Mais talentosa, menos complementar: a Turquia de 2026 pode repetir o feito de 2002?

Hasan Sas e Arda Güler
Hasan Sas e Arda GülerAFP / Reuters

No auge de um verão sufocante em 2002 no Japão e na Coreia do Sul, a Turquia chegou a ameaçar o Brasil, futuro campeão mundial, na semifinal, antes de vencer a disputa pelo bronze e conquistar uma histórica terceira colocação. Desde então, o país não havia mais disputado a competição, mas, em seu retorno, chega com grandes ambições, apesar do tropeço na estreia contra a Austrália.

Depois de 24 anos da sua última participação, a Turquia certamente esperava mais do que essa derrota na estreia diante da Austrália (2 a 0). O duelo contra o Paraguai, que foi goleado pelos Estados Unidos (4 a 1), ganha assim uma importância enorme e vencer será a única opção.

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O entusiasmo popular é enorme em um país onde o futebol é coisa séria. E o surgimento da geração de 2005 gera grandes expectativas, mesmo que as comparações com a seleção semifinalista de 2002 não sejam tão claras.

"A natureza é diferente. Em 2002, a esperança era coletiva e quase mística: um time unido que avançava na base da energia do grupo. Em 2026, o entusiasmo está concentrado em nomes, especialmente dois: Arda Güler e Kenan Yildiz", explica Banu Yelkovan, jornalista turca.

Eleito revelação da temporada na Liga dos Campeões, Güler mostrou que consegue lidar com a pressão no Real Madrid, ainda mais considerando o contexto das duas últimas temporadas. Já Yildiz vem de uma temporada completa com 11 gols e 9 assistências em todas as competições pela Juventus.

"O entusiasmo, portanto, se baseia em fatos concretos, não em projeções", avalia a jornalista.

2002, uma engrenagem bem ajustada

Mesmo assim, e a derrota para os Socceroos mostrou isso em parte, embora a competição ainda esteja no início, a Turquia de 2026 vive uma situação paradoxal em relação àquela de 2002, que surgiu quando o país não disputava uma Copa do Mundo desde... 1954.

"No papel, o talento individual é superior. O resultado histórico de 2002 não era realmente esperado antes, mas algo extraordinário aconteceu durante o torneio. Agora é o contrário. Existe uma convicção crescente nesse elenco jovem".

Na verdade, o fator surpresa não existe mais, ainda mais porque o futebol do início do século era menos exposto ao público, enquanto hoje as imagens circulam instantaneamente.

"Em 2002, a Turquia foi levada por um impulso que ninguém previa, enquanto em 2026 já se sabe que Güler e Yildiz são excepcionais. Outros jogadores como Baris Alper e Hakan Çalhanoglu podem se apoiar neles e temos, entre outros, Ugurcan Çakir, um goleiro seguro em sua posição e que fez uma temporada excelente. Tudo isso cria uma expectativa mais consciente, mais calculada, e também uma pressão que pode tornar o grupo mais frágil psicologicamente", explica.

Mesmo assim, Hakan Sükür não tem um sucessor no comando de ataque e isso é um problema real para esse time, já que quem ocupava essa posição na época, no Inter, era uma referência para os companheiros. Kerem Aktürkoglu tem suas credenciais, mas não possui nem o currículo nem o carisma do antecessor.

Em resumo, 2002 representava a eficiência de um coletivo embalado pela vitória do Galatasaray na Copa da UEFA contra o Arsenal em 2000.

"A maioria desses jogadores já tinha vencido junto. Não havia nenhuma estrela mundial isolada, mas sim uma engrenagem bem ajustada". E isso se refletiu na seleção.

"Senol Günes também tinha o luxo de um time titular muito claro taticamente: um bloco baixo-médio, transição rápida, Hasan Sas e Emre Belözoglu como alas e um bom ponto de apoio. A complementaridade era estrutural".

Para a jornalista, a mistura de 2026 é "menos homogênea. Çalhanoglu ancora o meio-campo, Merih Demiral segura a defesa, 15 jogadores vêm da Süper Lig, Güler atua em um sistema no Real Madrid construído em torno de Kylian Mbappé, Yildiz em uma Juventus em constante reconstrução".

Montella criou coesão

O encaixe parece, portanto, mais difícil de construir para Vincenzo Montella, que se adaptou totalmente às especificidades do futebol turco com o Adana Demirspor (2021-2023) e depois com a seleção, algo que estava longe de ser garantido, já que a carreira de treinador do ex-atacante da Roma e da Nazionale pouco havia convencido nesse papel e parecia em clara queda.

"Ele conseguiu manter uma harmonia em um time que frequentemente sofria com tensões internas em outras épocas. Talvez essa seja sua maior contribuição: não uma revolução tática, mas um ambiente. O que Günes construiu em 2002 com rigor, Montella parece ter conseguido com confiança. Çalhanoglu, que já ultrapassou 100 jogos pela seleção, é o único elo geracional, o que faz a ponte entre o talento bruto dos nascidos em 2005 e a experiência do restante do grupo".

Enquanto a geração de 2002 tinha o encanto de uma estreia, coroada com a medalha de bronze, a de 2026 é mais programada para atuar em altíssimo nível.

"Em talento individual, 2026 supera 2002, é até histórico para a Turquia e provavelmente é o elenco mais forte desde 2002, pois combina exuberância juvenil e liderança experiente".

Mesmo assim, a campanha realizada na Ásia segue insuperável no coração dos torcedores.

"Em termos de complementaridade, 2002 ainda é referência. Aquele time tinha algo que as estatísticas não mostram: sabia sofrer junto. Provou isso contra o Japão (1 a 0) nas oitavas de final diante de uma torcida hostil, contra Senegal (1 a 0 na prorrogação) nas quartas com o último gol de ouro da história e contra o Brasil na semifinal, com um gol no fim do primeiro tempo, um cartão vermelho e uma derrota cruel".

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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