O aumento de 32 para 48 seleções permitiu que histórias incríveis passassem a ser escritas. Acompanhamos de perto a felicidade dos jogadores e do povo de Cabo Verde com a classificação inédita.
Também vimos os atletas de Curaçao sendo recebidos como heróis após levarem o país pela primeira vez ao Mundial. Duas nações estão muito próximas de experimentar esse gosto especial.
Confira a tabela da Copa do Mundo
Nova Caledônia: o sonho mais distante da repescagem
Das seis participantes, Nova Caledônia e Suriname nunca foram a um Mundial. Para o país da Oceania, cujo território é ligado à França e cuja filiação à FIFA só ocorreu em 2004, isso sempre foi algo praticamente impossível. No modelo anterior, o continente — historicamente dominado pela Nova Zelândia — tinha “meia vaga”. Ou seja, apenas uma seleção avançava e ainda precisava disputar a repescagem. Com a expansão, uma equipe passou a se classificar diretamente, enquanto outra vai para a repescagem. Como era esperado, os neozelandeses garantiram a vaga direta.

Dito isso, o desafio para a Nova Caledônia é enorme. A equipe entra como a grande azarã da repescagem. Por muito tempo, os jogadores da seleção eram semi-amadores e mantinham outros empregos. A federação local vem trabalhando para mudar esse cenário. Atualmente, recruta atletas com ascendência neocaledônia que nasceram em outros países. Alguns atuam no segundo escalão do futebol francês.
Além disso, para chegar a Guadalajara, onde enfrentam a Jamaica na luta por uma vaga na decisão, terão que atravessar o globo terrestre. Nada menos que 11 mil quilômetros separam os dois países. A partida acontece às 0h desta sexta-feira (27).

Suriname: talento exportado, seleção reinventada
Para o Suriname, a mudança e a oportunidade também passam pela utilização de jogadores de fora. A equipe vai enfrentar a Bolívia, nesta quinta (26), às 19h (horário de Brasília).
O país, vizinho do Brasil, mas filiado à CONCACAF, é uma ex-colônia holandesa que se tornou independente em 1975. Com pouca expressão no futebol, muitos jogadores de destaque — como Clarence Seedorf e Edgar Davids, nascidos no país — optaram por defender a seleção holandesa.

O pulo do gato veio com a criação do “passaporte esportivo” em 2019. Ele permite que jogadores nascidos na Holanda, mas com ascendência surinamesa, defendam o país sem perder a cidadania europeia. A medida transformou o elenco, que agora conta com profissionais formados em centros de elite e atuando em ligas europeias competitivas. Curaçao, que ainda não é completamente independente da Holanda, adotou um processo muito semelhante e garantiu vaga direta no Mundial.
Além desse fator, que ajudou a seleção a elevar seu nível técnico, o aumento de vagas e a ausência das três anfitriãs — México, Estados Unidos e Canadá — nas eliminatórias da CONCACAF encurtaram o caminho para os surinameses. Após vencerem o grupo na primeira fase, terminaram em segundo lugar na etapa seguinte, atrás do Panamá, e avançaram para a repescagem.
Os surinameses não contam com nenhum nome conhecido do público brasileiro — pelo menos no aspecto futebolístico. Entre os convocados está Djavan Anderson. Sim, o nome é uma referência ao ícone da MPB. Seus pais, de origem surinamesa e jamaicana, eram grandes fãs do cantor e decidiram fazer essa homenagem ao batizar o filho.
Jamaica: os ReggaeBoyz em busca de redenção
A seleção da Nova Caledônia encara a Jamaica, que participou apenas uma vez de um Mundial, na França, em 1998. Na ocasião, esteve no Grupo H ao lado de Argentina, Croácia e Japão, sem avançar. Venceu apenas os asiáticos por 2 a 1, foi goleada pelos hermanos e perdeu para os europeus. A equipe era comandada por Renê Simões, que até hoje é uma figura marcante no país por ter levado o time à inédita Copa do Mundo.

Os jamaicanos passaram por uma grande decepção nas Eliminatórias da CONCACAF. Estavam no grupo de Curaçao e jogavam em casa, na última rodada, precisando vencer para garantir a vaga direta. O jogo terminou em um 0 a 0 melancólico para os ReggaeBoyz, enquanto Curaçao explodia de emoção. Na rodada anterior, haviam empatado com Trinidad e Tobago, deixando a liderança escapar.
Caso consiga a vaga, a Jamaica sonha com a possibilidade de contar com Mason Greenwood no time. Atualmente no Olympique de Marselha, o atacante ex-Manchester United possui dupla nacionalidade e pode trocar a Inglaterra pela seleção caribenha. Ele está fora dos planos de Thomas Tuchel para o English Team, o que poderia levá-lo a tomar essa decisão, que seria definitiva em sua carreira.
Apesar da reta final ruim nas Eliminatórias, a Jamaica perdeu apenas três das últimas 14 partidas internacionais, com sete vitórias e quatro empates no período. O defensor Richard King alertou que, embora a Nova Caledônia seja apenas a 150ª colocada no ranking da FIFA, a equipe não pode relaxar.
“O ranking não interessa num jogo. O que importa é o que você faz em campo. A chave para nós é apenas trabalhar duro e vencer. Simples assim”, afirmou o atleta do St. Mirren, da Escócia.
Bolívia: o sonho de um país inteiro
Para o Suriname, o adversário será uma seleção bastante conhecida dos brasileiros. A Bolívia, que terminou as Eliminatórias Sul-Americanas em sétimo lugar, será a rival dos vizinhos ao norte. Os bolivianos já participaram de três Copas do Mundo; a última, coincidentemente, também nos Estados Unidos, em 1994. O jogo acontece em Monterrey, no México.

