A Copa Africana de Nações Feminina costuma ser palco da força das mesmas potências. A Nigéria, dona de 10 títulos continentais, construiu sua história impondo respeito sobre adversárias de diferentes gerações.
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Mas o futebol também reserva noites capazes de alterar a tradição. Foi exatamente isso que aconteceu nesta terça-feira (28), quando o estreante Maláui derrotou as nigerianas por 3 a 2, em um resultado que vai muito além de uma simples zebra: é um símbolo da evolução do futebol feminino africano.
O triunfo foi construído por duas jogadoras que há anos figuram entre as melhores atacantes do planeta. As irmãs Tabitha e Temwa Chawinga marcaram os três gols da partida, encerraram uma longa escrita de domínio da Nigéria e colocaram o Maláui, pela primeira vez, no centro das atenções do continente.
Mais do que eliminar o favoritismo de uma seleção histórica, elas provaram que o futebol feminino africano já não depende apenas das tradicionais potências. Hoje, atletas formadas em países sem tradição também chegam aos maiores clubes do mundo, acumulam prêmios individuais e voltam às suas seleções capazes de mudar o destino de uma competição inteira.
E isso acontece justamente em uma edição que pode transformar o futuro de várias seleções. A Copa Africana distribui quatro vagas diretas para a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil, além de duas vagas na repescagem intercontinental. Em um torneio tão equilibrado, vencer a favorita logo na estreia pode significar muito mais do que três pontos.

Tabitha: a pioneira que abriu caminhos pela Europa
Se hoje o Maláui acredita que pode competir contra qualquer adversário, muito disso passa pela trajetória construída por Tabitha Chawinga.
A atacante foi uma das primeiras jogadoras africanas a dominar diferentes ligas nacionais. Antes de chegar ao Lyon, acumulou artilharias na terceira, segunda e primeira divisões da Suécia, repetiu o feito na China e voltou a terminar como principal goleadora da Serie A italiana.

Os números ajudam a explicar sua dimensão. Foram 39 gols na terceira divisão sueca, 43 na segunda divisão e outros 26 na elite do país. Na China, terminou duas temporadas consecutivas como artilheira da liga e ainda liderou a artilharia da Copa Nacional. Já na Itália marcou 23 vezes para conquistar mais uma chuteira de ouro.
As temporadas 2023/24 e 2024/25 representaram o auge desse reconhecimento no futebol francês. Atuando pelo PSG e Lyon, a jogadora também angariou prêmios individuais. Tabitha foi eleita a melhor jogadora do Campeonato Francês e foi eleita pelo sindicato das jogadoras a melhor atleta, algo reservado a nomes que conseguem manter alto rendimento durante toda a temporada.
Contra a Nigéria, a experiência voltou a aparecer. Além do gol marcado, foi a referência técnica do ataque, oferecendo mobilidade, retenção da bola e liderança em um jogo que exigia personalidade para enfrentar a maior campeã do continente.

Temwa domina a principal liga do mundo
Se Tabitha abriu portas na Europa, Temwa transformou os Estados Unidos em seu território. A atacante do Kansas City Current vive uma sequência impressionante na NWSL, considerada uma das ligas mais fortes do futebol feminino. Em duas temporadas consecutivas, conquistou o prêmio de MVP da competição, integrou a seleção do campeonato e terminou como artilheira.
Em 2024 marcou 21 gols. Em 2025, voltou a liderar a artilharia, desta vez com 15. Antes disso, já havia sido goleadora da Superliga Chinesa em duas temporadas consecutivas, demonstrando que sua capacidade de decidir partidas independe do país ou do campeonato.

Sua principal característica continua sendo a explosão física. Temwa combina velocidade, potência e precisão nas finalizações, atributos que transformam qualquer espaço deixado pela defesa adversária em uma oportunidade clara de gol.
Foi exatamente esse repertório que apareceu diante da Nigéria. Ela marcou duas vezes e foi decisiva para garantir uma vitória que muda completamente a perspectiva do Maláui na competição.
Muito além de uma zebra
A vitória do Maláui representa um momento importante para o futebol africano porque mostra um cenário cada vez mais competitivo. Durante décadas, a Nigéria concentrou praticamente todo o protagonismo continental. Agora, outras seleções começam a reunir atletas protagonistas nas principais ligas da Europa e dos Estados Unidos, reduzindo a distância técnica que antes parecia intransponível.

Poucas seleções podem dizer que possuem duas atacantes entre as principais jogadoras do futebol internacional. O Maláui tem esse privilégio. Enquanto uma foi eleita a melhor jogadora do Campeonato Francês, a outra domina há duas temporadas a principal liga dos Estados Unidos. Somadas, Tabitha e Temwa acumulam dezenas de títulos individuais, artilharias em quatro países diferentes e prêmios de melhor jogadora em algumas das competições mais importantes do futebol feminino.
Por isso, o resultado desta estreia tem peso histórico. Não apenas por interromper o favoritismo da maior campeã africana, mas porque confirma uma mudança de geração no continente.
Se a Nigéria continua sendo candidata ao título, o Maláui deixou claro que também merece ser tratado como um concorrente real às vagas para a Copa do Mundo. E, enquanto tiver duas das melhores atacantes do planeta vestindo a mesma camisa, qualquer favoritismo do outro lado será apenas um detalhe.
Copa Africana das Nações Feminina
01/08 – 14h - Egito x Maláui (Moulay Hassan Stadium, Rabat, Marrocos)
05/08 – 17h – Maláui x Zâmbia (Al Madina Stadium, Rabat, Marrocos)
