No Catar, Ney Franco relata tensão da guerra no Oriente Médio: “Dentro do olho do furacão”

Ex-técnico de grandes clubes brasileiros, Ney Franco está à frente do Al-Hussein, da Jordânia
Ex-técnico de grandes clubes brasileiros, Ney Franco está à frente do Al-Hussein, da JordâniaAl-Hussein/X/Reprodução

O que deveria ser a busca por uma vaga inédita na semifinal da Champions League Two da Ásia transformou-se em uma jornada de apreensão e incertezas para o técnico Ney Franco e toda a delegação do Al-Hussein. O treinador brasileiro e seu elenco encontram-se retidos em Doha, no Catar, impossibilitados de retornar à Jordânia devido ao fechamento do espaço aéreo, reflexo da escalada do conflito militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o técnico Ney Franco detalhou a experiência de estar, literalmente, no "olho do furacão". O que deveria ser um momento de foco absoluto no planejamento tático para um dos grandes desafios da temporada, transformou-se em apreensão na madrugada do último sábado (31).

Confira a tabela da Champions League Two da Ásia

"Como a gente não está habituado com essa questão da guerra, a gente sempre vê isso de muito longe. De repente, você está dentro do olho do furacão", contou Ney Franco, experiente comandante brasileiro, com passagens por gigantes do país como Flamengo, Botafogo, São Paulo e Cruzeiro. 

Antes do início do conflito, Al-Hussein de Ney Franco (foto) liderava o Campeonato Jordaniano
Antes do início do conflito, Al-Hussein de Ney Franco (foto) liderava o Campeonato JordanianoAl-Hussein/X/Reprodução

No comando do Al-Hussein, da Jordânia — seu primeiro clube fora do Brasil —, Ney Franco nutria o desejo de voltar do Catar com um importante resultado sobre o Al-Ahli Doha, no jogo de ida das quartas de final da Champions League Two da Ásia. A partida estava marcada para esta terça-feira (3).

Porém, com a escalada do conflito, o confronto foi adiado, e Ney Franco, assim como toda a delegação do Al-Hussein, não possui previsão de deixar o Catar, já que tanto o aeroporto de Doha quanto o espaço aéreo do país encontram-se fechados.

"O Catar abriga o maior posto dos Estados Unidos no Oriente Médio, com a maior concentração de uma base americana. Essa base começou a ser contra-atacada pelo Irã. Então, hoje estamos em um país que também está totalmente envolvido na guerra por causa dessa base. Criou-se uma instabilidade, e nós estamos aqui no hotel. Com o conflito, o espaço aéreo foi fechado e nos encontramos em uma situação em que não conseguimos voltar para a Jordânia", explicou Ney Franco. 

Embora o hotel da equipe esteja em uma zona teoricamente mais segura, a distância não foi suficiente para abafar os ecos do conflito. O comandante brasileiro relatou que o silêncio da madrugada foi rompido por estrondos das explosões. 

"Existem situações neste momento: a primeira é a nossa preservação física e a dos atletas, por isso permanecemos no hotel. Estamos distantes de onde tudo está acontecendo, pois estamos longe da base. Mas, em alguns momentos, principalmente de sábado para domingo, escutamos algumas explosões de longe", revelou. 

"Agora, estamos no aguardo. Primeiro, para que essa guerra finalize, que tudo volte à normalidade e consigamos retornar à Jordânia. Esportivamente, temos um compromisso com o campeonato jordaniano. Estávamos na liderança da competição; está começando o terceiro turno e faltam 12 jogos para o término", prosseguiu o treinador. 

Al-Hussein aguarda retorno para dar sequência na disputa do campeonato nacional
Al-Hussein aguarda retorno para dar sequência na disputa do campeonato nacionalFlashscore

O adiamento interrompeu o ritmo de um time que sonha alto. No horizonte, o Al-Hussein vislumbra um confronto épico que pode colocar a equipe jordaniana frente a frente com estrelas mundiais.

"Ficamos na expectativa de retornar para casa, recomeçar o campeonato e esperar uma nova data para o confronto das quartas de final da Champions da Ásia. Existe uma possibilidade real de chegarmos a uma semifinal, que inclusive se desenha contra a equipe do Al-Nassr, que é o time do Cristiano Ronaldo e do Jorge Jesus. Estávamos muito envolvidos com esse jogo. Foi uma ducha de água fria, mas o mais importante agora é sairmos daqui e voltarmos para a Jordânia", ressaltou Ney Franco. 

Ney Franco durante coletiva de imprensa
Ney Franco durante coletiva de imprensaAl-Hussein/X/Reprodução

Treinamentos improvisados 

A comissão técnica do Al-Hussein vem fazendo o que pode para evitar que o time perca o condicionamento físico enquanto o período de retenção persistir no Catar. Mas Ney Franco é direto sobre a situação, que já começa a interferir no planejamento.

