A experiência de Ancelotti é um ativo relevante, mas não elimina o principal problema: o curto tempo de trabalho para formar uma equipe coesa diante de adversários que operam com bases consolidadas.
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O contraste aparece de forma objetiva nos números. Considerando as temporadas 2024/25 e 2025/26 — para que todas as seleções fiquem sob o mesmo ciclo competitivo — o Brasil disputou 22 partidas entre Eliminatórias e amistosos, desconsiderando a Copa América.

Nesse intervalo, 81 jogadores foram utilizados, independentemente da quantidade de minutos. Apenas cerca de 10% atuaram ao menos 10 vezes como titulares.
O indicador é inferior ao de seleções que chegam mais estruturadas ao ciclo final pré-Copa. Na França, o percentual chega a 14%; na Espanha, a 17%; e em Argentina e Portugal, a 19%. Em termos práticos, isso significa maior estabilidade na formação das equipes e, consequentemente, maior previsibilidade de comportamento coletivo.
Essa continuidade se reflete diretamente na construção das principais seleções europeias. A França, que recentemente superou o Brasil com autoridade, mantém uma base consolidada sob o mesmo comando técnico.
A Espanha, atual campeã da Eurocopa, e Portugal, vencedora da Liga das Nações, seguem a mesma lógica: repetição de escalações, manutenção de funções e evolução progressiva do sistema de jogo.

No caso espanhol, o exemplo é ilustrativo. Na semifinal da Liga das Nações de 2025, vencida por 5 a 4 contra a França, 8 dos 11 titulares (Simón, Porro, Le Normand, Cucurella, Zubimendi, Pedri, Lamine Yamal e Oyarzabal) estavam entre os 10 jogadores mais utilizados nas duas temporadas anteriores.
Trata-se de um nível de continuidade elevado, que favorece automatismos e tomada de decisão em contextos de alta pressão.
A França, embora com leve variação na lista dos mais utilizados, também preserva um núcleo consistente. Mesmo jogadores fora do top 10 aparecem com alta frequência nas convocações, o que reduz a margem de improviso.
Portugal, por sua vez, apresenta um dos quadros mais estáveis, com a maioria dos titulares figurando entre os mais utilizados no ciclo recente: Diogo Costa, Rúben Dias, Nuno Mendes, Bernardo Silva, Vitinha, Pedro Neto, Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo.

Brasil x Argentina: contraste de estabilidade
A diferença também se manifesta no contexto sul-americano. A Argentina mantém elevada recorrência de seus principais jogadores, com Lionel Messi e Lautaro Martínez entre os mais acionados no período. No Brasil, o cenário é mais fragmentado.
Rodrygo, um dos jogadores mais produtivos no recorte recente, está fora por lesão. Estêvão ainda atravessa fase de consolidação. Com isso, Vinícius Júnior precisa assumir um protagonismo ampliado, mas talvez isso venha pesando no seu desempenho ainda irregular na seleção em comparação ao clube.
A lista de atletas com pelo menos 10 jogos como titulares — Bruno Guimarães, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha, Casemiro e Ederson — sugere uma base parcial, concentrada no eixo defensivo e no meio-campo.

O setor ofensivo, sobretudo pelas extremidades, segue em processo de definição. Essa lacuna impacta diretamente a organização coletiva. A preocupação de Ancelotti com as laterais e a recomposição pelos lados do campo indica uma tentativa de equilibrar o sistema sem abrir mão da vocação ofensiva.
Os amistosos e, principalmente, o período de treinos pré-Copa ganham, nesse contexto, caráter estrutural. Mais do que testar nomes, servem para consolidar relações funcionais entre os jogadores — um processo que, nas seleções mais estáveis, já se encontra em estágio avançado.
Ao mesmo tempo, a gestão física torna-se variável crítica, diante do risco de novas lesões comprometerem ainda mais a continuidade.
Estrutura tática e limites do modelo
A manutenção inquestionável do 4-2-4 indica a intenção de preservar um modelo ofensivo com mais talento e um sistema defensivo mais parrudo. No entanto, a execução ainda carece de coordenação, especialmente no setor central do ataque.
Enquanto o Brasil apresenta dificuldades para gerar combinações por dentro, adversários como a França exploram esse espaço com maior eficiência. No confronto recente, a equipe europeia conseguiu infiltrar com frequência pelo centro da defesa brasileira, evidenciando problemas de compactação e coordenação entre linhas.
Indicadores individuais reforçam essa leitura. Michael Olise, por exemplo, registrou volume de conduções de bola significativamente superior ao de Matheus Cunha, refletindo maior capacidade de progressão com controle e integração ao sistema coletivo.

Em síntese, o Brasil entra na fase decisiva do ciclo com um déficit estrutural de entrosamento. A margem de ajuste existe, mas é reduzida.
Mais do que encontrar nomes, o desafio de Ancelotti é acelerar a construção de conexões em campo — condição indispensável para competir em nível equivalente com seleções que já operam em regime de continuidade.