A vaga para a repescagem veio justamente diante do Brasil, nos mais de 4 mil metros de altitude de El Alto. Ao vencer a Seleção Brasileira na última rodada, os bolivianos ultrapassaram a Venezuela e conquistaram a classificação histórica, muito comemorada ainda no estádio. Dessa vez, não vão poder contar com a altitude a seu favor.
Para se ter uma ideia da importância dessa repescagem para o povo boliviano, o vice-presidente do país, Edman Lara, afirmou que decretará feriado nacional caso a La Verde conquiste a vaga após 32 anos de ausência. Efraín Morales, zagueiro do CF Montreal, chegou a afirmar que os jogadores “morreriam” pela seleção para colocá-la na Copa.
Entre os bolivianos, podemos destacar Miguel Terceros, o “Miguelito”, muito conhecido pelos torcedores do Santos e cria da base do Peixe. Ele chegou ao clube aos 14 anos por meio do Projeto Bolívia 2022, uma parceria voltada ao desenvolvimento de talentos bolivianos para a seleção nacional. E não é o único “Menino da Vila” boliviano que estará em campo contra o Suriname: o zagueiro Marcelo Contreras, que ainda atua no sub-20 santista, também foi convocado pelo técnico Óscar Villegas.
Iraque: desafios além das quatro linhas
Quem avançar do confronto entre Bolívia e Suriname encara o Iraque. A seleção asiática já enfrentou desafios antes mesmo de entrar em campo, causados pela situação geopolítica na região.
O deslocamento até o México foi um desafio logístico devido ao fechamento do espaço aéreo no Oriente Médio por causa da guerra. A federação recusou uma sugestão da FIFA de viajar 25 horas por terra, de Bagdá até a Turquia, e garantiu, em vez disso, um voo particular para preservar a segurança dos atletas.

O Iraque conquistou sua única classificação para uma Copa do Mundo há 40 anos, em 1986, no México, sob o comando do brasileiro Evaristo de Macedo. Apesar de não pontuar no torneio, a campanha foi histórica pela união nacional que promoveu em meio à Guerra Irã–Iraque.
A seleção conquistou a vaga nos playoffs depois de terminar uma espécie de repescagem interna na Ásia em terceiro lugar. Inicialmente, 18 seleções foram divididas em três chaves.
As duas primeiras colocadas de cada uma garantiram vaga na Copa. Os terceiros e quartos lugares formaram dois novos triangulares, nos quais o vencedor também se classificou, enquanto os segundos colocados disputaram um play-off para definir quem iria à repescagem mundial.
O vencedor da chave Bolívia/Suriname/Iraque entrará no Grupo I da Copa do Mundo, que conta com França, Noruega e Senegal.
RD Congo: a chance de reescrever sua história
Na outra chave, o vencedor de Nova Caledônia e Jamaica enfrenta a República Democrática do Congo. O país já participou uma vez da Copa do Mundo da FIFA, em 1974, na Alemanha, ainda como Zaire. Naquela ocasião, a campanha ficou marcada pelo medo, após o ditador Mobutu Sese Seko ameaçar a vida dos jogadores caso retornassem com resultados negativos.

Para o país, classificar-se para a Copa do Mundo é uma oportunidade de expor sua realidade ao mundo e, ao mesmo tempo, superar o trauma daquela participação. O futebol é utilizado como forma de resistência e de orgulho nacional diante de décadas de crises humanitárias e conflitos.
Os congoleses garantiram vaga na repescagem após passar por Camarões na semifinal dos play-offs das Eliminatórias e superar a Nigéria nos pênaltis na grande decisão. Esse jogo, porém, teve uma grande dose de polêmica nos bastidores.
A Nigéria solicitou à FIFA a exclusão da RD Congo da repescagem para a Copa de 2026, alegando a escalação irregular de nove jogadores. O foco da denúncia recai sobre atletas como Aaron Wan-Bissaka e Arthur Masuaku, que teriam falhas no processo de mudança de elegibilidade após defenderem seleções europeias na base. A FIFA rejeitou a petição e manteve o resultado de campo.
A seleção vencedora da chave RD Congo/Nova Caledônia/Jamaica entrará no Grupo K da Copa do Mundo, ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão.
Independentemente de quem se classifique, sonhos se tornarão realidade e o futebol escreverá mais uma daquelas belas páginas de emoção, que ficará marcada na memória de toda uma nação.
