Altitude, pressão e pedreiras: veja o raio-x completo do sorteio da Libertadores

Taça da Libertadores em Lima antes da final de 2025
Taça da Libertadores em Lima antes da final de 2025Hector Vivas/Getty Images

Tem a temida altitude, as viagens longas, uma logística difícil, alçapões e pressão, além da força de times campeões. Nesta quinta-feira (19), é hora de montar o quebra-cabeça que cada um dos 32 classificados para a fase de grupos da Libertadores terá de desbravar nos meses de abril e maio para avançar ao mata-mata e seguir sonhando com a Glória Eterna. Vamos entender cada peça desse sorteio e o que Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro, Mirassol, Fluminense e Corinthians podem encontrar pelo caminho.

Pote 1: a elite

O pote 1, dos cabeças de chave, concentra a maioria dos brasileiros. O atual campeão, Flamengo, fica automaticamente no Grupo A. Palmeiras e Fluminense são os outros brasileiros com melhor ranqueamento. Os três não podem cair em grupos com outros brasileiros.

Como de costume, é o pote mais pesado da competição. O Boca Juniors, quarto colocado no ranking da Conmebol e seis vezes campeão do torneio, é a camisa mais pesada entre os estrangeiros do pote. O time volta a disputar a fase de grupos após três anos e ocupa atualmente o sétimo lugar em seu grupo no Torneio Apertura. A equipe é treinada por Claudio Ubeda, auxiliar promovido antes da temporada, e tem Merentiel como principal destaque e artilheiro. Além disso, trouxe Romero, do Corinthians, e Bareiro, do Fortaleza.

Entre os cabeças de chave, também estão as duas forças uruguaias, Peñarol e Nacional. Os aurinegros vivem momento melhor: ocupam o terceiro lugar na liga uruguaia e têm bom aproveitamento de 66% no ano. Contam com Diego Aguirre como técnico há quatro temporadas e foram campeões da última Copa Uruguaia.

Já o Nacional, atual campeão uruguaio, aparece em oitavo na liga e tem aproveitamento de 52% no ano. A equipe é treinada por Jadson Vieira, brasileiro com dupla nacionalidade uruguaia, nascido em Santana do Livramento, na fronteira entre os dois países.

O principal pote do sorteio é completado pelos equatorianos LDU e Independiente del Valle. As duas equipes jogam em Quito, que fica a 2.850 metros acima do nível do mar. A LDU, que ocupa o sexto lugar na liga nacional, é treinada pelo brasileiro Tiago Nunes e trouxe o também brasileiro Deyverson e o paraguaio Luis Segovia, que ficou conhecido pela música feita pela torcida do Botafogo durante sua passagem pelo clube em 2023. 

Já o Independiente del Valle é o atual líder do campeonato equatoriano e está invicto nos quatro jogos que disputou no ano (3V/1E). Os “Matagigantes” são treinados por Joaquin Papa, uruguaio contratado para a temporada, e contam com um ataque extremamente perigoso, que marca, em média, 2,25 gols por jogo. Pelo desempenho neste início de ano, somado ao fator altitude e ao longo deslocamento, desponta como um dos adversários mais perigosos do pote.

Classificação do campeonato equatoriano
Classificação do campeonato equatorianoFlashscore

Pote 2: grandes forças do continente

O segundo pote do sorteio é um dos mais intrigantes, pois reúne equipes que, no papel, podem representar a principal ameaça aos cabeças de chave. Cruzeiro e Corinthians são os brasileiros presentes nessas bolinhas. O pote também conta com duas forças argentinas: o Lanús, atual campeão da Sul-Americana e da Recopa, e o Estudiantes de La Plata, que chegou às quartas de final da última Libertadores e foi eliminado nos pênaltis pelo Flamengo.

Os Granates apostaram na manutenção do elenco campeão em 2025, mas sofreram recentemente uma baixa importante. O centroavante Rodrigo Castillo, autor de dois gols na Recopa, foi vendido por 10 milhões de euros ao Fluminense. O time é treinado por Mauricio Pellegrino, ocupa a quinta colocação de seu grupo no Apertura e deu demonstração de força ao golear o Newell’s por 5 a 0 na última terça-feira (17).

Antes, havia vencido o próprio companheiro de pote, Estudiantes, que também faz um bom início de ano. É vice-líder do grupo e tem aproveitamento de 64% na temporada. O time começou o ano com oito jogos de invencibilidade, até ser derrotado pelo líder Vélez Sarsfield e pelo Lanús. O Pincha é treinado por Alexander Medina, que veio do Talleres e teve passagem pelo Inter em 2022, e conta com Mancuso no elenco, emprestado pelo Fortaleza.

O pote 2 também reúne os paraguaios Cerro Porteño e Libertad. O Cerro vive excelente fase: é vice-líder do Apertura paraguaio e vinha de quatro vitórias seguidas até ser derrotado pelo Rubio Ñú na última quarta (18). A equipe é treinada pelo uruguaio Jorge Bava, campeão do Clausura com o clube em 2025. O time contratou Pablo Vegetti, artilheiro do Vasco nas últimas temporadas, além de Fabrizio Peralta, do Cruzeiro, e Fabricio Domínguez, do Sport. O “Pirata”, porém, não tem repetido o desempenho dos últimos anos no cruz-maltino e soma apenas um gol em 10 jogos.

