O Benfica de Mourinho já tem uma identidade clara e comportamentos que são inegociáveis para o treinador português. Desde que chegou ao Estádio da Luz, o Special One vem montando um time que pressiona alto com intensidade, é pragmático ao atacar o gol e se mantém compacto na defesa.
Com cinco meses e 30 jogos no comando, a ideia de "morder os calcanhares do adversário" foi bem assimilada pelos jogadores, e os últimos três jogos são o reflexo mais claro dessa fome por futebol ofensivo.
Os 29 chutes contra o Alverca, 24 diante do Tondela e 22 contra o Real Madrid são números impressionantes e, como o próprio Mourinho já admitiu, só está faltando um pouco mais de eficiência nas finalizações. Ainda assim, o conceito está bem estabelecido e não se resume apenas a recuperar a bola.

Exigente na defesa
Tendo atuado em 114 partidas sob o comando de Mourinho, Willian relembra algumas ideias do treinador. No Chelsea, ele organizava os pontas de forma diferente para garantir equilíbrio defensivo sem abrir mão de ter jogadores prontos para atacar assim que a bola fosse recuperada.
"O Mourinho era muito exigente no trabalho defensivo do time, mas sempre buscava equilibrar mais um lado do que o outro. Por exemplo, no Chelsea, lembro que o Hazard ficava mais avançado quando a gente estava defendendo, e eu recuava um pouco mais. Ele não fazia os dois pontas voltarem ao mesmo tempo para acompanhar o lateral adversário."

"Um recuava mais enquanto o outro ficava mais à frente, assim, quando recuperávamos a bola, principalmente na transição, já tinha jogador em posição avançada para atacar. Se os dois pontas recuam, o time recupera a bola muito longe do gol adversário. Então, ele era muito exigente defensivamente, mas sempre com uma estratégia bem definida," explicou o brasileiro, que hoje defende o Grêmio, em entrevista exclusiva ao Flashscore.
No Campeonato Português, por exemplo, o Benfica tem a melhor média de recuperações de bola no campo adversário (5,8 por jogo). A marcação alta empurra os adversários para o próprio campo de defesa e obriga a jogar mais rápido e com lançamentos longos. Isso tem acontecido contra times de todos os níveis, de Alverca e Tondela até o Real Madrid na Champions League.

Mais do que manter a posse, o time de Mourinho quer ditar onde o jogo vai acontecer, muitas vezes conseguindo isso longe da própria área.
Na Champions League, as Águias estão entre os quatro melhores times em recuperações de bola no ataque, com 6,1 por jogo, atrás apenas de Athletic Bilbao, PSG e Olympiacos.
Pressionar no campo adversário faz parte do DNA de Mourinho: um time que joga adiantado, é agressivo no portador da bola e transforma recuperações em chances imediatas, levando o jogo para perto do gol rival e aumentando as chances de criar perigo logo após recuperar a posse.

"O Mourinho é um treinador de altíssimo nível. Sempre foi alguém que sabe como gerir o elenco todo, e a gestão de grupo dele era — e ainda é — muito boa. Ele era respeitado por todos e tinha grande influência tanto no vestiário quanto no clube. Além disso, é muito inteligente e sabe como tirar o melhor de cada jogador," elogiou Willian.
"Nunca vi ele perdido: sempre sabia exatamente o que precisava ser feito, como o time tinha que jogar, defender e atacar. Não era um técnico que ficava horas no gramado trabalhando tática; às vezes, 10 minutos bastavam para os jogadores entenderem exatamente o que ele queria para o jogo. Sem dúvida, é um treinador excepcional", completou.

Atacantes defensores
Seja em Portugal ou na Champions, o princípio é o mesmo: pressionar o adversário desde o primeiro minuto. Para Mourinho, os atacantes também são os primeiros defensores, e a organização defensiva começa lá na frente. Essa abordagem tem se refletido nas atuações de Prestianni e Schjelderup, que evoluíram claramente na capacidade de pressionar, fechar linhas de passe e atrapalhar a saída de bola adversária desde o início.
Mesmo com essa resposta positiva, o treinador benfiquense segue focado em ajustar timings e a coordenação coletiva, buscando um time cada vez mais agressivo ao pressionar a saída rival, mais próximo do gol adversário e, por isso, mais letal.

A ideia é reduzir o espaço e o tempo do portador da bola, forçando erros em zonas perigosas e transformando recuperações em chances imediatas de gol.
Quando a pressão funciona, o Benfica comprime o campo, se instala no ataque e ataca com a linha defensiva alta, criando um efeito sufocante que prende o adversário perto da própria área. É nesse território que o time de Mourinho busca decidir os jogos.

Além das ideias táticas, Willian destaca a relação direta que Mourinho mantinha com o grupo e a forma transparente como se comunicava com os jogadores.
"Ele era um treinador muito exigente, sempre cobrando dos jogadores e falando abertamente. Se a gente jogava bem, ele falava na lata; se não jogava, também falava. Era uma pessoa muito honesta," conta.
"Tenho uma história com ele de um jogo contra o PSG, em 2014 se não me engano. Perdemos por 3 a 1 em Paris, e na volta ganhamos por 2 a 0, com o segundo gol saindo no finalzinho. Nesse jogo, perdi uma disputa para o Cavani, o Mourinho ficou bravo e me cobrou, e acabamos discutindo. Depois, em outro lance, recuperei a bola e fiz uma boa jogada; no fim do jogo, ele veio e me abraçou. Era assim: cobrava quando precisava, mas também sabia reconhecer o bom trabalho. Só tenho coisas boas para falar dele. Foi um treinador de quem aprendi muito e por quem tenho grande admiração. Para mim, foi o melhor técnico que já tive", revelou o ex-meia do Corinthians.

