
Aos 49 anos, depois de duas passagens pelo time principal dos Encarnados e uma pelo Estoril, Veríssimo admite ser hoje um treinador muito diferente daquele que começou a trajetória no Benfica Campus, o centro de formação do clube. Em entrevista exclusiva ao Flashscore, ele fala sobre o equilíbrio entre formar e vencer, a evolução do argentino Gianluca Prestianni, a relação com Marco Silva e o momento mais difícil da carreira: o primeiro treino no comando do time principal, no dia em que soube da morte da mãe.
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Em Portugal, os times B dos grandes clubes disputam a Liga 2, a segunda divisão nacional, e enfrentam equipes profissionais com elencos bem mais experientes. É nesse ambiente que Veríssimo tenta preparar os jovens não só para a oportunidade, mas principalmente para estarem prontos quando ela aparecer.

Flashscore: Você está ligado ao time B do Benfica praticamente desde o renascimento do projeto. Qual balanço faz dessa experiência?
Nélson Veríssimo: Sinceramente, não tinha noção de quantos anos já se passaram desde que estou nesse contexto de time B. O que sei é que fui um felizardo. Fiz uma carreira interessante como jogador, com cerca de 200 jogos na primeira divisão, e tive a chance de continuar no futebol quando parei.
Lembro perfeitamente do meu último jogo, um Oriental x Mafra. No dia seguinte, deixei de ter minha rotina de jogador profissional. Felizmente, recebi uma ligação do António Carraça, que me apresentou o projeto de volta do time B e a intenção de ter alguém com o meu perfil como auxiliar.
Passei direto de jogador para treinador, mas, mesmo assim, foi uma sensação estranha. Percebi que uma coisa é pensar o jogo como jogador e outra completamente diferente é pensá-lo como treinador. Tive a sorte de trabalhar com Norton de Matos, Hélder Cristóvão e, depois, Bruno Lage. Todos me deram o tempo necessário para crescer, aprender e observar. Mas a construção do treinador Nélson Veríssimo começou antes, com a preparação que fui fazendo na faculdade e no curso de treinadores.
O treinador que sou hoje não tem nada a ver com aquele que assumiu o time B pela primeira vez. Comparado ao auxiliar que começou este projeto, a diferença é da noite para o dia. É importante poder errar, reconstruir e evoluir com as experiências que vamos acumulando. Depois, temos a oportunidade de colocar nossas próprias ideias dentro da ideia geral que existe no Benfica. Tudo isso faz parte do processo.

Você treinou o time principal do Benfica e o Estoril. Essas experiências mudaram a forma como você vê os jovens que tentam chegar ao profissional?
Acima de tudo, me fizeram entender a diferença entre teoria e prática. No time B, temos um pé na formação e outro no futebol profissional. Aqui ainda existe alguma margem para erro, tanto dos jogadores quanto da equipe. No time principal, essa margem é muito menor. Num clube da primeira divisão, o treinador espera rendimento.
Por isso, precisamos criar ambientes de treino muito parecidos com os do time principal, para que os jogadores tenham mais ferramentas quando a oportunidade surgir. Os jogadores buscam muito a oportunidade, mas depois precisam estar preparados. E estar pronto exige tempo, é resultado do trabalho diário. Lembro de uma conversa com Carlos Manuel sobre a importância da primeira impressão. É ela que dá ao treinador motivos para dar sequência ao jogador. Porque, fora deste contexto, o futebol é rendimento, rendimento e rendimento.
Um jogador pode ir muito bem no time B e, mesmo assim, não estar pronto para o principal. O que separa esses dois patamares?
É fundamental ouvir o retorno dos treinadores do time principal, porque uma coisa é a resposta na segunda divisão, outra é como o jogador reage quando é testado contra os melhores. Em geral, o retorno é positivo: além do potencial, eles se destacam pela mentalidade e pela competitividade.
Tivemos exemplos recentes, como João Neves e Gonçalo Ramos, que tiveram a chance e corresponderam. Mas há outros caminhos. Às vezes, o jogador precisa passar por um contexto intermediário, como aconteceu com Tomás Araújo, que jogou no Gil Vicente, voltou ao Benfica e deu resposta. Temos de olhar caso a caso. Cada jogador é uma pessoa diferente, com características e necessidades próprias.

