Luka Modric chega a 200 partidas pela Croácia alimentando sonho e legado na Copa

Luka Modrić chega a número histórico com a camisa da Croácia
Luka Modrić chega a número histórico com a camisa da CroáciaReuters

Contra o Panamá, nesta terça-feira (23), às 20h (horário de Brasília), o capitão croata Luka Modrić vai se tornar o quarto jogador da história a alcançar 200 partidas pela seleção. Aos 40 anos, ainda se recuperando de uma recente lesão no rosto e pressionado após uma estreia ruim, o maestro está prestes a aumentar ainda mais seu legado no futebol, impulsionado pelo amor incondicional de um vestiário onde ele segue sendo o grande líder.

Em Toronto,  quando pisar no gramado contra o Panamá, Luka Modric se juntará a Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Bader Al-Mutawa, do Kuwait, como os únicos jogadores com mais de 400 jogos por suas seleções.

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Vinte anos após sua estreia, aos 40 anos e usando uma máscara de proteção no rosto, Modric está prestes a colocar seu nome em um clube tão seleto quanto lendário. Mas essa 200ª partida chega em um contexto especial. Contra a Inglaterra na sexta-feira (derrota por 4 a 2), Modric foi apenas uma sombra de si mesmo.

Substituído aos 13 minutos do segundo tempo após cometer um pênalti evitável logo aos 9, o primeiro em toda sua carreira, ele pareceu carregar o peso de meses difíceis. Em abril, durante um clássico da Serie A entre o Milan e a Juventus, um duelo com Manuel Locatelli resultou em uma fratura complexa e multifragmentada do osso zigomático esquerdo.

Operado às pressas na clínica La Madonnina, em Milão, ele iniciou uma corrida contra o tempo para estar pronto para o que pode ser sua última competição com a Croácia. Sua preparação física, naturalmente, foi prejudicada; uma semana de repouso total deixa pouca margem quando se está perto dos 41 anos.

A imprensa croata não deixou de comentar

"Dá para ver que Luka está sofrendo, ele quer, mas não consegue mais como antes. Modric precisa se recuperar se os croatas quiserem sonhar com a vitória", escreveu o jornal Jutarnji List.

E a redação ainda questiona o futuro do seu maestro nesta Copa do Mundo nos Estados Unidos.

"Tantas vezes em 199 jogos ele foi o melhor, e agora é um dos piores. Hoje, a principal pergunta é: o que Modric pode fazer? Vamos poder contar com ele nesta Copa, pelo menos no nível de sempre?", questiona.

O jornal 24 Sata evita tirar conclusões precipitadas. "Luka Modric, o melhor jogador croata de todos os tempos, merece uma atenção especial. Sim, ele já não está no nível que estamos acostumados, mas é normal, já que está entrando nos 40 anos. Mesmo assim, esse mesmo Luka acabou de fazer uma temporada excelente em um dos campeonatos mais competitivos do mundo", defendeu.

O tabloide também lembra que a torcida que hoje o critica estava pronta, antes do jogo, "para vê-lo destruir os ingleses sozinho." Ele mesmo, após a derrota, adotou um discurso confiante: "Precisamos virar a página, ainda temos dois jogos. Tenho certeza de que as coisas vão melhorar e que vamos alcançar nosso objetivo mínimo."

"Graças a Deus, ele ainda está com a gente"

Para entender o que representa essa 200ª convocação, é preciso voltar ao dia 1º de março de 2006. Naquele dia, em um amistoso contra a Argentina, um meio-campista de 20 anos, que muitos olheiros haviam descartado na juventude por questões físicas, fazia sua estreia pela seleção.

Desde então, Modric marcou 29 gols pela Croácia, levou o país à final da Copa do Mundo de 2018 na Rússia, sendo eleito o melhor jogador do torneio, e depois ao terceiro lugar no Catar, aos 37 anos. Em março de 2021, contra o Chipre, ele se tornou o jogador com mais convocações da história croata, superando Darijo Srna.

Com cinco Copas do Mundo disputadas, ele se junta a um seleto grupo na história do futebol mundial. Zlatko Dalić, técnico da seleção desde 2017, fez questão de acalmar os ânimos antes do jogo contra o Panamá.

"Conquistamos muitas coisas juntos nesses últimos dez anos. Como capitão do meu time e meu braço direito em campo, ele é fundamental para nossa equipe. Temos alguns jogadores mais experientes ao lado do Luka que orientam essa geração. Também temos jovens, e eles devem se sentir privilegiados por tê-lo ao lado", explicou.

