ultrapassou as quatro linhas. O Kashima Antlers tornou-se o clube mais vencedor do país e virou referência para a recém-criada J.League. Até hoje, Zico é tratado pelos japoneses como o "Deus do Futebol".

Anos depois, entre 2002 e 2006, voltou ao país para dirigir a seleção. Conquistou a Copa da Ásia de 2004 e comandou o Japão justamente na Copa do Mundo da Alemanha, quando enfrentou o Brasil nas oitavas de final. Os japoneses chegaram a abrir o placar, mas acabaram derrotados por 4 a 1.

Zico foi o principal símbolo desse intercâmbio, mas não esteve sozinho. Nos anos 1990, a J.League abriu espaço para nomes como Dunga, Leonardo, Ramón Díaz, Gary Lineker e Dragan Stojković. Eles ajudaram a elevar o nível técnico da competição e aceleraram a profissionalização do futebol japonês.

Em 2009, Dragan Stojkovic atuou como treinador do Nagoya Grampus
Em 2009, Dragan Stojkovic atuou como treinador do Nagoya GrampusOMAR SALEM/AFP

De importador de craques a exportador de talentos

Se nos anos 1990 o Japão precisava trazer estrelas estrangeiras para elevar seu futebol, hoje são os jogadores japoneses que abastecem as principais ligas da Europa.

A mudança pode ser contada pelas gerações. Primeiro veio Kazuyoshi Miura, o eterno King Kazu, símbolo da profissionalização da J.League. Depois apareceram Hidetoshi Nakata, que brilhou no futebol italiano, Shunsuke Nakamura, ídolo do Celtic, e Keisuke Honda, protagonista da seleção em três Copas do Mundo.

Aos 58 anos, Kazuyoshi Miura voltou a jogar no campeonato japonês
Aos 58 anos, Kazuyoshi Miura voltou a jogar no campeonato japonêsKOSUKE TSUGUI/THE YOMIURI SHIMBUN VIA AFP

Hoje, a nova geração confirma o sucesso do projeto iniciado há mais de 30 anos. Jogadores como Kaoru Mitoma, Takefusa Kubo, Wataru Endo, Takehiro Tomiyasu, Daichi Kamada, Ritsu Dōan e Zion Suzuki atuam em alguns dos campeonatos mais competitivos do planeta.

Até junho, havia 62 jogadores japoneses atuando nas oito principais ligas europeias, incluindo a primeira e a segunda divisões da Inglaterra, além dos campeonatos da Alemanha e da Bélgica.

Ligas com mais jogadores japoneses na Europa
Ligas com mais jogadores japoneses na EuropaStats Perform/Opta

Na Premier League, quatro japoneses disputam a competição, entre eles o meio-campista Daichi Kamada (Crystal Palace), que integrou a seleção japonesa na Copa do Mundo da América do Norte. Na Bundesliga alemã, são 15 jogadores japoneses, enquanto na primeira divisão belga são 19. É o retrato mais evidente da inversão de papéis: o país que importava conhecimento passou a exportar talento.

Uma seleção que aprendeu a competir

Os resultados apareceram rapidamente. Desde a estreia na França, em 1998, o Japão nunca mais ficou fora de uma Copa do Mundo.

Em 2002, jogando em casa ao lado da Coreia do Sul, alcançou as oitavas de final pela primeira vez. Repetiu o feito em 2010, 2018 e 2022.

Na Rússia, esteve a minutos de eliminar a Bélgica depois de abrir 2 a 0 nas oitavas de final. Sofreu a virada por 3 a 2, e os belgas seguiriam até as quartas para eliminar o Brasil.

Empate amargo para o Japão contra a Bélgica: Genki Haraguchi finaliza para o gol
Empate amargo para o Japão contra a Bélgica: Genki Haraguchi finaliza para o golMASANORI INAGAKI/THE YOMIURI SHIMBUN VIA AFP

No Catar, voltou a surpreender ao derrotar Alemanha e Espanha na fase de grupos, terminando na liderança de uma das chaves mais difíceis da competição. Caiu apenas nos pênaltis para a Croácia — outra seleção que, mais tarde, também eliminaria o Brasil.

Ainda falta alcançar as quartas de final pela primeira vez. Mas o Japão deixou de ser uma surpresa há muito tempo. Tornou-se um modelo de planejamento esportivo e uma presença permanente entre as seleções mais competitivas do futebol mundial. Em 2005, a Associação Japonesa de Futebol estabeleceu as metas de colocar o país entre as 10 melhores seleções do mundo até 2015 (hoje é a 18ª) e conquistar o título da Copa do Mundo até 2050. Mas existe uma ambição legítima de tentar antecipar essa conquista.

Por que o Japão joga de azul?

Embora a bandeira japonesa seja vermelha e branca, a seleção veste azul desde o início do século passado. A origem mais aceita remete a uma equipe formada majoritariamente por estudantes da então Universidade Imperial de Tóquio, que representou o país em competições internacionais usando essa cor.

O azul atravessou gerações, resistiu a tentativas de mudança e acabou se tornando um símbolo nacional. Hoje, reforçado pelo apelido Samurai Blue, representa muito mais do que um uniforme.

Representa um futebol que começou buscando inspiração no Brasil, mas que, ao longo de três décadas, construiu uma identidade própria e passou a servir de exemplo para o resto do mundo.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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