Como dois sul-americanos reconstruíram um tradicional clube da Europa

Pedrosa no anúncio da aquisição do clube
Pedrosa no anúncio da aquisição do clubewww.ztefc.hu

O clube húngaro Zalaegerszegi está reescrevendo sua história sob a liderança de dois argentinos. Atualmente na 7ª posição da primeira divisão, a equipe, que escapou por pouco do rebaixamento na temporada passada, vive uma nova realidade após ser adquirida por empresários que transformaram o elenco com jovens sul-americanos e um comando técnico português.

Damian Pedrosa, um dos proprietários e CEO do clube, conversou com o Flashscore sobre o projeto. 

Confira a classificação do Campeonato Húngaro

A trajetória do empresário começou há quinze anos no Talleres de Córdoba, na Argentina. Convidado por um amigo para integrar um grupo de jovens gestores, Pedrosa escalou posições no clube até tornar-se Diretor de Operações. Sob sua liderança, o Talleres viveu uma ascensão meteórica, saltando da terceira divisão para a Copa Libertadores em apenas quatro anos.

Zalaegerszegi após vitória no Campeonato Húngaro em 2025
Zalaegerszegi após vitória no Campeonato Húngaro em 2025Franco De Franceschi

Embora classifique essa jornada como exaustiva, foi esse esforço que consolidou sua reputação no continente e permitiu que ele fundasse sua própria empresa de eventos, atraindo inclusive a atenção da CONMEBOL para a produção de torneios como a Copa Sul-Americana e a Libertadores.

Por que o Zalaegerszegi?

Após o sucesso na Argentina, Pedrosa e seu parceiro, Andres, buscavam um novo clube para gerir. Após explorarem mercados no Uruguai e na Itália, encontraram na Hungria uma oportunidade inesperada.

"No início, para ser honesto, parecia uma ideia meio maluca. Nós viemos da Argentina e era muito difícil até considerar um clube húngaro. Não conhecíamos a liga, o país, nem o idioma. Estudamos a fundo o país, o futebol, a liga, basicamente todos os aspectos que poderiam influenciar o projeto, e rapidamente passamos a enxergar como um grande desafio, mas uma ótima oportunidade", afirmou.

Maxsuell Alegria, ex-Vasco, é titular no ataque do Zalaegerszegi
Maxsuell Alegria, ex-Vasco, é titular no ataque do ZalaegerszegiFranco De Franceschi

"Encontramos um país muito aberto ao futebol e com uma infraestrutura difícil de encontrar até em países europeus bem maiores. Sempre dizemos que a infraestrutura na Hungria não deve nada às cinco principais ligas do mundo. Encontramos uma infraestrutura muito boa, bons estádios, um clube de qualidade, uma cidade excelente e uma liga que estava passando por um período de grandes mudanças. Isso pesou muito na nossa decisão", detalhou.

Contratação jovem e sul-americana

Uma das marcas da nova gestão é a aposta em jogadores de divisões inferiores do Brasil e da Argentina, muitas vezes subestimadas pelo mercado europeu.

"Por exemplo, a Série B do Brasil ou a segunda divisão argentina. Muitas vezes são vistas como de menor qualidade, mas há muitos jogadores ali que poderiam render muito bem em nossos países; falo do Leste Europeu. Às vezes penso que olheiros ou diretores esportivos nem olham para essas ligas, porque dizem: 'É segunda divisão, não têm experiência na elite'", disse.

"Mas trouxemos muitos jogadores talentosos que nem tinham muitos minutos nem na segunda divisão, e mesmo assim estão se saindo muito bem conosco. E o segundo ponto. Tudo é diferente – clima, idioma, cultura, música – então, depois de aceitar o risco de trazer jogadores que ainda não estão prontos, é preciso criar um ambiente em que se sintam à vontade para trabalhar e evoluir", completou.

A prioridade indiscutível para os empresários é implementar um clube de desenvolvimento de jovens jogadores. Propostos a criar o ambiente certo para poderem evoluir, encontraram um treinador preparado para o trabalho.

"Queremos ser um time criativo, inteligente no mercado de transferências, capaz de identificar jovens talentos em todo o mundo, trazê-los, desenvolvê-los, cuidar deles em todos os aspectos possíveis e, claro, negociá-los no momento em que a decisão seja boa para todas as partes", contou.

Gestão inteligente e pés no chão

Damian Pedrosa admite que o clube húngaro tem um dos menores orçamentos da liga e afirma: "certamente estamos entre os dois ou três mais baixos". Mas, para o argentino, assumir o Zalaegerszegi foi uma decisão consciente e planejada por aqueles que entendem que não é preciso gastar fortunas para ser competitivo.

"Acho que estamos mostrando isso. Estamos em 7º lugar e seguimos melhorando em desempenho. Nossas finanças, graças a Deus, estão cada vez mais estáveis, o que é extremamente importante para nós. Criar um clube financeiramente saudável não é nada fácil no mundo do futebol. Hoje, podemos dizer que estamos muito mais estáveis do que quando chegamos", explicou.

"Somos mais cuidadosos, mais responsáveis. Procuramos manter um orçamento baixo e ser criativos e inteligentes, em vez de seguir pelo caminho dos gastos irresponsáveis. Sempre buscamos a solução mais inteligente primeiro, e só depois avançamos", adicionou.

Argentina x Hungria

Pedrosa analisou as divergências entre o futebol e o mercado argentino e húngaro, apontando a falta de donos privados como a principal. 

"O conceito de dono não é algo comum para nós na Argentina. A cada quatro ou cinco anos, as pessoas votam para escolher quem será o presidente do clube, e os donos continuam sendo o próprio povo – os torcedores, os fãs, que chamamos de sócios", explicou.

Ainda que na Hungria seja comum clubes terem um dono, a primeira reação da torcida do Zalaegerszegi foi de total estranhamento diante da chegada de dois argentinos.

"O começo não foi nada fácil. Somos os primeiros argentinos – ou sul-americanos – a comprar um clube de futebol na Hungria, então para o povo local provavelmente foi um momento muito estranho. E entendemos. Não é fácil quando dois argentinos chegam de fora e começam a tomar decisões sobre um clube ao qual as pessoas estão ligadas a vida toda", destacou.

"Mas justamente por estarmos acostumados a administrar clubes na Argentina com forte participação popular, onde o clube pertence aos torcedores, as pessoas em Zalaegerszegi e em toda a região de Zala entenderam rapidamente nossa visão. Queremos realmente que todos façam parte da família, do dia a dia e das operações do clube", afirmou.

Agora, Pedrosa destacou que o sentimento é de plena aceitação, ressaltando que o público compreendeu e passou a compartilhar de suas ideias. Ao fazer um balanço do período inicial, o executivo afirmou que a recepção foi excelente, especialmente considerando o curto intervalo de seis meses desde a sua chegada.