Palmeiras x Flamengo: como os finalistas da Libertadores se tornaram potências financeiras

Palmeiras, de Vitor Roque, e Flamengo, de Arrascaeta, decidem a Libertadores neste sábado
Palmeiras, de Vitor Roque, e Flamengo, de Arrascaeta, decidem a Libertadores neste sábadoNELSON ALMEIDA / AFP

Palmeiras e Flamengo se enfrentam neste sábado (29), em Lima, no Peru, às 18h (de Brasília), pela grande final da Copa Libertadores da América. Rivalizando neste momento como as grandes forças do continente, ambos também travam uma batalha doméstica pelo topo do Brasileirão e são, sem dúvidas, os dois grandes exemplos de gestão do futebol nacional na atualidade. Mas nem sempre foi assim. 

A história de recuperação financeira desses dois clubes se confunde, pois basicamente ocorreu no mesmo período. Entretanto, os caminhos que os nortearam são opostos. O Flashscore conta essa história. 

Acompanhe Palmeiras x Flamengo com narração ao vivo no Flashscore 

A virada de chave do Palmeiras 

Em 2012, o Palmeiras chegou ao fundo do poço novamente. O segundo rebaixamento do clube paulista expôs problemas históricos que vinham abalando a instituição como um todo, como as dívidas muito altas, a dificuldade de captação de receitas, a formação de elencos caros e com nítidas deficiências técnicas e os conflitos políticos internos. Curiosamente, uma semana antes da confirmação da queda palmeirense, os flamenguistas corriam o mesmo risco. 

Allianz Parque como parte de um novo tempo 

Quando o Palmeiras subiu no ano seguinte, em 2013, o clube ainda não se encontrava sólido. Porém, iniciou, de forma definitiva, seu processo de reconstrução, e isso passou por uma das chaves desta jornada: o Allianz Parque

O estádio foi inaugurado apenas em novembro de 2014, mas representou uma mudança estrutural para o Palmeiras. O Verdão tornou-se um dos clubes com maiores receitas de matchday do Brasil, possibilitando naming rights e acordos comerciais mais fortes, ampliando a capacidade de fazer receita com shows, venda de camarotes e eventos, além de melhorar a visibilidade da marca e o interesse de patrocinadores.

O Allianz Parque, a casa do Palmeiras
O Allianz Parque, a casa do PalmeirasStaff Images

Em campo, todavia, 2014 não foi dos melhores anos para o Alviverde, que quase caiu novamente. Mas garantir-se na elite foi fundamental, uma vez que financeiramente a chave já estava virando. 

A combinação Crefisa/FAM e o apetite voraz de Alexandre Mattos 

A partir de 2015, o Palmeiras atinge o patamar financeiro desejado por seus administradores. A chegada da Crefisa/FAM, com Leila Pereira, permite ao clube investimentos altos e contínuos em contratações. Era preciso então um gestor agressivo no mercado e esse nome era Alexandre Mattos. 

Com a chegada do executivo, o Alviverde aumentou sua folha salarial e importantes reforços foram anunciados: Dudu, Arouca, Zé Roberto, Rafael Marques, Lucas Barrios, entre outros. Com isso, a espinha dorsal do Verdão foi renovada e rapidamente os resultados foram colhidos: o time foi campeão da Copa do Brasil de 2015, ano onde o Palmeiras também viu o marketing disparar, com mais sócios-torcedores, mais mídia e mais vendas. 

Um Palmeiras protagonista 

De 2016 a 2018, o Palmeiras consolidou o seu projeto e tornou-se protagonista no futebol brasileiro. Os títulos falam por si. A equipe foi campeã brasileira em 2016 e faturou novamente o título nacional em 2018. 

Nesse período, o Verdão disparou em receitas totais, bilheteria, sócio-torcedor, capacidade de investimento e infraestrutura, além de possuir um departamento de futebol equilibrado e bem gerido. Mas faltava ainda uma peça-chave dentro dessa história de sucesso esportivo e financeiro.  

A era Abel Ferreira / Leila Pereira 

Abel Ferreira foi anunciado como o novo técnico do Palmeiras em outubro de 2020. O português substituiu Vanderlei Luxemburgo, demitido após uma sequência de três derrotas consecutivas no Brasileirão e as constantes críticas da torcida pelo time não apresentar um bom futebol, mesmo tendo conseguido uma série anterior de 20 jogos de invencibilidade.

Mas Abel era definitivamente o que o Palmeiras precisava para atingir um novo patamar. Com uma estrutura forte e autossustentável, o clube entrou no seu auge esportivo, faturando as Libertadores de 2020 e 2021, além da Copa do Brasil de 2020, e os Campeonatos Brasileiros de 2022 e 2023. 

E outro fator fundamental é parte deste projeto: Leila Pereira. A chegada da gestora ao Palmeiras, primeiro como patrocinadora (a partir de 2015, com Crefisa/FAM) e depois como presidente do clube (eleita em 2021), representa um capítulo decisivo na consolidação do Palmeiras como potência nacional e continental.

Como patrocinadora, Leila injetou recursos que permitiram a montagem de elencos fortes, ajudando a acelerar a transformação iniciada com o Allianz Parque. Como presidente, manteve estabilidade política, profissionalização da gestão e capacidade de investimento, preservando a competitividade do time enquanto reforçava a marca Palmeiras no mercado e ampliava a projeção institucional do clube.

