Durante anos, o Monaco representou um raro equilíbrio no futebol moderno: um clube capaz de competir esportivamente com gigantes europeus, mantendo-se ao mesmo tempo como uma incubadora de talentos e um protagonista no mercado de transferências.
Confira a classificação da Ligue 1
Hoje, porém, a equipe vive uma ilusão: enquanto disputa a Liga dos Campeões, encontra-se a meio da tabela da Ligue 1, na 10ª posição antes da rodada 22, desta semana. Como é possível uma queda tão abrupta? Uma crise que mistura finanças, desempenho e identidade.
No centro das dificuldades dos monegascos está uma realidade que ultrapassa o clube e afeta todo o futebol francês. Com o fracasso do contrato Mediapro e a rescisão prematura do acordo com a plataforma DAZN, as receitas televisivas, durante muito tempo o pilar dos orçamentos dos clubes da Ligue 1, desmoronaram.
O Monaco perdeu cerca de 30 milhões de euros (R$ 185,9 milhões) em direitos televisivos em dois anos, uma quebra impressionante que obrigou a direção a reduzir as suas ambições financeiras e eesportivas. O CEO Thiago Scuro não escondeu a gravidade do problema.
"Todos, exceto o Paris Saint-Germain, estão em modo de sobrevivência,", afirmou, deixando claro que, neste contexto, investir forte para reforçar a equipe tornou-se praticamente impossível.
Milhões de lucro mas um mercado insuficiente
Apesar do Monaco ter garantido a presença na Liga dos Campeões no final da temporada anterior, o verão de 2025 não trouxe um reforço significativo. Pelo contrário. O clube optou por vender os seus talentos mais promissores para equilibrar as contas: Eliesse Ben Seghir, Wilfried Singo, Soungoutou Magassa e até Breel Embolo saíram, gerando mais de 100 milhões de euros de lucro líquido no mercado de transferências.
A estratégia, louvável do ponto de vista econômico, teve um preço dentro de campo. As contratações, apesar de promissoras no papel, têm dificuldade em compensar as saídas e garantir estabilidade a longo prazo. Paul Pogba jogou apenas 33 minutos esta temporada, passando o resto do tempo na enfermaria, entre novas lesões musculares e recaídas.

O mesmo aconteceu com Eric Dier, vindo do Bayern para trazer experiência à defesa, que participou em apenas 12 jogos em todas as competições, dos quais só três na Liga dos Campeões.
Ansu Fati também tem passado grande parte do tempo lesionado, e foi prejudicado pela chegada de Pocognoli, que prefere outros perfis. Mesmo tendo jogado apenas 28% dos minutos possíveis na Liga 1, continua surpreendentemente a ser o melhor marcador da equipe com 7 gols, muito à frente de Maghnes Akliouche e seus quatro.
Uma sequência negativa histórica
Na Ligue 1, os resultados seguem uma tendência preocupante. A equipe atravessa uma sequência de derrotas histórica: sete nos últimos nove jogos, algo inédito no clube, tanto na Ligue 1 como na Ligue 2, ilustrando a falta de regularidade e um mal-estar profundo.
A saída de Adi Hütter, substituído por Sébastien Pocognoli, marcou um ponto de viragem. Apesar do técnico belga ter tentado trazer novas ideias, a equipe perdeu a sua principal força: a pressão alta e agressiva. Com 33 gols sofridos em 21 rodadas, a defesa do Monaco tornou-se uma das mais vulneráveis entre as equipes do topo da tabela.
Pior ainda: o Monaco já não pressiona. As estatísticas de passes permitidos ao adversário antes de uma ação defensiva aumentaram, evidenciando uma passividade inédita. Com a ausência prolongada de Eric Dier devido a lesão, a zaga foi entregue a jovens sem referências, sofrendo em média 1,57 gol por jogo.
O posto de goleiro tornou-se o símbolo da falta de serenidade no Rocher. Lukas Hradecký, que chegou em agosto de 2025 com o estatuto de campeão da Alemanha para estabilizar a defesa, sofreu duas lesões graves no joelho. Não deve retornar antes de meados de março.

