A história de recuperação financeira desses dois clubes se confunde, pois basicamente ocorreu no mesmo período. Entretanto, os caminhos que os nortearam são opostos. O Flashscore conta essa história.
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A virada de chave do Palmeiras
Em 2012, o Palmeiras chegou ao fundo do poço novamente. O segundo rebaixamento do clube paulista expôs problemas históricos que vinham abalando a instituição como um todo, como as dívidas muito altas, a dificuldade de captação de receitas, a formação de elencos caros e com nítidas deficiências técnicas e os conflitos políticos internos. Curiosamente, uma semana antes da confirmação da queda palmeirense, os flamenguistas corriam o mesmo risco.
Allianz Parque como parte de um novo tempo
Quando o Palmeiras subiu no ano seguinte, em 2013, o clube ainda não se encontrava sólido. Porém, iniciou, de forma definitiva, seu processo de reconstrução, e isso passou por uma das chaves desta jornada: o Allianz Parque.
O estádio foi inaugurado apenas em novembro de 2014, mas representou uma mudança estrutural para o Palmeiras. O Verdão tornou-se um dos clubes com maiores receitas de matchday do Brasil, possibilitando naming rights e acordos comerciais mais fortes, ampliando a capacidade de fazer receita com shows, venda de camarotes e eventos, além de melhorar a visibilidade da marca e o interesse de patrocinadores.

Em campo, todavia, 2014 não foi dos melhores anos para o Alviverde, que quase caiu novamente. Mas garantir-se na elite foi fundamental, uma vez que financeiramente a chave já estava virando.
A combinação Crefisa/FAM e o apetite voraz de Alexandre Mattos
A partir de 2015, o Palmeiras atinge o patamar financeiro desejado por seus administradores. A chegada da Crefisa/FAM, com Leila Pereira, permite ao clube investimentos altos e contínuos em contratações. Era preciso então um gestor agressivo no mercado e esse nome era Alexandre Mattos.
Com a chegada do executivo, o Alviverde aumentou sua folha salarial e importantes reforços foram anunciados: Dudu, Arouca, Zé Roberto, Rafael Marques, Lucas Barrios, entre outros. Com isso, a espinha dorsal do Verdão foi renovada e rapidamente os resultados foram colhidos: o time foi campeão da Copa do Brasil de 2015, ano onde o Palmeiras também viu o marketing disparar, com mais sócios-torcedores, mais mídia e mais vendas.
Um Palmeiras protagonista
De 2016 a 2018, o Palmeiras consolidou o seu projeto e tornou-se protagonista no futebol brasileiro. Os títulos falam por si. A equipe foi campeã brasileira em 2016 e faturou novamente o título nacional em 2018.
Nesse período, o Verdão disparou em receitas totais, bilheteria, sócio-torcedor, capacidade de investimento e infraestrutura, além de possuir um departamento de futebol equilibrado e bem gerido. Mas faltava ainda uma peça-chave dentro dessa história de sucesso esportivo e financeiro.
A era Abel Ferreira / Leila Pereira
Abel Ferreira foi anunciado como o novo técnico do Palmeiras em outubro de 2020. O português substituiu Vanderlei Luxemburgo, demitido após uma sequência de três derrotas consecutivas no Brasileirão e as constantes críticas da torcida pelo time não apresentar um bom futebol, mesmo tendo conseguido uma série anterior de 20 jogos de invencibilidade.
Mas Abel era definitivamente o que o Palmeiras precisava para atingir um novo patamar. Com uma estrutura forte e autossustentável, o clube entrou no seu auge esportivo, faturando as Libertadores de 2020 e 2021, além da Copa do Brasil de 2020, e os Campeonatos Brasileiros de 2022 e 2023.
E outro fator fundamental é parte deste projeto: Leila Pereira. A chegada da gestora ao Palmeiras, primeiro como patrocinadora (a partir de 2015, com Crefisa/FAM) e depois como presidente do clube (eleita em 2021), representa um capítulo decisivo na consolidação do Palmeiras como potência nacional e continental.
Como patrocinadora, Leila injetou recursos que permitiram a montagem de elencos fortes, ajudando a acelerar a transformação iniciada com o Allianz Parque. Como presidente, manteve estabilidade política, profissionalização da gestão e capacidade de investimento, preservando a competitividade do time enquanto reforçava a marca Palmeiras no mercado e ampliava a projeção institucional do clube.