Como você administra as expectativas de um jogador de 18, 19 anos que vê colegas subindo para o principal e se pergunta quando será a vez dele?
Não é fácil. Estou com eles em campo no máximo 90 minutos. No resto do tempo, estão com pais, amigos, empresários e tudo o que isso envolve em termos de expectativa. Hoje, os jovens vivem muito o amanhã, pela velocidade com que a informação circula. Sabem em que clube está o colega, quanto ganha, que contrato tem.
Nosso desafio é trazê-los de volta para a terra: viver o presente, porque o amanhã é consequência do trabalho de hoje. O foco é no que eles controlam: treino, academia, nutrição e descanso. Já tivemos jogadores que foram chamados ao time principal, treinaram por um tempo lá e depois voltaram. Aí surge outro desafio: entender qual jogador saiu e qual jogador voltou.
Alguns voltam do mesmo jeito. Outros voltam diferentes, porque interpretam o retorno como sinal de que não aproveitaram a oportunidade. E muitas vezes essa leitura está errada. Podem ter ido muito bem, mas o contexto mais adequado naquele momento continua sendo o time B.
Essa gestão emocional é uma das partes mais difíceis do seu trabalho?
O treinador é cada vez mais um gestor de sensibilidades. Há alguns anos, meu foco era o que acontecia dentro das quatro linhas e a preparação do treino. Hoje existe toda essa gestão de expectativas, e no fim do dia todos precisam estar indo na mesma direção. É natural que todos queiram jogar, mas a equipe vem antes. Há valores dos quais não abro mão: capacidade de trabalho, espírito de grupo e mentalidade competitiva forte.
E não dá para jogar essa responsabilidade só para a psicologia. A sensibilidade do treinador conta muito. Alguns jogadores reagem sozinhos, outros precisam de uma palavra do técnico principal e, em alguns casos, é um auxiliar que tem mais proximidade quem faz isso.
Uma pergunta provocativa: o que dá mais satisfação, vencer um jogo importante ou saber que um jogador seu foi chamado ao time principal?
É difícil. Sei que o esperado seria dizer que a estreia de um jogador no time principal. Mas as duas coisas importam. Meu discurso é focado no desenvolvimento dos jogadores, essa é a nossa base, mas também trabalho com homens, e eles esperam que a equipe chegue ao fim de semana competitiva e faça tudo para ganhar. Vencer e, ao mesmo tempo, lançar um jogador no time principal também é uma vitória. Agora, sem dúvida, cada estreia no time principal é uma grande vitória.
No último jogo, contra a Académica, o Benfica B teve média de idade de 19,36 anos, contra 27,18 do adversário. Como se prepara um time tão jovem para essa exigência?
E para pontuar! Competir e somar pontos. Acreditamos que a Liga 2 é o contexto ideal para desenvolver nossos jogadores. É um grande desafio, porque na base eles passam a maior parte do tempo com a bola, pouco expostos ao momento defensivo, e enfrentam adversários da mesma idade.
Contra a Académica, encaramos jogadores que tinham idade para ser pais de alguns dos nossos. Há dois anos, jogamos contra o AFS e lembro bem do Nenê, com 41 anos. Perdemos por 1 a 0 e, no fim, fui parabenizá-lo pela vontade e competitividade.
Por isso, desde o início da temporada colocamos os jogadores em situações de desconforto, para que se adaptem o mais rápido possível. Ainda assim, é um choque. Eles enfrentam jogadores mais maduros, que conhecem mais o jogo e às vezes tentam entrar na cabeça dos nossos e provocar desequilíbrio emocional.

E isso aparece nos resultados...
Na temporada passada, provavelmente aquela em que terminamos com menos pontos e numa posição mais baixa, só vencemos pela primeira vez na oitava rodada. Em 32 das 34 rodadas, tivemos a equipe mais jovem em campo.
Naquela oitava rodada, em Santa Maria da Feira, passamos de um 4-2-3-1 para um 5-4-1, para ganhar consistência defensiva, liberar os jogadores da frente e nos expor menos nas transições.
Deu certo, sempre em sintonia com a direção técnica e com o técnico do time principal na época, José Mourinho. Houve quem achasse que isso contrariava a estrutura habitual das equipes do Benfica, mas tomamos essas decisões porque acreditamos que ajudam os jogadores individualmente, melhoram a equipe e contribuem para algo muito importante: somar pontos.
Talvez as pessoas não valorizem o suficiente o que aconteceu, mas foi um ano muito difícil. No fim, cumprimos nosso principal objetivo.

Então há liberdade para adaptar o sistema às características do elenco?
Temos de ter a capacidade de olhar para a individualidade dos jogadores. Existem grandes princípios que têm de estar presentes: ser um time com bola, que pressione. Esse é o DNA. A nossa missão enquanto treinadores é conhecer o jogador individualmente e perceber quais são os comportamentos que lhe permitem ter um rendimento mais alto. A partir daí, ajustamos.
Em 2023/24, começamos num 4-3-3 tradicional e, na oitava rodada, mudamos para o 4-2-3-1, pela capacidade dos nossos meio-campistas de construir de frente. Na temporada seguinte, montamos um quadrado no meio, com Prioste e Veloso mais atrás e João Rêgo e Hugo Félix mais à frente. No ano passado, veio a linha de cinco. Essas nuances têm um porquê: a individualidade dos jogadores. Essa alteração foi compartilhada e validada pela direção técnica e, na época, por Mourinho.
Com tantos jogadores subindo e descendo, como trabalhar uma ideia de jogo?
Vamos treinando com quem temos disponível. Quando não há jogadores suficientes para trabalhos coletivos, fazemos exercícios por setor. Se o número for ainda menor, trabalhamos o individual.
Neste patamar, devemos potencializar as principais qualidades de cada um, mas também identificar as dificuldades, e não só na parte técnica: capacidade de decisão e leitura de jogo também. Um ou dois dias antes da partida, tentamos reunir o maior número possível de jogadores para trabalhar as questões estratégicas.