Na sua ausência, Philipp Köhn voltou a ser titular sem convencer totalmente (39 gols sofridos em todas as competições, apenas 8 jogos sem sofrer gols em 23 partidas). O clube só conseguiu 5 jogos sem sofrer gols nesta temporada da Ligue 1.
Do outro lado, na Liga dos Campeões, o Monaco ainda consegue mostrar um brilho – como no empate 2 a 2 contra o Manchester City ou no 0 a 0 contra a Juventus –, mas a dupla competição é difícil de gerir para um grupo com pouca profundidade.
O clube do Rocher vai disputar a sua sobrevivência em um mata-mata contra o Paris Saint-Germain, adversário que venceu no campeonato mas que poderá criar dificuldades nas eliminatórias.
A dança de treinadores e o "efeito Pocognoli"
Para além das dificuldades econômicas e esportivas, o Monaco também pagou o preço de uma instabilidade crônica no banco. Adi Hütter, que chegou em 2023, recolocou o clube no topo da tabela com dois pódios consecutivos e qualificações para a Liga dos Campeões.
Mas um início de 2025/26 considerado insuficiente precipitou a sua saída em outubro, após 93 jogos dirigidos (49 vitórias, 18 empates, 26 derrotas). Um registo sólido, mas uma dinâmica em perda. Para o substituir, a direção escolheu Sébastien Pocognoli, jovem treinador belga laureado com um título na Bélgica ao serviço da Union Saint-Gilloise.
Uma aposta ousada, mas arriscada. Desde a sua chegada, os números mostram as dificuldades de adaptação: nos seus primeiros 23 jogos em todas as competições, o Monaco soma 8 vitórias, 6 empates e 9 derrotas. Uma média de 1,30 ponto por jogo, longe dos 1,77 do seu antecessor.
Com Pocognoli, a equipe alternou algumas exibições encorajadoras com derrotas pesadas, incluindo uma goleada europeia por 6 a 1 contra um Real Madrid em crise. Ao ponto de já estar sob pressão e poder ser despedido caso não consiga inverter a situação. O clube está atualmente a 14 pontos do pódio, objetivo vital da diretoria.
Perigo econômico
Se os resultados esportivos estão caindo, é também porque o clube navega num nevoeiro institucional e financeiro sem precedentes. Desde o início de 2024, o proprietário majoritário Dmitry Rybolovlev iniciou uma "consulta estratégica" para vender a sua participação (66%).

Em fevereiro de 2026, esta incerteza pesa bastante. Apesar do clube ter atraído nomes grandes, a estratégia global parece privilegiar a valorização dos ativos (os jogadores) em detrimento da construção de um projeto estável a longo prazo.
As propostas vindas da Arábia Saudita ou dos Estados Unidos alimentam as conversas, mas a ausência de um comprador oficial cria um vazio de poder sentido até no vestiário. Apesar das vendas, o relatório da DNCG destaca um défice estrutural persistente. Excluindo transferências, as receitas do clube (bilheteira, patrocínios) cobrem apenas cerca de 75% da folha salarial.
Sem uma classificação regular para a Liga dos Campeões, missão que parece hoje impossível para 2027, o modelo econômico do Monaco arrisca uma crise violenta, podendo obrigar o clube a vender os seus últimos jogadores-chave já no próximo verão. E os torcedores começam a se preocupar ao ver o clube tão perdido.
Torcida revoltada
A tensão atingiu o auge no dia 7 de fevereiro, quando membros de torcidas organizadas forçaram a entrada no centro de treinamento do cluve. O grupo visou diretamente a direção esportiva: foram colocadas inscrições "Scuro Out" ("Fora Scuro" nas instalações, e o confronto com os jogadores teve que ser interrompido para evitar excessos físicos.
O Stade Louis-II tornou-se palco de contestação constante. Os grupos de torcida Ultras Monaco 1904 e CSM multiplicam ações simbólicas: greves de apoio durante os primeiros tempos, faixas viradas e exibição de bandeiras criticando a política de "trading" do clube.
Os torcedores denunciam uma perda profunda de identidade. Acusam Thiago Scuro de privilegiar a valorização comercial do elenco em detrimento da estabilidade técnica, e contestam abertamente a legitimidade de Sébastien Pocognoli, cujo registo é considerado inaceitável para as ambições do clube.

