Como o FC Chernigov virou símbolo da resistência ucraniana

FC Chernigov se reconstrói após o cerco de 2022
FC Chernigov se reconstrói após o cerco de 2022FC Chernigov

Localizada ao norte de Kiev, capital da Ucrânia, e a 100 km da fronteira sul da Rússia e da Bielorrússia, a cidade de Chernigov enfrentou um cerco de mais de um mês no início da invasão russa em 2022. Depois, começou a se reconstruir lentamente. Enquanto o Desna Chernigov nunca se recuperou da destruição de suas instalações, o FC Chernigov acaba de reformar seu estádio e recebe diariamente centenas de crianças para treinar. Um verdadeiro desafio a Putin e seu exército, enquanto os drones Shahed cruzam diariamente o céu da cidade que tinha quase 300 mil habitantes antes da guerra.

No dia 24 de fevereiro de 2022, o tempo parou. Anton Boychenko, técnico do sub-14, lembra desse momento como uma virada para o absurdo. Natural de Kherson, ele estava em Chernigov quando a invasão começou.

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"Era uma incerteza total. Fugir ou ficar? Decidi ficar. Durante todo o cerco, vivi aqui sem eletricidade, sem água, sem aquecimento", contou.

A cidade, ponto estratégico na rota para Kiev, foi ocupada pelos russos de 24 de fevereiro a 1º de abril, até que as forças ucranianas conseguiram expulsar as tropas russas de volta para suas fronteiras. Durante esse mês de cerco, a cidade ficou isolada do mundo, sofrendo bombardeios massivos e ataques aéreos constantes.

Áreas residenciais, escolas, hospitais e instalações esportivas foram destruídas. Os moradores de Chernigov tinham apenas uma rota possível para escapar, que frequentemente era alvo de ataques. Por semanas, o esporte deixou de ser prioridade — a luta era pela sobrevivência.

"Precisávamos ser o reflexo de uma cidade que não se dobra"

Com a libertação pelas forças ucranianas, os moradores viram o tamanho dos estragos: o estádio do Desna Chernigov, clube histórico da região que jogava a primeira divisão, foi totalmente destruído e o time profissional não conseguiu voltar à elite. O clube acabou desaparecendo. Para Yuriy Synytsia, presidente do FC Chernigov, essa perda foi um choque.

"O fim do Desna deixou um vazio enorme, um símbolo que desmoronou. Mas isso nos trouxe uma nova responsabilidade. Se éramos o único time profissional que restou na região, precisávamos ser o reflexo de uma cidade que não se dobra. Parar seria dar uma pequena vitória ao inimigo", afirmou.

O FC Chernigov também não escapou dos impactos da guerra: o estádio, parte do prédio administrativo, os vestiários, a bilheteria e a loja foram danificados pelos bombardeios e combates na cidade. Em março de 2022, o gramado do estádio chegou a ser linha de frente entre os dois lados, com um atirador russo escondido nas ruínas das arquibancadas.

Mas, ao fim do cerco, toda a cidade se uniu para remover explosivos e limpar os destroços espalhados por todos os cantos dos prédios. Em 26 de abril de 2022, os jogadores fizeram seu primeiro treino em casa desde o início da guerra. Antes da atividade, o time e a comissão técnica precisaram retirar novos destroços do gramado.

No fim de julho de 2022, a Arena precisou de novos reparos após ser atingida por foguetes. Em agosto de 2022, o FC Chernigov lançou uma campanha de doações para ajudar na reforma completa do estádio.

Além das instalações, tudo precisava ser reconstruído: muitas famílias foram evacuadas, a economia local está em queda, patrocinadores sumiram, jogadores foram embora, escolas fecharam…

As destruições das instalações do FC Chernigov após um mês de cerco do exército russo.
FC Chernigov

O Athletic Club da Ucrânia

Mesmo assim, o FC Chernigov resiste para evitar o pior. Fundado em 2003 pelos irmãos Yuriy e Mykola Synytsia, donos da empresa Collar, que vende produtos para animais de estimação, o FCC não é um clube de mecenas tradicionais.

Apaixonados, os dois irmãos visitaram 150 estádios na Europa para projetar sua própria arena de 500 lugares, a Chernigov-Arena, com design britânico. A filosofia deles é radical: o FC Chernigov é o "Bilbao do Leste". O clube só escala jogadores do Oblast de Chernigov ou formados em sua própria base.

Os jovens no centro de formação do FC Chernigov
Os jovens no centro de formação do FC ChernigovFC Chernigov

"Não é só uma escolha esportiva, é uma decisão social e de identidade. As crianças precisam poder ficar na nossa cidade, continuar seus projetos e enxergar que existe um futuro aqui", explica o dirigente.

"Em tempos de guerra, esse modelo local virou um ato de resistência. Os jogadores que nasceram aqui sentem a responsabilidade com a cidade de outra forma. Claro que às vezes é mais difícil esportivamente, mas não estamos construindo um sucesso imediato, estamos lançando as bases para o futuro", completou.

Essa união permitiu ao clube avançar: hoje na Persha Liga, segunda divisão ucraniana, o time chegou nesta temporada, pela primeira vez na história, às quartas de final da Copa da Ucrânia.

