Como a Copinha passou de "celeiro de talentos" a "feira de joias"

Atualizada
Estêvão aumentou de preço após brilhar na Copinha de 2024
Estêvão aumentou de preço após brilhar na Copinha de 2024Ag. Paulistão

São quase 4 mil jovens jogadores correndo atrás de um sonho na Copa São Paulo de Futebol Júnior que começa nesta sexta-feira (2). Antes um “celeiro” das novas revelações do futebol brasileiro, o torneio hoje se consolidou como um atacadão para clubes e empresários fazerem dinheiro com suas “joias da base”.

Não é à toa que o termo “joia” – que, como sabemos, é um bem valioso – ganhou mais espaço na mídia nos últimos anos.  Segundo a ferramenta Exploding Topics, “joia” já é mais usado em notícias que aparecem no Google News do que o termo “cria" da base.

Cria, como sabemos, é um ser, não um bem, e a escolha de palavras escancara como o futebol moderno passou a tratar os atletas sub-20.

Manchetes do ge, CNN, R7 e Terra
Manchetes do ge, CNN, R7 e TerraReprodução

A Lei que mudou tudo

A virada que trouxe a supermercantilização dos futebolistas veio com a Lei Bosman, regra que revolucionou o esporte em 1995.

Nascida depois que o ex-jogador belga Jean-Marc Bosman ganhou um processo contra o RFC Liege, seu time na época, a lei permitiu que atletas deixassem seus clubes ao término de seus contratos.

Antes de 1995, os times detinham o famigerado “passe” dos jogadores. Depois daquele ano, livres para decidirem seus destinos, as jovens promessas podiam buscar contratos melhores.

E uma das consequências da revolução Bosman foi que ela abriu a porteira para os clubes mais ricos assinarem com os melhores jogadores.

Em menos de cinco temporadas após a regra entrar em vigor, o futebol sul-americano não conseguia mais segurar seus craques, que passaram a se mudar para a Europa a toque de caixa.

Vini Jr. na Copinha 2017 pelo Flamengo
Vini Jr. na Copinha 2017 pelo FlamengoCRF

Copinha na vitrine

Sob esta nova ordem, o mercado da bola inflacionou ano a ano e expandiu seus tentáculos para atletas cada vez mais jovens. E a Copinha se tornou a feira perfeita dos novos talentos deste mercado.

Tem tanto clube e empresário desesperado em fazer dinheiro – e tanto jogador de base precisando de um bom negócio – que o torneio aumentou de 36 times em 1990 para 128 em 2023. Um inchaço de apenas 355%.

Em 2008, o Botafogo se recusou a participar do torneio por conta da invasão dos times de empresário (como o famigerado Roma Barueri, que era uma equipe de aluguel e venceu a Copinha de 2001).

Em 2025 o boicote é do Flamengo, que entendeu prefere usar o time sub-20 no Cariocão.

O Grupo Globo também desistiu de transmistir a competição depois de décadas, entendendo que a Copinha não é mais aquela que produziu finais épicas como o São Paulo x Corinthians de 1993.

Quase 30 após a lei que aboliu o passe, a Copa São Paulo de Futebol Júnior perdeu seu charme e abraçou sua função mercadológica, que agora é  mais importante que títulos. O gol agora é lapidar e tentar vender rubis e diamantes.

É do jogo do "futebol moderno". Mas o torneio não tem mais graça para o torcedor que não vibra com planilha.

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