O “Arrascapênalti" foi popularizado de forma jocosa pelo apresentador Arnaldo Tironi em um programa esportivo do UOL, na última sexta (17). O termo faz alusão ao fato de que o meia do Flamengo seria craque em cavar penalidades inexistentes.
Tironi chamou de “Arrascapênalti” uma infração sofrida por Flaco López, do Palmeiras, em jogo da Libertadores. De “apito amigo” a “Cruzeirar”, o futebol é cheio de termos engraçadinhos, alguns maldosos, outros menos – mas algo chama a atenção no suposto “ataque” ao Arrascaeta.
A hashtag viralizou depois que personalidades do Twitter que torcem para o Rubro-Negro se incomodaram profundamente com o termo.
Até o humorista Antônio Tabet, ex-funcionário do Fla, não achou graça. Segundo analistas que coincidentemente são flamenguistas, “Arrascapênalti” seria parte de uma “narrativa” da imprensa esportiva paulista para prejudicar o clube carioca.
Até aí, cada um entende o mundo de acordo com seus olhos (e camisa?). Mas o que chama a atenção é que jornalistas abraçaram a causa, mostrando que objetividade, informação, bom senso e imparcialidade viraram coisas do passado.
Ora, por que apenas jornalistas abertamente rubro-negros reclamaram do Arrascapênalti? Desde quando jornalista é pago para defender o seu clube de “narrativas”? Estes senhores fariam o mesmo contra os termos “Flacopênalti” ou “Neysimulação" já que aparentemente trata-se de um serviço de interesse público?
Dois pesos, duas medidas
Se jornalista reclama – com razão – que hoje há influenciadores chapa-branca em coletiva de imprensa dando boas-vindas a técnicos (como se eles fossem funcionários do clube ou porta-voz da torcida), é uma contradição gigante o mesmo jornalista sair em defesa do time que torce achando que está exercendo sua profissão. Não é para isso que ele passou 4 anos na faculdade.
E também é risível ver muito repórter compartilhando feliz o “Arrascapênalti" como se fosse a descoberta da pólvora.
Os adultos formados em Jornalismo que embarcaram nessa onda não estão informando ninguém. Estão apenas preocupados em:
a) aporrinhar um time poderoso para ganhar clique ou
b) contrapor a “nociva narrativa da imprensa paulista", que claramente têm o poder de fazer árbitros nunca mais marcarem falta no meia do Flamengo.
Guerra semântica
Outro contraste bizarro é que há muito influencer/jornalista reclamando do Arrascapênalti depois de já ter cunhado termos polêmicos no passado.
Ou o Muricybol resume o repertório tático que tinha o Muricy? Ou "Campo de plástico” é um jeito preciso para se referir ao gramado artificial? O sintético tem 70% de polímeros em sua composição, em média, sim, mas 50% das chuteiras também são feitas de plástico – o material em si é um problema? Você consegue embutir dezenas de estudos sobre o tema no termo “gramado de plástico"? Claro que não. Usa-se este termo de forma derrogatória, como o Muricybol, o Cucabol ou Dinizismo.
Ou como o tal do Arrascapênalti.
Isso tudo são formas de incutir preconceitos na semântica e deixar a discussão mais rasa – o que às vezes é uma ferramenta de atalho numa conversa ou uma piadinha futebolística, tudo bem. Mas não é a função do jornalismo sair atirando de forma seletiva contra estes neologismos de acordo com sua torcida, travestindo isto de informação.
Nada contra os neologismos superficiais – e muitas vezes toscos –, pois o futebol não é uma ciência exata. Agora, levar isso tudo a sério com tanta coisa de fato relevante acontecendo, é inacreditável.
Outro aspecto que parece ter morrido em tempos de Twitter/Instagram/TikTok é a leveza do futebol. As interações estão mais bélicas do que nunca. Num país em que ironia não existe no imaginário popular, e no qual reina a intolerância nos estádios, um analista que se melindra com o “Arrascapênalti” – e acha que a arbitragem vai se agarrar ao tema – está precisando de análise ele mesmo.
Quando um comentarista da SporTV chamou o Vinícius Júnior de “Neguebinha”, o clamor não chegou nem perto deste caso do Arrascaeta.
O “Neguebinha” foi quase um caso de polícia devido ao seu teor racista – isto, sim, deveria ser tratado com notícia pela imprensa esportiva, pois toca na sociedade como um todo e é uma chaga do futebol. Não é caso da hashtag do Arrasca que viralizou na semana.
Uma mistura explosiva
Por conta das redes sociais, jornalista que tem time declarado começou a ter de apelar para suas torcidas para se manter relevante (ou para criar engajamento, basicamente um sinônimo de “relevante” no Twitter ou YouTube).
Parece que o repórter precisa agora trabalhar em prol do clube do coração para sobreviver no meio – o que é zero saudável para a prática da profissão.
Outro contrassenso: a bobagem do Arrascapênalti cairia rapidinho no ostracismo não fosse tamanha a revolta de profissionais engajados. Ou seja, no fim, prestaram um desserviço à Nação.
A lógica da mídia social, o cidadão que se leva muito a sério, a falta de compaixão, a falta de decoro entre torcidas rivais na internet, o declínio do jornalismo das redações: esse mix parece ter deixado a profissão meio sem rumo.
E aquele jeito clubista e reducionista que torcedores inventaram para chamar setores da mídia (“Flapress”, "Porcopress", “Imprensa de Gambá", etc) parece fazer cada vez mais sentido. Não se engane, torcida brasileira: todo mundo sai perdendo nessa.