Andriy Porokhnya com a camisa do FC Chernigov
Andriy Porokhnya com a camisa do FC ChernigovFC Chernigov

Para alguns, vestir a camisa do FC Chernigov é mais do que jogar futebol. Andriy Porokhnya, zagueiro e filho da cidade, carrega uma ferida aberta. Seu pai, comandante de tanque e voluntário desde o início, foi morto em combate em junho de 2022 perto de Soledar (região de Donetsk).

"Para mim, é pessoal. Meu pai era um patriota, um símbolo de coragem. Quando visto a camisa do FC Chernigov, não é só mais um jogo. É uma questão de memória. Não jogo só pelo clube, jogo pela minha casa", declarou.

"Se podemos correr no gramado, é porque outros estão nas trincheiras"

Andriy representa essa "maturidade interior" que define o time.

"A gente não reclama mais do estado do campo. Percebemos que, se podemos correr no gramado, é porque outros estão nas trincheiras."

Aliás, todo jogo começa com o pontapé inicial dado por um militar: "Quando eles entram no gramado, queremos dar tudo por eles", completa.

O coração do clube está em seus 500 jovens atletas. Mas aqui, o programa de treinos é diferente.

"Os drones Shahed sobrevoam o estádio com frequência. Assim que a sirene toca, todo mundo desce para o grande abrigo construído pelo clube embaixo do complexo, para receber todos os jovens que estão treinando ao mesmo tempo. Dizemos o tempo todo para as crianças que precisam ser muito rápidas", conta Anton Boychenko.

Nesses bunkers de concreto armado, o treino não para: ali se faz teoria tática e também aulas de primeiros socorros. O treinador virou um pilar psicológico.

"Muitas crianças têm pais no front. Algumas já perderam o pai, infelizmente. Enquanto os soldados defendem nosso país, nosso dever é trabalhar pelos filhos deles: ajudar, educar, dar emoções para que a infância deles não seja marcada só pela guerra", detalhou.

No último outono, os ataques constantes forçaram o cancelamento de muitos jogos, mas o clube nunca pensou em fechar as portas. A ambição do FC Chernigov desafia a lógica das bombas. Em vez de congelar os investimentos, os irmãos Synytsia aceleram. O clube recentemente instalou um novo gramado de treino e construiu um complexo com academia e hotel para jovens jogadores vindos do interior.

Os jovens da base do FC Chernigov
Os jovens da base do FC ChernigovFC Chernigov

"Enquanto as crianças treinam, o clube está vivo"

"Ver 500 crianças em campo é ter certeza de que estamos no caminho certo. Elas não podem viver só com notícias do front, merecem ter uma infância. Se o clube ajuda a torná-las fortes, física e mentalmente, essa é nossa maior vitória. Se um dia se tornarem jogadores da seleção, como nosso herói local Andriy Yarmolenko, vamos ficar imensamente orgulhosos", afirma Yuriy Synytsia.

Gerenciar um clube nessas condições é um verdadeiro malabarismo.

"É um trabalho diário na incerteza, admite o presidente. Você planeja um treino, uma sirene interrompe. Você prepara um jogo, mas pensa primeiro na segurança dos jogadores", diz.

Artur Bybik, jogador com mais partidas da história do clube, com seus U7
Artur Bybik, jogador com mais partidas da história do clube, com seus U7FC Chernigov

Mesmo assim, o FC Chernigov se recusa a se mudar para o oeste do país, onde seria mais seguro. Essa fidelidade ao local é a chave da sobrevivência. Ao permanecer, o clube mantém o tecido social de Chernigov. Oferece aos pais uma estrutura de confiança e às crianças uma esperança real

No dia a dia, muitos deles são treinados pelos próprios jogadores do time principal, como Artur Bybik, atleta com mais jogos na história do clube, com 120 partidas aos 24 anos, e também técnico do sub-7.

"O mais importante é que não interrompemos o processo de treinamento na nossa base. Enquanto as crianças treinam, o clube está vivo", garante o presidente.

Desde abril de 2025, o time principal joga em um gramado sintético instalado ao lado do seu estádio, a Arena Chernigov. Mas o clube está prestes a voltar ao seu campo de verdade, onde jogava antes do cerco de 2022.

O estádio provisório onde joga e treina o time principal, enquanto aguarda a inauguração do estádio renovado
O estádio provisório onde joga e treina o time principal, enquanto aguarda a inauguração do estádio renovadoFC Chernigov

"Naquela época, a guerra estava acontecendo exatamente ali. Agora, estamos colocando um gramado natural, instalando um sistema de aquecimento no solo e preparando o estádio para atender aos padrões da primeira divisão", diz o presidente Yuriy Synytsia.

"Quando o apito soar de novo, não será só mais um jogo. Vai ser a prova de que a cidade resistiu. Que a vida voltou onde antes estavam os ocupantes. Para mim, será uma das nossas maiores vitórias", finalizou.

O FC Chernigov mostra que, se o esporte não pode parar os mísseis, pode impedir que uma sociedade desmorone por dentro.

"Quando um jogo acontece numa cidade que sobreviveu a um cerco, quando as pessoas nas arquibancadas passaram por tudo isso, a gente entende que é muito mais do que esporte. É uma forma de mostrar que não fomos quebrados", conclui o zagueiro Andriy Porokhnya.