Histórias da Copa: conheça o goleiro que enfrentrou o Brasil de braço quebrado em 1938

Plánicka na Copa de 1934
Plánicka na Copa de 1934ČTK / ullstein bild / ullstein bild

O futebol tcheco sempre teve grandes goleiros. Afinal, quem não conhece nomes como Ivo Viktor, Jaromír Blazek ou Petr Cech? O precursor da escola de goleiros do país foi o lendário Frantisek Plánicka, famoso por seus reflexos felinos e por sacrificar até a própria saúde por sua personalidade inquebrável.

Plánicka dedicou toda a carreira ao Slavia, de Praga, conquistando oito títulos nacionais e chegando à final da Copa da Europa Central. Quando jovem, jogou no SK Bubenec e, curiosamente, em 1923, foi transferido para o clube de Praga por 800 coroas tchecas, valor do qual não recebeu nem um centavo. Mas antes dessa transferência, aconteceram alguns fatos importantes.

Desde pequeno, Plánicka torcia para o Sparta Praga. Em 1916, enquanto jogava futebol com amigos, foi abordado por um senhor chamado Nenadál, dirigente do time. As habilidades do garoto de 12 anos chamaram atenção, e ele recebeu o convite para se juntar ao clube, mas recusou de imediato.

Plánicka na foto com a família.
Plánicka na foto com a família.ČTK

"Ele me prometeu que eu jogaria no time infantil, com uma bola de couro de verdade e teria minhas próprias chuteiras, sem precisar dividir com ninguém. Isso me convenceu," lembrou Plánicka anos depois.

Na Slavia, porém, não ficou muito tempo, mesmo tendo mudado de atacante para goleiro nas categorias de base, algo que foi decisivo para sua carreira. Ainda quando defendia o Bubenec, tentou entrar no Sparta, mas foi rejeitado — diziam que, com apenas 1,72 de altura, era baixo demais para ser goleiro. No fim, acabou se juntando ao maior rival e dedicou praticamente toda a vida ao clube.

(Vice) Campeão mundial

Durante toda a carreira profissional, Plánicka nunca trocou o uniforme da Slavia por outro, exceto o da seleção. Foi justamente com a camisa do país que virou símbolo de sucesso, representando todo o povo da Tchecoslováquia. Em 1934, a Itália sediou a Copa do Mundo e a seleção tchecoslovaca não era considerada favorita.

Aquele mundial foi especial porque os campeões do Uruguai recusaram o convite em protesto contra a “ofensa europeia” ocorrida quatro anos antes em seu próprio torneio. Os italianos, inclusive, tiveram que disputar as eliminatórias para garantir vaga; a partir de 1938, o país-sede passou a ter vaga automática.

Os tchecoslovacos contavam com a segurança do capitão Plánicka. Passaram por Romênia, Suíça e Alemanha, chegando à final da Copa do Mundo. Na decisão, enfrentaram a Itália, dona da casa.

Essa partida é até hoje uma das mais polêmicas da história das Copas. A Tchecoslováquia vencia com gol de Antonín Puc até 10 minutos antes do fim, e Plánicka estava deixando os italianos desesperados. O estádio em Roma inteiro apoiava a Squadra, e o líder fascista Benito Mussolini estava visivelmente nervoso.

Orsi empatou e, na prorrogação, Angelo Schiavio garantiu o título para a Itália. A imprensa europeia chegou a dizer que o verdadeiro vencedor moral foi a Tchecoslováquia. O protagonista da nossa história foi eleito o melhor goleiro do torneio. Os jogadores viraram ídolos em casa, recebidos pela torcida como se tivessem conquistado o título.

"Ficamos surpresos. O ônibus mal conseguia passar pela multidão, que jogava flores e gritava nosso nome. Foi uma experiência única," recordou Plánicka.

Custasse o que custasse

Se os goleiros de hoje assistissem aos jogos de Frantisek Plánicka, ficariam de boca aberta. Nascido em Zizkov, ele fazia de tudo para evitar o gol, sem hesitar em colocar a própria saúde em risco. Concussões, fratura na clavícula — esses são só alguns dos ferimentos que sofreu na carreira. Sem falar nos dentes quebrados.

Plánicka simplesmente jogava sentindo dor; uma vez, chegou a ser retirado do campo inconsciente. Mas no fatídico dia da Copa de 1938, sua coragem teve um preço...

O canto do cisne

Na Copa de 1938, a Tchecoslováquia chegou como uma das favoritas. Como Plánicka revelou depois, já pensava em se aposentar um ano antes, mas como ainda era um dos pilares do time, decidiu representar o país mais uma vez como capitão. Após vencer a estreia contra a Holanda por 3 a 0, o time encarou a perigosa seleção do Brasil.

O jogo ficou marcado como a Batalha de Bordeaux. O árbitro húngaro Pál von Hertzka não conseguiu controlar o que acontecia no gramado, e os torcedores viram muitos lances duros e antidesportivos dos dois lados. Foi a primeira vez na história das Copas que três jogadores foram expulsos em uma mesma partida.

Plánicka, mesmo aos noventa anos, continuava indo aos jogos da amada Slavia.
Plánicka, mesmo aos noventa anos, continuava indo aos jogos da amada Slavia.ČTK / Doležal Michal

Leonidas colocou o Brasil na frente, mas Nejedlý empatou ao converter um pênalti. Cinco minutos antes do fim do tempo regulamentar, veio o momento decisivo — Plánicka saiu para tentar parar o ataque de Perácio e, após o choque, sentiu uma dor intensa no braço direito. Como não podia ser substituído, jogou os 35 minutos restantes, incluindo a prorrogação.

Depois, a equipe médica descobriu, chocada, que o goleiro atuou com o cotovelo quebrado. Com o empate em 1 a 1, o jogo das quartas de final teve que ser repetido. No confronto dois dias depois, o Brasil venceu por 2 a 1, mas Plánicka já estava acompanhando tudo com o braço engessado. Como se viu, aquele foi seu último jogo oficial da carreira.

Imortal

Plánička era respeitado até fora do país. Em 1985, recebeu da UNESCO um diploma honorário de fair play. Em casa, no ano 2000, ficou em quarto lugar na votação de melhor jogador tcheco do século, atrás de Ivo Viktor, Josef Bican e Josef Masopust. Depois de se aposentar, continuou trabalhando como funcionário público, mas nunca deixou de amar o futebol.

Ajudava os treinadores, participava do conselho do Slavia e jogava em partidas festivas de veteranos. Seu último jogo foi aos 72 anos. Ao todo, disputou 1.442 partidas na carreira, sendo 1.044 vitórias e uma média de apenas 0,86 gol sofrido por jogo. 

"Queria viver para ver o Slavia ganhar o campeonato, mas para isso teria que chegar aos 100 anos", disse sorrindo, quando completou 90 anos em 1994.

Seu desejo se realizou em 1996. Foram grandes comemorações, já que o Slavia conquistou o título doce depois de 48 anos, e Plánicka não podia faltar. A simbologia do seu amor pelo clube ficou ainda mais forte, pois dois meses depois ele faleceu.