Abel Ferreira recebe homenagem de Leila Pereira
Abel Ferreira recebe homenagem de Leila PereiraCesar Greco/Palmeiras

Sua presença uniu força financeira, visibilidade e gestão empresarial, elementos que contribuíram para manter o Palmeiras em um patamar de protagonismo permanente no futebol sul-americano.

Neste sábado, o Alviverde tem a chance de ouro de se tornar o primeiro clube brasileiro tetracampeão da Libertadores. Mas o clube paulista não está só neste objetivo. 

Caos na Gávea 

Passada a história de reestruturação do Palmeiras, chegamos à recuperação do Flamengo. Até 2012, o clube vivia um completo caos: era um dos mais endividados do país, não possuía controle orçamentário, dependia da venda de jogadores para pagar a folha salarial e enfrentava uma política interna totalmente fragmentada.

Com uma estrutura de futebol ultrapassada e distante de qualquer ideia de autossustentabilidade, o Flamengo convivia com atrasos salariais frequentes, prejudicando atletas e criando um ambiente instável. Mesmo sendo um gigante de torcida, era um gigante desorganizado. O ponto de ruptura veio com as eleições de 2012.

O marco zero com a chegada de Eduardo Bandeira de Melo 

Vitoriosa no pleito do ano anterior, a chapa “Flamengo da Gente”, liderada por Eduardo Bandeira de Mello, assumiu o Rubro-Negro com uma visão fundamental: primeiro arrumar a casa, para depois montar um timaço.

O Flamengo passou a adotar um foco extremamente agressivo no saneamento financeiro, com corte de gastos, renegociação de dívidas com bancos e governo e uma política de responsabilidade fiscal rígida.

Eduardo Bandeira de Mello, o arquiteto da mudança no Flamengo
Eduardo Bandeira de Mello, o arquiteto da mudança no FlamengoLUCIANO BELFORD / AGIF / AGIF VIA AFP

Entre 2013 e 2015, o clube viveu um período de austeridade, reduzindo drasticamente a folha salarial, eliminando despesas improdutivas, utilizando um orçamento realista e destinando grande parte das receitas ao pagamento das dívidas.

O time em campo ainda podia parecer mediano, mas a estrutura fora dele finalmente se tornava sólida.

Um Flamengo saudável começa a investir

Organizado financeiramente, o Flamengo vive, entre 2016 e 2018, um novo período: o clube passa a investir na chegada de jogadores de seleção brasileira e de nomes estrangeiros, impulsionado pelo crescimento de sua base de sócios-torcedores, pelo aumento das bilheterias no Maracanã, pela conquista de patrocínios mais robustos, pela valorização dos contratos de TV e pela maior capacidade de venda de jogadores — especialmente talentos da base, como Vinícius Júnior.

E aí vem a explosão: a era Jorge Jesus

É aqui que o Flamengo se transforma em uma superpotência continental. Em 2019, já com bastidores saudáveis e receitas elevadas, ocorre a verdadeira mudança de rota.

Jogadores de elite chegam ao clube, como Arrascaeta, contratado em uma negociação milionária com o Cruzeiro, além de Bruno Henrique, Gerson, Pablo Marí, Rafinha, Filipe Luís e, especialmente, Gabigol.

Flamengo de Jorge Jesus e Gabigol, campeão da Libertadores de 2019
Flamengo de Jorge Jesus e Gabigol, campeão da Libertadores de 2019WAGNER MEIER / GETTY IMAGES SOUTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

O artilheiro das decisões desembarcou inicialmente por empréstimo, mas acabou comprado em definitivo, consolidando-se como um dos maiores ídolos da história rubro-negra.

No comando dessa engrenagem, estava Jorge Jesus, figura magistral que, assim como Abel Ferreira mais tarde, representou a porta de entrada definitiva para a nova geração de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro. Sob o comando do português, o Flamengo tornou-se dominante, praticando um futebol ofensivo e intenso, em padrão europeu, e conquistou aquilo que o torcedor mais deseja: títulos.

O Rubro-Negro sagrou-se campeão da Libertadores e do Brasileirão em 2019 - o verdadeiro divisor de águas esportivo dentro da história de reestruturação do clube.

Uma potência financeira no continente 

Não à toa, o Flamengo vem frequentando a prateleira de cima do futebol brasileiro e sul-americano desde 2019. Mesmo com críticas internas, crises políticas e divergências, a estrutura permaneceu sólida - assim como o futebol.

O Rubro-Negro possui a maior folha salarial da América do Sul, além de arrecadar milhões com contratos de TV e premiações. A bilheteria se tornou estável, assim como o orçamento anual, que gira em torno de R$ 1 bilhão.

Tudo isso é reflexo da profissionalização de todos os departamentos do clube, o que possibilitou negociações mais robustas com marcas globais, contratos de patrocínio mais valiosos - incluindo o atual máster - e a consolidação da base como formadora de talentos.

Filipe Luís pode se sagrar campeão da Libertadores como jogador e técnico
Filipe Luís pode se sagrar campeão da Libertadores como jogador e técnicoJUAN MABROMATA / AFP

E não apenas de jovens prospectos, mas também de técnicos, como é o caso de Filipe Luís. O ex-lateral deixou os gramados para tornar-se um dos treinadores mais promissores do futebol mundial. Neste sábado, ele pode dar mais um passo em seu ainda breve currículo, acrescentando a Libertadores como uma de suas conquistas mais expressivas no comando da equipe.