Mesmo antes da classificação para a Champions League, o Sabah já havia feito história ao conquistar a dobradinha nacional, vencendo tanto a Premier League azeri quanto a Copa do Azerbaijão.
Mas a história mais fascinante não está só dentro de campo, mas também no banco de reservas. Grande parte desse milagre se deve a um técnico único, chamado Valdas Dambrauskas. O treinador lituano de 49 anos nunca foi jogador profissional. Em vez disso, ele deu o pontapé inicial no sonho de ser técnico participando da edição lituana do programa "Quem Quer Ser um Milionário?". Ele usou o dinheiro ganho na TV para se mudar para a Inglaterra e estudar o futebol do zero.
Antes de chegar ao Sabah, Dambrauskas levantou troféus na Lituânia, Letônia, Croácia e Bulgária. Agora, ele conseguiu o impossível: destronar o domínio de longa data do Qarabag no Azerbaijão.
Em entrevista exclusiva para o Flashscore, o treinador revela a história por trás do milagre do Sabah, sua filosofia de futebol e explica sua trajetória e ambições no futebol.
Confira a entrevista:
• Flashscore: É tudo verdade que 'Quem Quer Ser um Milionário' permitiu que você começasse sua carreira de treinador?
Dambrauskas: Fui para esse programa para competir e me divertir. Desde os 12 anos, quando percebi que não seria jogador profissional, já sabia que queria ser técnico de futebol.
Aconteceu que surgiu a possibilidade de me mudar para a Inglaterra. Fui para lá buscando uma vida melhor, mas com a ideia clara de tentar entrar no caminho da carreira de treinador de futebol.
Sou muito feliz por poder trabalhar com futebol e fazer disso minha profissão. Não sei dizer o que teria acontecido sem esse programa, mas acredito que teria encontrado um jeito de realizar meu sonho.
• Você faz parte daquele grupo de treinadores que nunca jogaram futebol. Como acha que isso influenciou sua abordagem?
Não posso dizer que isso seja uma vantagem. Ainda acredito que ex-jogadores têm uma posição inicial melhor. Eles têm respeito, mais contatos, sentem o ambiente do vestiário.
Porém, a função de treinador mudou muito ao longo dos anos e a profissão evoluiu. Hoje em dia, um técnico de futebol é muito mais do que um líder ou estrategista. Ele precisa entender de muitas coisas, como: preparação física, fisiologia humana, psicologia, gestão, finanças, administração, ser bom organizador, bom comunicador, analítico, às vezes até ator, sem falar do conhecimento tático.
Além disso, acredito que o aspecto mais importante é a inteligência emocional. Acho que jogadores que viram técnicos logo após encerrar a carreira nem percebem algumas dessas responsabilidades.
Treinadores que nunca jogaram futebol compensam essas lacunas estudando e aprendendo todos os dias. Eu trabalhei e continuo trabalhando diariamente para melhorar. Meu maior medo é parar de aprender e de evoluir.

• Como você aprendeu a ser técnico na Inglaterra?
Desde o dia em que cheguei, tudo girava em torno do sonho de ser treinador de futebol. Foi por etapas. Primeiro, aprender o idioma. Depois, me inscrever no curso de Treinador Nível 1. Depois, no curso de Treinador Nível 2. Depois, ganhar experiência com meu primeiro treino no futebol de base.
Depois, conseguir um emprego em alguma academia de clube profissional ou semiprofissional. Depois, fazer faculdade de Ciências do Esporte e Treinamento. Fui a todos os cursos e conferências possíveis para me aprimorar.
Depois, comecei a sonhar e planejar como conseguir um emprego no futebol profissional. Eu sabia que na Inglaterra seria impossível, mas teria uma chance no meu país.
• Quais são os pilares do seu futebol ofensivo e moderno? Quem te inspira?
Gosto de marcar gols. Se uma palavra pode definir meu estilo, seria dominação. Não tenho medo de correr riscos. O melhor resultado para mim seria 4 a 3, com quatro jogadores diferentes marcando e quatro dando assistência. Imagina o vestiário depois de um jogo assim?
Por isso, gosto de times e técnicos que seguem essa linha. Isso muda, claro; já fui fã do Arsenal do Arsene Wenger, Marcelo Bielsa, Ralf Rangnick, etc. Aprendo muito com outros esportes também, especialmente basquete, futebol americano, rúgbi, hóquei no gelo... Às vezes acho que aprendo ou tiro mais ideias de outros esportes do que do próprio futebol.
• Por que te chamam de Mourinho lituano? Você gosta do apelido?
Acho que esse apelido não pegou. Talvez há um tempo, porque nem eu nem o José Mourinho tivemos carreiras relevantes como jogadores.
• Que emoções você sente ao olhar para sua trajetória no Sabah?
Foi realmente um ano incrível. No campeonato local, havia um grande time do FC Qarabag, que fez muito barulho na Champions League na temporada passada.
Eles ganharam o campeonato do Azerbaijão 12 vezes nos últimos 13 anos e, por 13 anos seguidos, se classificaram para competições europeias. Aprendemos com eles; eles nos fizeram melhores. Cada jogo entre nós era um duelo de altíssimo nível tático, mental e técnico.
Ganhar um campeonato, uma copa e se classificar para a fase de grupos da Champions League em uma temporada é algo inimaginável. É fruto de muito trabalho de todos no clube, do faxineiro ao presidente.
A maioria dos clubes fala em trabalho em equipe, mas pela minha experiência, já que trabalhei em dez clubes diferentes, poucos realmente praticam isso. A força do FC Sabah está justamente aqui: todo mundo no clube faz sua parte e puxa para o mesmo lado.
• Qual é a ambição do Sabah na Champions League?
Antes de tudo, para nos testarmos e competir contra os melhores. Não é só empolgação, mas também uma grande responsabilidade e uma oportunidade. É muito importante para o crescimento do clube. Só podemos crescer individualmente e como time. Queremos aproveitar essa chance.
