Fundado com uma forte identidade ligada às origens indígenas da região de Porto Seguro, o "Cacique" vive um ano de estreias, já que também debutará na Série D do Brasileirão em 2026.
Classificação sofrida na Copa do Brasil
O roteiro da partida de estreia foi digno de cinema — ou de um teste para cardíacos. Até os 45 minutos do segundo tempo, o time baiano perdia por 1 a 0 e parecia destinado à eliminação, especialmente pelas circunstâncias adversas que ele mesmo criou – dois jogadores a menos, sendo uma das expulsões causada por uma briga entre o goleiro Matheus Cabral e o zagueiro Éverton, ambos do Porto.
Apesar do cenário totalmente adverso, o Cacique – como é carinhosamente conhecido o Porto – conseguiu emplacar uma virada que entrou pra história da Copa do Brasil. Nenhuma outra equipe na trajetória da competição havia alcançado a façanha de reverter um placar atuando com dois jogadores a menos. Agora, o desafio da segunda fase é contra o CRB, no Estádio Rei Pelé.
Ascensão meteórica e estreia na Série D
Fundado há apenas dois anos, o clube já acumula feitos de veterano. Após uma trajetória surpreendente na Série B do Campeonato Baiano em seu ano de fundação, o time conquistou o acesso e estreou na elite estadual já em 2025.
O desempenho sólido na primeira divisão do Baianão garantiu ao Cacique as vagas inéditas na Copa do Brasil e na Série D do Brasileirão em 2026. Se a estreia no torneio mata-mata já foi histórica, o clube agora projeta os próximos passos para manter o ritmo e "fazer bonito" na abertura do campeonato nacional.
“Estamos trabalhando forte e vamos tentar fazer uma boa estreia (na série D). Passamos pelo Serra Branca na Copa do Brasil, temos a chance de ir pra semifinal do Baiano também, jogamos em casa, tudo está acontecendo a nosso favor”, disse André Negão, presidente do Porto, em entrevista ao Flashscore.
Queda no Baianão em casa
Após a classificação heroica diante do Serra Branca, o Porto não teve a mesma sorte diante da Juazeirense, na última rodada da primeira fase do Campeonato Baiano. A derrota de virada por 3 a 1 para o time de Juazeiro fez o Cacique se despedir da competição regional.

O revés sofrido em casa teve um impacto ainda maior para o time de Porto Seguro, indo além da perda da vaga na semifinal. A derrota acendeu um alerta para o futuro: caso o time não conquiste o acesso à Série C do Brasileirão ainda este ano, poderá ficar sem calendário nacional em 2027 após o término do Campeonato Baiano.
Porto e a história do Brasil
Antes de ser um clube profissional, o Porto atendia pelo nome de Seleção de Porto Seguro e era protagonista do Campeonato Intermunicipal, o maior torneio de futebol amador da Bahia. O time alcançou quatro finais do torneio, embora tenha "batido na trave" em 2007, 2013 e 2023. O grito de campeão veio em 2010, em uma decisão memorável contra a seleção de Conceição do Coité.
A virada de chave definitiva aconteceu após o vice-campeonato de 2023. O atual presidente, André Negão, reuniu-se com um grupo de amantes de futebol e decidiu profissionalizar o projeto para representar a cidade no cenário estadual, aproveitando a base de jogadores que se destacou no Intermunicipal daquele ano.

“Eu li a carta de Pero Vaz de Caminha pra conseguir fundar um time que tivesse a cara da história do Brasil. Por isso no escudo você vê três caravelas, representando a chegada dos portugueses, e um cocar, que homenageia os povos originários que já estavam aqui, tudo tem um significado muito histórico", contou André Negão.
A forte relação com os povos originários
Quem visita o Estádio Municipal Agnaldo Bento percebe, de imediato, que o Porto é mais do que um clube de futebol. Antes de cada partida, um ritual sagrado toma conta do gramado, conduzido por um grupo da Reserva Pataxó da Jaqueira. Liderados por seu Cacique Syratã – ex-jogador do Porto na época do Intermunicipal – e guias, eles realizam uma oração de agradecimento pelo momento e pela presença da torcida no palco do jogo.
A integração vai além do estádio: anualmente, o elenco do Porto visita as aldeias da região para uma imersão cultural.

Durante a visita à Aldeia da Jaqueira, o Flashscore conversou com um dos guias da comunidade, que destacou a importância de ações afirmativas como essa. Para eles, o futebol é uma vitrine para a preservação de sua identidade:
“É muito importante ver que o time do Porto valoriza a cultura indígena e que a gente continua mostrando isso pra todo mundo com nosso ritual antes do jogo. Um carro vem buscar a gente pra levar pro estádio antes do jogo e nós vamos orar, agradecer e depois do jogo comemorar com os jogadores sempre que o time ganha”, afirmou Makayaba Pataxó, guia da aldeia Pataxó da Jaqueira.
Novo projeto para formar atletas índigenas
O Presidente André Negão revelou ao Flashscore os planos para ampliar os horizontes do clube e consolidar seu papel social. Atualmente com três jogadores indígenas no elenco profissional, a meta é aumentar esse número através do fortalecimento das categorias de base:
“O projeto ‘Dois Toques na Terra do Descobrimento’ vai criar uma escolinha de futebol para as crianças se prepararem desde cedo. Eu quero principalmente atletas indígenas, para fortalecer essa relação. Todos vão participar, mas eu quero muitos atletas indígenas. Preparando esses meninos desde a base, pode ter certeza que no futuro o Porto vai ser cada vez mais forte”, destacou o mandatário.

Comando técnico: a experiência de um campeão brasileiro
Desde a sua profissionalização, o Porto aposta na continuidade e na experiência de Sandro Duarte à beira do gramado. Aos 45 anos, o treinador já cumpre a sua terceira temporada no comando do clube baiano. Com um histórico geral de 27 partidas e 10 vitórias, Sandro desfruta de total confiança da diretoria do Cacique para a sequência do ano, mesmo após a eliminação no estadual.
Dentro das quatro linhas, Sandro carrega um currículo de peso. Como meio-campista, defendeu o Cruzeiro por seis anos e foi peça importante na conquista da Tríplice Coroa em 2003. Naquela campanha histórica do primeiro título brasileiro da Raposa na era dos pontos corridos, Sandro atuou em 27 jogos e balançou as redes uma vez. Além do time mineiro, o ex-meia acumulou passagens por clubes como ABC, Ituano e Botafogo-PB antes de assumir a prancheta.