O Libertad é o quarto colocado do campeonato nacional, 10 pontos atrás do líder Olimpia. Venceu apenas um jogo nas primeiras sete rodadas, mas vem de quatro vitórias seguidas. Tem 51,5% de aproveitamento no ano e foi campeão do Apertura em 2025. A equipe é comandada por Francisco Arce, campeão da Libertadores de 1999 pelo Palmeiras.

Classificação do campeonato paraguaio
Classificação do campeonato paraguaioFlashscore

Um dos grandes temores dos brasileiros são os times bolivianos que atuam na altitude, e o Bolívar representa essa ameaça no pote 2. A liga boliviana ainda não começou, mas a equipe foi recentemente campeã do torneio amistoso de verão disputado no país. O time manda seus jogos no estádio Hernando Siles, em La Paz, a 3.650 metros acima do nível do mar.

Esteve no grupo do Palmeiras em 2025 e perdeu tanto em casa quanto em São Paulo. Desde 2023, disputou sete partidas como mandante contra brasileiros: venceu quatro, empatou uma e perdeu duas.

Para fechar, o pote conta com outro integrante do grupo do Palmeiras em 2025: o Universitario, do Peru. O time de Lima é o terceiro colocado na liga nacional e tem 66% de aproveitamento na temporada. Alex Valera é o principal destaque, com cinco dos 11 gols da equipe no ano. O time é treinado pelo espanhol Javier Rabanal, campeão equatoriano com o Independiente del Valle em 2025.

Pote 3: o pote das altitudes 

O terceiro pote do sorteio não conta com brasileiros, mas reúne muitos times tradicionais do continente. Chama a atenção o Rosario Central, que deve ser uma das atrações desta primeira fase pela presença de Ángel Di María, repatriado no ano passado e atual artilheiro da equipe na temporada, com quatro gols, além de duas assistências.

Números de Di Maria no Rosario Central
Números de Di Maria no Rosario CentralOpta by Stats Perform/Marcelo Manera/AFP

O time ocupa o terceiro lugar do Grupo 2 do Apertura e tem 64% de aproveitamento em 2026. O técnico é Jorge Almirón, vice-campeão da Libertadores de 2023 com o Boca Juniors.

Os colombianos Junior e Santa Fé também estão no pote 3. O Junior, dos artilheiros Teo Gutiérrez e Luis Muriel (cinco gols cada), joga em Barranquilla, ao nível do mar, e ocupa a quinta colocação na liga colombiana. A equipe tem 51% de aproveitamento no ano e uma defesa bastante vazada, com média de 1,54 gols sofridos por jogo.

Já o Santa Fé é da capital Bogotá, a 2.640 metros acima do nível do mar. Mas a altitude é o único fator que talvez assuste os adversários, já que a equipe é apenas a 14ª colocada da liga colombiana e tem aproveitamento de 41%, com três vitórias em 13 jogos no ano. É a primeira participação do clube na fase de grupos da Libertadores em cinco anos.

Classificação da Liga Colombiana
Classificação da Liga ColombianaFlashscore

Falando em altitude, o Always Ready, da Bolívia, talvez seja o principal time a ser evitado no sorteio. Campeão nacional em 2025, o clube manda seus jogos em El Alto, a 4.090 metros acima do nível do mar. A equipe, treinada por Julio César Baldivieso, foi vice-campeã do torneio amistoso de verão da Bolívia.

Outro time que assusta pela altitude é o Cusco, do Peru. Vice-campeã nacional em 2025, a equipe ocupa apenas a 13ª colocação na liga peruana, mas manda seus jogos a 3.400 metros acima do nível do mar. Em sete partidas no ano, o time treinado pelo argentino Miguel Rondelli venceu apenas duas, empatou uma e perdeu quatro. Facundo Callejo, que marcou 25 gols em 33 jogos em 2025, é o artilheiro da equipe na temporada, com três gols.

Maiores altitudes da Libertadores 2026
Maiores altitudes da Libertadores 2026Opta by Stats Perform

O maior desafio logístico para os brasileiros pode ser a viagem até a Venezuela. O Deportivo La Guaira, de Caracas, é o representante do país no pote 3. A equipe, treinada pelo argentino Héctor Bidoglio — que veio do futebol malaio —, ocupa a segunda colocação no campeonato venezuelano. É a terceira participação do clube na Libertadores: as anteriores foram em 2019 e 2021.

Para completar, o pote ainda conta com os dois chilenos desta Libertadores: Coquimbo Unido e Universidad Católica. O time de Coquimbo participa apenas pela segunda vez da competição — a primeira desde 1992 — e se classificou após um inédito título chileno em 2025. Atualmente ocupa a 11ª colocação na liga e tem 48% de aproveitamento no ano. A equipe também conquistou a Supercopa ao vencer justamente a Católica, vice-campeã nacional em 2025.