"Ele mostra como trabalhar, como lutar pela camisa da Croácia. Sua principal qualidade é que nunca desiste. Ele é o líder dentro e fora de campo. Graças a Deus, ele ainda está com a gente."

Palavras que resumem toda a importância de quem colocou a Croácia no mapa e é um dos últimos do elenco atual a ter vivido as duas grandes campanhas em Copas do Mundo. Uma cena exibida no documentário Capitães, da Netflix, após a Copa do Mundo de 2022, mostrou bem esse papel de Modric no vestiário.

Antes do Mundial, ele percebeu que Dominik Livaković, destaque com a camisa do Dínamo Zagreb, parecia travado e menos confiante quando vestia a da seleção. Ele então chamou o goleiro para conversar e tentou tranquilizá-lo.

"Não vejo sua evolução na seleção. É por causa da pressão? Acho que é porque você não transmite segurança, e isso passa para todo o time. Todo mundo erra, me diga uma pessoa que não erra. Por que você não pode errar? Acho que o problema é o medo, e isso só piora as coisas. Você é um grande goleiro. Você sabe disso, né?"

Depois dessa conversa, Livaković se soltou. No Catar, sofreu apenas três gols na fase de grupos e foi decisivo nas oitavas e quartas de final, contribuindo diretamente para o terceiro lugar dos Vatreni.

"A presença dele faz todo mundo melhor"

Josip Stanisić, um dos representantes da nova geração e titular na lateral direita aos 26 anos, resumiu o sentimento do vestiário sobre Luka Modric.

"Esse número de 200 jogos é surreal. Desde o primeiro dia, sendo peça-chave ou não, ele sempre foi o mesmo com todos. Continuou sendo uma pessoa simples, apesar de tudo o que conquistou. Isso é algo que quem está de fora não vê ou não sabe", afirmou.

Luka Sucic, que está entre os muitos jogadores apontados como sucessores de Modrić, mas que ainda não conseguiram tomar seu lugar no time titular, vai além.

"Luka é meu ídolo desde criança. Dividir o campo com ele na seleção é algo indescritível. Ele passa muito tempo nos aconselhando, nós, os mais jovens. Ele nos dá confiança só de dizer para jogarmos nosso futebol, sem pressão. A presença dele faz todo mundo melhor."

Josko Gvardiol, que fez sua estreia pela seleção em 2021, quando Modric estava prestes a disputar sua quarta Copa, explica bem o que ele representa para os Vatreni.

"Quando você chega à seleção pela primeira vez e se vê no mesmo vestiário que Luka Modric, parece que está vivendo um sonho. Ele é nosso líder. Só de ver ele treinando, de observar a ética de trabalho dele nessa idade, isso faz a gente querer dar 200% em campo. Ele dá o exemplo sem precisar falar muito", disse.

Uma 200ª com um sonho em mente

A Croácia não pode errar. Depois da derrota na estreia para a Inglaterra, os Vatreni precisam vencer o Panamá nesta terça-feira para continuarem dependendo só de si. E, para isso, precisam de um grande Modric, aquele que dita o ritmo, rompe as linhas quando necessário e dá segurança para os mais jovens.

A nova geração, com Martin Baturina e Petar Musa, autores dos gols contra a Inglaterra, ainda não está pronta para carregar o grupo sozinha. O bastão ainda não mudou de mãos. Ele continua com Modric. Por trás da questão da braçadeira e da sucessão, existe uma outra realidade, mais íntima: Luka Modrić nunca conquistou um título com a Croácia.

Vice-campeão em 2018, terceiro em 2022, melhor jogador de um torneio que não venceu, seu currículo individual é impressionante, mas o líder de uma geração dourada croata carrega o peso de não ter dado um título para um país capaz de reunir um milhão de pessoas em Zagreb para comemorar um segundo ou terceiro lugar em Copa do Mundo.

Aos 40 anos, esta Copa de 2026 é provavelmente sua última chance de fechar esse ciclo. Não é uma "última dança" no sentido nostálgico, mas sim a última oportunidade de completar sua carreira como maior jogador da história da Croácia.

Nesta quarta-feira, em Toronto, ele vai entrar para a história pela 200ª vez com a camisa croata. Esse número redondo resume 20 anos de lealdade a uma nação de quatro milhões de habitantes que ele levou, quase sozinho, aos maiores palcos do mundo. Mas Modric nunca se contentou em apenas fazer parte da história. Ele sempre quis escrevê-la.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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