Olhando para um jogador de 18 ou 19 anos, dá para saber rápido se ele vai chegar ao mais alto nível?
Não, não é tão linear. Há jogadores que causam boa impressão ao chegar ao time B e depois confirmam essa avaliação. Lembro do João Carvalho, hoje no Estoril. Quando chegou, pensamos: "Que jogador é esse?". Era diferenciado, com facilidade no drible, qualidade de passe e de finalização e grande capacidade de decisão em espaço curto e sob pressão.
O João Neves também causou essa boa primeira impressão. Mas a prática é o critério da verdade. Também há jogadores que passam meio despercebidos e depois constroem uma carreira diferenciada, como o Alexandre Penetra. Cada jogador tem seu tempo, e as circunstâncias influenciam muito.
Lembro, por exemplo, do Renato Sanches. Estreou pelo time B em Santa Maria da Feira e foi o pior jogo que o vi fazer. Recebia a bola e perdia, errava passes e domínios. Mas o que o diferenciou naquele momento? Nunca se escondeu. Perdia a bola e voltava a pedir. Assumia a responsabilidade. Isso também é um indicador importante, porque mostra como o jogador reage ao erro e à adversidade.
Também lembro do Rúben Dias. Se olharmos para o percurso dele na base, provavelmente houve momentos em que nos perguntamos se ele chegaria ao nível em que está hoje. Por isso, não dá para considerar a evolução de um jogador um processo linear.

Nos últimos tempos, Daniel Banjaqui, José Neto e Anísio, três jogadores muito jovens, também se destacaram nas seleções de base de Portugal. Esses casos inspiram os demais?
Acima de tudo, servem de inspiração porque mostram que o caminho é possível. Temos exemplos como Samuel Soares e Tomás Araújo, que vieram da base e hoje estão no time principal. A porta está aberta, mas isso não significa que o caminho seja fácil.
O Banjaqui ainda era sub-17 na temporada anterior à chegada ao time B, e optamos por integrá-lo direto. O José Neto foi para o sub-23 e o Anísio passou praticamente a temporada toda no sub-19 antes de dar o salto. Os três acabaram jogando no time principal, com trajetórias diferentes.
São exemplos que mostram aos outros que é possível, mas é um caminho exigente, que pede foco, mentalidade e capacidade de lidar com a adversidade. Jogar no Estádio da Luz diante de 60 mil pessoas é completamente diferente de jogar no campo principal do Benfica Campus para mil torcedores.

Gianluca Prestianni chegou da Argentina e fez os primeiros jogos em Portugal justamente no time B, com você. Pelo que ele mostra hoje, está surpreso com a evolução dele?
Não. Acho que quem conhece o Prestianni não está surpreso. Quando começaram a falar na possibilidade de contratação, procurei conhecer melhor as características dele e senti que estávamos diante de um jogador diferenciado.
Naturalmente, era muito jovem, vinha de outro clube e de um contexto completamente diferente. Precisava de tempo e espaço para se adaptar e evoluir. Nos jogos pelo time B, começou a dar sinais muito positivos, mas no início eram mais intermitentes: lances que mostravam claramente sua qualidade, mas também momentos em que sumia do jogo.
Na reta final pelo time B, já dava para perceber que estava num patamar diferente, fazia a diferença. O que ele mostra nesta temporada é consequência natural da sua qualidade, mas também do trabalho que os treinadores fizeram com ele. Tem mostrado que pode ser muito importante e vive um momento muito bom, com e sem a bola.