A Universidad Católica chega ao sorteio na quarta posição do campeonato chileno e com um ataque forte, que marca 1,89 gol por jogo. O time é treinado por Daniel Garnero, argentino multicampeão no Paraguai, e tem em Fernando Zampedri seu grande destaque: uma verdadeira máquina de gols, com 11 em nove partidas no ano e 150 em 234 jogos desde que chegou ao clube, em 2020.

Números de Fernando Zampedri
Números de Fernando ZampedriFlashscore

Pote 4: o mais traiçoeiro 

O pote 4 é um dos mais perigosos do sorteio. Metade é composta pelos times com pior colocação no ranking da Conmebol, enquanto a outra metade reúne os quatro classificados da pré-Libertadores, que podem inclusive cair em grupos com clubes do mesmo país. Botafogo e Bahia, representantes brasileiros na fase prévia, ficaram pelo caminho. O Mirassol, estreante na competição e ainda sem posição no ranking da entidade, também está no pote, mas não pode cair em uma chave com outros brasileiros.

Além do Mirassol, outros dois estreantes — ambos argentinos — estão no pote 4: Platense, campeão do Apertura de 2025, e Independiente Rivadavia, vencedor da Copa Argentina no ano passado. O Platense viu o bom desempenho desmoronar ao longo da última temporada. No Clausura, sequer avançou às oitavas e fechou o ano com 10 jogos sem vitória. Atualmente, ocupa a oitava colocação em seu grupo e tem 51,5% de aproveitamento em 2026. Além disso, conta com Walter Zunino no comando técnico, ex-lateral que vive sua primeira experiência como treinador principal.

Para o Rivadavia, de Mendoza, o conto de Cinderela segue sendo escrito. Depois do título inédito, o time treinado por Alfredo Berti, em sua quarta temporada no clube, mantém a boa fase em 2026 e lidera seu grupo no Apertura, com 70% de aproveitamento. No momento, está atrás apenas do Vélez na classificação geral do campeonato argentino.

A Universidad Central, da Venezuela, não é estreante na Libertadores, mas disputará a fase de grupos pela primeira vez. O time participou do torneio em 2025 e foi eliminado na segunda fase preliminar pelo Corinthians. Desta vez, a vaga direta veio com o título venezuelano — o segundo de sua história e o primeiro desde 1957. 

A equipe segue dominante no cenário nacional e lidera o campeonato local. Começou a temporada com seis vitórias seguidas e tropeçou pela primeira vez na última terça (17), contra a Academia Puerto Cabello

Dentre os times que vieram da pré, aquele que todos querem evitar é o Barcelona, 28º no ranking da Conmebol e que estaria no pote 2 caso tivesse conquistado vaga direta. O algoz recente do Botafogo também passou pelo Argentinos Juniors para chegar à fase de grupos e tem sido uma pedra no sapato de muitos brasileiros — eliminou, por exemplo, o Corinthians na fase prévia de 2025.

A equipe, treinada pelo venezuelano César Farías, tem Darío Benedetto como artilheiro e principal contratação para a temporada e ocupa o quinto lugar na liga equatoriana. Apesar disso, não chega ao mata-mata da Libertadores desde 2021.

Também vieram da pré-Libertadores dois times colombianos. O Tolima, que estava na chave do Bahia, passou por O’Higgins, do Chile, e Deportivo Táchira, da Venezuela. A equipe ocupa a nona colocação do campeonato colombiano e tem 52% de aproveitamento na temporada. O time conta com o goleiro Neto Volpi, revelado pelo Figueirense e primo de Tiago Volpi. Ele é o único estrangeiro do elenco. 

O outro colombiano é o Independiente Medellín, que passou pelos uruguaios Liverpool e Juventud de Las Piedras na fase prévia. O time vive mau momento no campeonato colombiano, ocupando apenas a 15ª colocação. É treinado há três temporadas por Alejandro Restrepo e conta com Yony González no elenco, conhecido dos brasileiros, mas que passa a maior parte do tempo no banco.

Os dois colombianos estariam no pote 3 caso tivessem obtido a vaga direta, assim como o peruano Sporting Cristal, treinado pelo brasileiro Paulo Autuori. O time ocupa a sexta colocação na liga peruana e tem como principal força o ataque, que marca, em média, 1,55 gol por jogo na temporada.

O elenco conta com três brasileirosCris Silva, que bateu o pênalti com cavadinha pra classificar o time para a terceira fase da pré Libertadores, Gabriel e Felipe Vizeu. O artilheiro é Yotún, ex-Vasco, com três gols; Vizeu tem dois. Para chegar à fase de grupos, a equipe deixou 2 de Mayo e Carabobo pelo caminho na fase preliminar.

A sorte está lançada. O sorteio acontece nesta quinta-feira (19), na sede da Conmebol, em Luque, no Paraguai. A cerimônia começa às 20h (de Brasília), com o sorteio da Sul-Americana, seguido pela definição dos grupos da Libertadores.