"Não existe previsão concreta (de retorno para a Jordânia). Isso afeta diretamente a preparação. Estamos há três dias treinando no hotel. Temos a sorte de estar em um local excelente, com uma boa academia, onde fazemos trabalhos físicos, mas não é a mesma coisa que o campo", contou.

"Hoje (segunda-feira) teríamos um treino em campo aberto às 20h30 (estamos seis horas à frente do Brasil), mas pouco antes de sairmos, o treinamento foi cancelado por orientação de segurança. Isso prejudica o trabalho técnico e prático", lamentou o treinador.

Al-Hussein está impossibilitado de realizar treinos em campo aberto
Al-Hussein está impossibilitado de realizar treinos em campo abertoAl-Hussein/X/Reprodução

A iminência do conflito armado já era uma preocupação das federações locais. Na fase anterior da Champions League Two da Ásia, o Al-Hussein havia eliminado o Esteghlal, do Irã, em uma eliminatória cujas condições já refletiam a tensão: a primeira partida, com mando da equipe iraniana, foi realizada em Dubai, nos Emirados Árabes, e não em sua sede original, Teerã.

"Há duas semanas eu estive em Dubai porque as oitavas de final foram contra uma equipe do Irã, o Esteghlal. Na época, já existia essa tensão, tanto que a confederação marcou o jogo de ida em Dubai. Ganhamos por 1 a 0 lá e depois vencemos por 3 a 2 na Jordânia", disse Ney Franco.

"Ali já se desenhava essa possibilidade (de guerra), que se confirmou agora. Entendemos que a região é vulnerável por esse histórico, mas percebemos que o país (Catar) é protegido por um "domo" tecnológico que intercepta os mísseis. Ficamos frustrados por não jogar, mas a prioridade agora é a nossa saída do país assim que o aeroporto reabrir", reforçou o técnico brasileiro. 

Jogos paralisados na Jordânia ao soar das sirenes 

Na Jordânia, país onde está sediado o Al-Hussein, o campeonato local não foi adiado pelas autoridades. Ney Franco explicou que o país não vem sofrendo ataques diretos, mas a grande preocupação é o fato de o território ser rota dos mísseis disparados pelas nações em conflito.

O maior risco é a queda de destroços desses projéteis que, inclusive, já atingiram a cidade onde o treinador mora. A rotina do futebol local foi adaptada a protocolos de guerra: os jogos são interrompidos ao som de sirenes antiaéreas e os atletas precisam buscar refúgio nos vestiários até que o espaço aéreo seja considerado seguro.

"O que acontece é que o Irã está lançando mísseis contra Israel e esses projéteis, para chegarem ao destino, passam pelo espaço aéreo da Jordânia. Inclusive, passam em cima da cidade onde eu moro, Irbid, que fica ao norte e faz fronteira com Israel", relatou o treinador.

Al-Hussein é o primeiro clube estrangeiro da carreira de Ney Franco
Al-Hussein é o primeiro clube estrangeiro da carreira de Ney FrancoAl-Hussein/X/Reprodução

"Quando esses mísseis são lançados, existe a contraofensiva para abatê-los. O que acontece muito na Jordânia é que, quando são interceptados, os destroços caem dentro do país, principalmente na cidade do Al-Hussein", continuou. 

"O campeonato lá não parou, mas a primeira rodada após o início desse agravamento da guerra ocorre esta semana. Os jogos, por medida de segurança, são realizados sem torcida e, quando necessário, a sirene toca. Se o radar capta algum míssil, a sirene toca, o jogo é paralisado, os atletas vão para os vestiários e aguardam. Ontem (domingo, dia 1º de março), no jogo do Al-Faisaly, aconteceu isso: aos 30 minutos do segundo tempo a sirene tocou, o jogo parou e depois continuou. A precaução é necessária porque os destroços acabam caindo dentro das cidades", explicou. 

Conflito não impede desejo de Ney Franco

Apesar da tensão na região, Ney Franco não tem em mente um retorno ao Brasil. A família do treinador encontra-se em segurança, em Ipatinga, Minas Gerais, recebendo todas as informações necessárias e tranquilizada pela situação, ao menos momentânea, de segurança na Jordânia. 

Ney Franco recebe o apoio dos torcedores do Al-Hussein na Jordânia
Ney Franco recebe o apoio dos torcedores do Al-Hussein na JordâniaAl-Hussein/X/Reprodução

Com o Al-Hussein vivendo uma temporada extremamente positiva, o técnico brasileiro deseja cumprir seu contrato até o fim e sonha com a possibilidade de títulos. 

"Estamos muito bem em três competições: lideramos o campeonato nacional, estamos nas quartas da Champions da Ásia e nas quartas da Copa da Jordânia. Esportivamente, quero muito finalizar o trabalho e lutar por títulos", projetou.

"Mas, logicamente, a prioridade é a preservação física. Sinto-me protegido e em momento nenhum pensei em retornar ao Brasil por causa da guerra. Minha esperança é que a paz seja encontrada o mais rápido possível, o que será bom para o mundo inteiro, tanto pelas questões humanitárias quanto pela economia mundial", finalizou o treinador.