Ex-técnico do sub-20 do Flamengo brilha na Europa com projeto inovador na Hungria

Nuno Campos atualmente comanda o Zalaegerszegi
Nuno Campos atualmente comanda o ZalaegerszegiZTE FC Official (Instagram)

O Zalaegerszegi está chamando atenção no futebol húngaro. Atualmente no meio da tabela da primeira divisão, o time escapou por pouco do rebaixamento na última temporada, mas foi comprado no meio de 2025 por dois empresários argentinos que mudaram o rumo do clube. No comando da equipe está o experiente técnico português Nuno Campos, que recentemente conversou com o podcast tcheco Livesport Daily, do Flashscore.

Nesta entrevista exclusiva, o técnico do Zalaegerszegi, ex-treinador do Flamengo sub-20, fala sobre o crescimento do time no cenário do futebol húngaro, sua trajetória profissional e o que aprendeu trabalhando ao lado do técnico do Lyon, Paulo Fonseca.

Confira a classificação do Campeonato Húngaro

Você já está há 18 anos na carreira de treinador, com passagens por Portugal, Itália e México. O que atraiu um técnico com esse currículo a se mudar para a Hungria?

Tenho muita experiência de várias formas, em diferentes países, diferentes competições, mas o projeto aqui era simples e muito honesto para mim: desenvolver jogadores. Evitar o rebaixamento, mas, acima de tudo, desenvolver jogadores, fazer o time crescer e mostrar a qualidade individual dos atletas para vendê-los depois. Senti que, ok, fiz um pouco disso a vida toda, e adoro quando posso ajudar os jogadores a terem uma vida melhor no futuro, a evoluírem na carreira. Então, vamos lá. Vamos fazer acontecer. E também gostei muito das pessoas que conversaram comigo. Andreas e Damien (os donos) falaram comigo... e o que disseram foi muito sincero. Então, para mim, foi ótimo entrar nesse projeto.

E você diria que o futebol é basicamente igual em todo lugar? Como em Portugal, Argentina ou Hungria? Ou já percebeu algumas particularidades da liga húngara?

Claro, o princípio do jogo é o mesmo em qualquer lugar, mas cada liga tem suas próprias características, suas especificidades. Aqui, o jogo é um pouco mais físico do que em Portugal, por exemplo. Mas é muito competitivo, muito difícil vencer as partidas. Qualquer time pode ganhar dos outros, e se olharmos para o campeonato, a classificação mostra isso. Não é fácil jogar um contra o outro. Então, o campeonato é muito competitivo, muito físico, e precisamos gerenciar bem todos os detalhes do jogo. Caso contrário, não temos chance de competir com eles.

Nuno Campos com Lorenzo Pellegrini na Roma
Nuno Campos com Lorenzo Pellegrini na RomaGIUSEPPE MAFFIA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

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Durante boa parte da sua carreira, você trabalhou com Paulo Fonseca, inclusive na Roma. O que você aprendeu com ele e o que aplica no seu trabalho?

A gente cresceu junto, porque desde o começo trabalhamos juntos, desde o sub-19 em Portugal. Foram muitos anos trabalhando lado a lado, conversando sobre todos os detalhes, criando exercícios juntos e tudo mais. Claro, ele é meu melhor amigo nesse sentido, de enxergar o futebol. Aqui, uso muitas coisas que já usava no passado. O jeito de conversar com os jogadores em certos momentos ou a forma como gerenciamos o jogo taticamente, aplico as mesmas coisas que trabalhamos juntos.

Como foi a recepção da torcida na Hungria? Porque deve ser uma situação bem diferente para eles, com novos donos, novo técnico e vários jogadores novos.

Foi muito fácil porque a torcida é apaixonada, mas entende as dificuldades que tivemos desde o início para montar esse grupo, esse time... Eles sabem como é difícil se manter na primeira divisão desde o começo, e estão com a gente o tempo todo. São torcedores muito apaixonados, e isso significa que estão sempre ao lado do time, sendo muito importantes em todos os jogos. Mesmo nas partidas fora de casa, eles estão lá com a gente. Isso é fundamental, e eles nos ajudam a vencer partidas.

Paulo Fonseca e Nuno Campos durante o período na Roma
Paulo Fonseca e Nuno Campos durante o período na RomaRICCARDO ANTIMIANI / EPA / Profimedia

Você tem o elenco mais jovem da liga. Em que aspectos trabalhar com um time tão jovem é diferente ou único?

Em dezembro, éramos o terceiro elenco mais jovem da Europa. É muito difícil por um lado, porque a experiência desses jogadores não é tão grande... A parte psicológica é muito importante durante os jogos, porque quando somos jovens, não temos tanta consistência. Isso faz diferença às vezes, e estamos trabalhando muito nisso. Também a parte tática... Muitas vezes, não controlamos o lado tático do jogo, então estamos evoluindo nisso também. E claro, a consistência do time, às vezes, não é fácil de alcançar. Mas nos últimos nove jogos, só perdemos um. Nos últimos seis, não perdemos nenhum. Parece que as coisas estão indo pelo caminho certo. O que sinto é que, se conseguirmos permanecer nesse campeonato, na primeira divisão da Hungria – porque o time é muito jovem e precisamos melhorar muita coisa – vai ser como uma grande vitória conquistar isso.

E no futuro, talvez em cinco ou dez anos, você acha realista o clube se tornar um dos líderes do futebol húngaro?

A consistência do clube quando estamos tentando construir um projeto é muito importante para o futuro. Acho que o projeto e a ideia que Damian, o presidente, e Andras, o diretor esportivo, têm são muito claras e consistentes. Com isso, com o tempo, acredito que é algo possível. Nunca sabemos, porque muitos times aqui têm orçamentos melhores, e com mais dinheiro, claro, fica mais fácil. Mas do jeito que eles (os donos e o diretor) pensam e conhecem o mercado, com o tempo, acho que podem desenvolver jogadores. E com mais jogadores chegando e uma base dentro do clube, acho que podemos tentar brigar por outras posições, sim.

Classificação do Zalaegerszegi na liga
Classificação do Zalaegerszegi na ligaFlashscore

Você acha que a liga húngara pode realmente evoluir e chegar ao nível da liga tcheca, por exemplo, no futuro?

Acho que, às vezes, para alcançar outros patamares, precisamos preparar a base. Os jovens vão ser a base da seleção e dos maiores times do país. E com isso, em dez anos, imagino que as coisas podem chegar a outro nível. O que vejo aqui é que eles têm ótimas condições, ótimas estruturas para trabalhar com a base e com o time principal. A questão, às vezes, é o modo como precisam evoluir no desenvolvimento, no talento. Eles precisam observar como os melhores clubes do mundo fazem, em outros países, como eles trabalham. E, com um projeto como esse, podem alcançar não só o nível da República Tcheca. Nunca sabemos quando ou onde vamos parar. Portugal é um país pequeno, e há 20 anos não era como é hoje. E agora eles chegaram... talvez ao mais alto nível do mundo, junto com outros países.

Porque Cristiano Ronaldo nasceu, né?

Não só o Ronaldo. Claro, Ronaldo e (José) Mourinho são os maiores símbolos do futebol português nesse momento, mas todos os processos que Portugal fez há uns 20 anos, com muitos treinadores – e eu era jogador naquela época, há 25 anos – mudaram tudo hoje. Isso começou talvez há 25 anos, então a forma como olhamos para as coisas e o tempo que temos para fazer pode mudar o futuro. Talvez eles precisem olhar dez anos à frente para tentar conquistar algo importante.