Sua presença uniu força financeira, visibilidade e gestão empresarial, elementos que contribuíram para manter o Palmeiras em um patamar de protagonismo permanente no futebol sul-americano.
Neste sábado, o Alviverde tem a chance de ouro de se tornar o primeiro clube brasileiro tetracampeão da Libertadores. Mas o clube paulista não está só neste objetivo.
Caos na Gávea
Passada a história de reestruturação do Palmeiras, chegamos à recuperação do Flamengo. Até 2012, o clube vivia um completo caos: era um dos mais endividados do país, não possuía controle orçamentário, dependia da venda de jogadores para pagar a folha salarial e enfrentava uma política interna totalmente fragmentada.
Com uma estrutura de futebol ultrapassada e distante de qualquer ideia de autossustentabilidade, o Flamengo convivia com atrasos salariais frequentes, prejudicando atletas e criando um ambiente instável. Mesmo sendo um gigante de torcida, era um gigante desorganizado. O ponto de ruptura veio com as eleições de 2012.
O marco zero com a chegada de Eduardo Bandeira de Melo
Vitoriosa no pleito do ano anterior, a chapa “Flamengo da Gente”, liderada por Eduardo Bandeira de Mello, assumiu o Rubro-Negro com uma visão fundamental: primeiro arrumar a casa, para depois montar um timaço.
O Flamengo passou a adotar um foco extremamente agressivo no saneamento financeiro, com corte de gastos, renegociação de dívidas com bancos e governo e uma política de responsabilidade fiscal rígida.

Entre 2013 e 2015, o clube viveu um período de austeridade, reduzindo drasticamente a folha salarial, eliminando despesas improdutivas, utilizando um orçamento realista e destinando grande parte das receitas ao pagamento das dívidas.
O time em campo ainda podia parecer mediano, mas a estrutura fora dele finalmente se tornava sólida.
Um Flamengo saudável começa a investir
Organizado financeiramente, o Flamengo vive, entre 2016 e 2018, um novo período: o clube passa a investir na chegada de jogadores de seleção brasileira e de nomes estrangeiros, impulsionado pelo crescimento de sua base de sócios-torcedores, pelo aumento das bilheterias no Maracanã, pela conquista de patrocínios mais robustos, pela valorização dos contratos de TV e pela maior capacidade de venda de jogadores — especialmente talentos da base, como Vinícius Júnior.
E aí vem a explosão: a era Jorge Jesus
É aqui que o Flamengo se transforma em uma superpotência continental. Em 2019, já com bastidores saudáveis e receitas elevadas, ocorre a verdadeira mudança de rota.
Jogadores de elite chegam ao clube, como Arrascaeta, contratado em uma negociação milionária com o Cruzeiro, além de Bruno Henrique, Gerson, Pablo Marí, Rafinha, Filipe Luís e, especialmente, Gabigol.

O artilheiro das decisões desembarcou inicialmente por empréstimo, mas acabou comprado em definitivo, consolidando-se como um dos maiores ídolos da história rubro-negra.
No comando dessa engrenagem, estava Jorge Jesus, figura magistral que, assim como Abel Ferreira mais tarde, representou a porta de entrada definitiva para a nova geração de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro. Sob o comando do português, o Flamengo tornou-se dominante, praticando um futebol ofensivo e intenso, em padrão europeu, e conquistou aquilo que o torcedor mais deseja: títulos.
O Rubro-Negro sagrou-se campeão da Libertadores e do Brasileirão em 2019 - o verdadeiro divisor de águas esportivo dentro da história de reestruturação do clube.
Uma potência financeira no continente
Não à toa, o Flamengo vem frequentando a prateleira de cima do futebol brasileiro e sul-americano desde 2019. Mesmo com críticas internas, crises políticas e divergências, a estrutura permaneceu sólida - assim como o futebol.
O Rubro-Negro possui a maior folha salarial da América do Sul, além de arrecadar milhões com contratos de TV e premiações. A bilheteria se tornou estável, assim como o orçamento anual, que gira em torno de R$ 1 bilhão.
Tudo isso é reflexo da profissionalização de todos os departamentos do clube, o que possibilitou negociações mais robustas com marcas globais, contratos de patrocínio mais valiosos - incluindo o atual máster - e a consolidação da base como formadora de talentos.

E não apenas de jovens prospectos, mas também de técnicos, como é o caso de Filipe Luís. O ex-lateral deixou os gramados para tornar-se um dos treinadores mais promissores do futebol mundial. Neste sábado, ele pode dar mais um passo em seu ainda breve currículo, acrescentando a Libertadores como uma de suas conquistas mais expressivas no comando da equipe.