Como é sua relação com Marco Silva, técnico do time principal?
Tem sido muito boa. O Marco começou a temporada praticamente já em competição, o que dificultou, mas mostrou muito interesse em conhecer os jogadores e a dinâmica do time B. Conhece o futebol português e já conhecia essa relação entre os times A e B. Temos ligação direta por telefone e também por outras vias, como Ricardo Rocha e Simão Sabrosa. Ele já foi ver um jogo do time B ao vivo. Sentimos um interesse genuíno pela forma como os jogadores estão sendo desenvolvidos.
Você falou em "DNA Benfica". O que isso significa?
É sentir que representar o Benfica é representar um clube com uma história enorme, e isso implica comportamentos. Com a bola, queremos ser agressivos, de olho no gol adversário, com um futebol apaixonante, que empolgue as pessoas e dê liberdade para os jogadores criarem. Hoje, sentimos que o futebol está meio formatado. Sem a bola, queremos reagir rápido na perda e recuperá-la o quanto antes, com bloco médio-alto.
Tive um treinador que dizia que seu sonho era ver um jogo de um time do Benfica sem a camisa e, só pelo jeito de jogar, reconhecer que era o Benfica. É essa identidade que buscamos passar aos jogadores.

Você está chegando aos 50 anos. Que Nélson Veríssimo encontramos hoje?
Estou bem comigo mesmo. Quando jogava no Alverca e via os diretores fazendo 50 anos, achava que já eram velhos. Hoje, estou chegando lá com muita energia. Sou um treinador diferente, gosto de estar aqui e estou muito empenhado no time B. Qualquer treinador quer continuar crescendo, e isso pode passar por outros projetos, mas não vivo obcecado com isso. Quando digo aos jogadores para olharem para o hoje e não para o amanhã, é também o que eu faço.
O que pensa hoje das passagens pelo time principal do Benfica?
Foram contextos muito específicos. Na segunda passagem, houve um espírito de missão num ano difícil para o clube. Foi também um momento muito difícil para mim, porque fui dar o primeiro treino no time principal no dia em que soube que minha mãe tinha morrido. Coloquei uma pedra no coração e me concentrei na missão.
Não posso considerar essas passagens positivas, porque treinar o Benfica é ganhar títulos. Ainda assim, chegamos a uma final da Taça da Liga e às quartas de final da Champions League, depois de eliminar o Ajax. Caímos para o Liverpool, mas demos uma grande resposta em Anfield e na Luz. Também mantivemos a aposta no Gonçalo Ramos e lançamos Tiago Gouveia, Sandro Cruz, Martim Neto e Diego Moreira. O próprio Darwin Núñez fez uma reta final muito boa e acabou vendido ao Liverpool.

E no Estoril?
Foi um ano de reformulação, com muitos jogadores chegando e saindo. Começamos bem, tivemos uma queda e a volta não correspondeu às expectativas. Aí aconteceu o futebol: o presidente e o treinador conversaram e a decisão foi a minha saída. Deixei muitos amigos lá.
Depois, voltei ao time B. As pessoas perguntam: "Mas por quê?" E eu digo: por que não? Não acho que existam treinadores de primeira, segunda ou terceira divisão. Existem treinadores. Um dia, provavelmente, darei outro passo. Se será na primeira divisão portuguesa ou no exterior, não digo nem que sim nem que não.
Ver jogadores com quem trabalhou brilhando em outro patamar são "pequenas grandes medalhas" da sua carreira?
Tive uma pequena contribuição. Às vezes dizem que o Nélson Veríssimo lançou o Gonçalo Ramos, o Diego ou o Gouveia. Mas eu dou a cara e, por trás, há o trabalho de muita gente: quem descobriu o jogador, a nutrição, a psicologia e todas as outras áreas. Quando vejo um Gonçalo Ramos, ou um Tiago Santos e um João Marques, com quem trabalhei no Estoril, nesse nível, claro que me enche de orgulho e me motiva a continuar.

Daqui a 10 anos, o que gostaria que os jogadores que passaram por suas mãos dissessem sobre você?
Gostaria que me vissem como alguém que contribuiu para o crescimento deles, não só no esporte, mas também como pessoas. O treinador, além de formar o jogador, forma o homem. Que lembrassem de mim como alguém que, compartilhando experiências e conversando sobre a vida, os ajudou a tomar boas decisões dentro e fora do campo.
O futebol te deu muito e também deve ter tirado algumas coisas. Se ele fosse uma pessoa e você pudesse falar diretamente com ele, o que diria?
Deu mais. O futebol sempre dá mais do que tira. Eu diria para continuar espalhando magia. Acho que o futebol, mais do que ciência, é arte. E a essência dele é o jogo e os jogadores.
O futebol chega a lugares onde outras atividades não conseguem chegar. Tem um papel social enorme, não só dentro das quatro linhas, mas também pela capacidade de gerar opinião e chamar atenção para o que acontece no mundo. Quando essa exposição é usada de forma positiva, a humanidade ganha.
É o prazer de ver uma criança no estádio admirando um jogo, um jogador ou um passe. É admirar a multidão que lota um estádio para aplaudir ou empurrar o time nos momentos mais difíceis. O futebol é um jogo de emoções, um espetáculo que chega a muita gente. Tudo isso é magia, a magia do futebol. E temos de usar essa magia de forma positiva.
