Mesmo considerando os empates por 2 a 2 contra o Tottenham Hotspur e o Borussia Dortmund, além das derrotas apertadas para a Juventus (2x3) e o Monaco (0x1), o time de Pep Guardiola representava um desafio completamente diferente.
Confira como foi Bodo/Glimt 3x1 Manchester City
Davi contra Golias
O time norueguês entrou em campo ocupando a 32ª posição na tabela da Champions, enquanto o City estava em quarto, tranquilo entre os oito primeiros que garantem vaga direta no mata-mata da principal competição europeia.
Além disso, os anfitriões ainda não tinham vencido na Champions League 2025/26, e Erling Haaland, de volta ao seu país natal, havia ajudado o City a vencer por 2 a 1 o poderoso Real Madrid fora de casa no último jogo da UCL.

Não é de se estranhar que o Bodo fosse considerado praticamente sem chances de protagonizar uma das maiores zebras da competição nos últimos tempos, mesmo com Guardiola obrigado a fazer pelo menos quatro das seis mudanças no time que enfrentou o Real Madrid por conta de lesões.
Deixar Jeremy Doku no banco e tirar Bernardo Silva completamente da relação não parecia a decisão mais acertada antes do jogo, e isso ficou evidente ao final dos 90 minutos.
Haaland pouco participativo
Considerando que Rayan Ait-Nouri, Rodri, Abdukodir Khusanov, Max Alleyne, Rico Lewis e Tijjani Reijnders foram os seis jogadores que entraram no XI inicial do City, fica claro que o time inglês tinha qualidade suficiente para não ser incomodado pelos donos da casa.
O primeiro chute de Haaland ao gol só aconteceu aos 10 minutos, quando o City já dominava o adversário em criação de chances e finalizações.

Curiosamente, o camisa 9 do City foi o primeiro norueguês a começar uma partida de UCL contra um clube norueguês desde John Carew em dezembro de 2005, e nenhum jogador norueguês havia marcado contra outro clube do país na competição.
Esse foi um dos apenas dois toques de Haaland nos primeiros 20 minutos, período em que o City teve 74% de posse de bola, e nada indicava os dois minutos insanos que viriam a seguir.
Dois minutos para esquecer de Alleyne
Um passe para o centroavante vindo de Phil Foden não foi aproveitado, e o erro de Max Alleyne no desarme durante o contra-ataque do Bodo foi determinante.
Com os visitantes desorganizados na recomposição, um cruzamento de Ole Didrick Blomberg para o segundo pau encontrou Kasper Hogh, que cabeceou firme para abrir o placar.
117 segundos depois, o mesmo jogador apareceu livre após novo erro de Alleyne, e finalizou de primeira após mais uma assistência de Blomberg, sem chances para Gianluigi Donnarumma.
Pela primeira vez nesta edição da Champions, Blomberg deu pelo menos uma assistência, e Hogh marcou pelo menos um gol, já que o Bodo vinha dependendo do faro artilheiro do meio-campista Jens Petter Hauge.
Hogh faz história na UCL
O doblete de Hogh foi o mais rápido que um jogador já marcou dois gols na UCL contra o City desde Son Heung-min (10 minutos) pelo Tottenham naquele jogo épico de 2019.
Ele também se tornou o primeiro a marcar duas vezes e ter cinco ou mais toques na área adversária no primeiro tempo de um jogo de UCL contra o Manchester City desde Luis Suárez em 2015 pelo Barcelona.
Nenhum jogador havia conseguido esse feito contra um time comandado por Pep Guardiola na competição.
Pela terceira vez desde o início de 2024, o City sofreu dois gols no primeiro tempo em contra-ataques rápidos dos adversários.
City não conseguiu lidar com o jogo físico do Bodo
A noite de Alleyne foi marcada por apenas um desarme tentado durante os 90 minutos, sem sucesso.
Apesar de Guardiola provavelmente pensar bastante antes de dar outra chance ao jovem no time titular, ao final do jogo, o jogador de 20 anos completou 103 passes – o maior número já registrado por um estreante inglês na competição desde 2003/04.

O City até teve pelo menos três chances antes do intervalo para empatar, muito graças aos seis desarmes de Hauge – mais do que qualquer outro em campo –, mas os visitantes tinham dificuldades até para acertar o alvo nas finalizações.
A força física de Patrick Berg também complicava a vida do City, que talvez tenha entrado no Aspmyra Stadion com a mentalidade completamente errada.
Hauge leva torcida do Aspmyra Stadion ao delírio
Isso permitiu ao Bodo aplicar 271 pressões altas nos primeiros 45 minutos – o maior número de qualquer time no primeiro tempo de um jogo de UCL nesta temporada.
O City havia perdido os dois últimos jogos de Champions League em que saiu atrás no intervalo, mas tinha evitado a derrota nos sete anteriores (4 vitórias e 3 empates), então havia motivos para otimismo quando as equipes voltaram do intervalo.

Com Rodri comandando o meio-campo com sua precisão habitual nos passes, e Rayan Ait-Nouri também registrando impressionantes 96,1% de acerto, parecia questão de tempo para o City diminuir o placar.
Mas, quando o jogo se aproximava da marca de uma hora, Hauge brilhou. Cortando da esquerda para o meio, ele acertou um lindo chute colocado no ângulo, marcando o gol mais bonito da partida e seu quarto na competição.
Para dar contexto ao gol, o Bodo se tornou apenas o sexto time a abrir três gols de vantagem em um jogo de UCL contra o City, depois de Bayern de Munique (out 2013), Barcelona (out 2016), Liverpool (abr 2018), Sporting CP (nov 2024) e Real Madrid (fev 2025).
City não estava pronto para a batalha
Dois minutos depois, Rayan Cherki deu esperança aos visitantes com um chute de longe, mas mesmo com suas oito ações na área do Bodo (e mais sete de Tijjani Reijnders), o City não conseguia se impor como coletivo.
O time ainda piorou quando Rodri recebeu dois cartões amarelos em apenas 53 segundos e foi expulso.
O chute de Hauge na trave quase transformou a derrota do City em goleada, e o time inglês precisa repensar sua postura em uma noite em que o toque de bola refinado não serviu para nada.

Quando jogadores como Reijnders e Rodri vencem apenas dois de seis e oito duelos individuais, respectivamente, fica claro onde o jogo foi decidido. O mesmo vale quando um time considerado azarão faz pelo menos 10 desarmes a mais no total.
Existe hora e lugar para jogar bonito, mas os melhores sabem quando é preciso arregaçar as mangas e lutar.
Parece que o City não entendeu o recado.

