A Premier League está ficando mais chata? Comparação com a Champions alimenta debate

Forest e Arsenal fizeram uma das partidas sem gol na atual temporada da Premier League
Forest e Arsenal fizeram uma das partidas sem gol na atual temporada da Premier LeagueČTK / imago sportfotodienst / IMAGO

Às vésperas do início do mata-mata da Champions League, o contraste está posto, como analisa Arne Slot, treinador do Liverpool e atual campeão da Premier League.

O holandês de 47 anos — portanto alguém que bebeu no legado da Holanda dos anos 1970 — afirma que os jogos na Inglaterra, atualmente, são marcados por um nível mais alto de fisicalidade e por um uso muito mais intenso das bolas paradas, com lançamentos laterais longos e jogadas aéreas como parte central da estratégia. Algo que, na avaliação do treinador, está muito mais desenvolvido na Inglaterra do que na Champions League.

Siga a Premier League pelo Flashscore

No torneio europeu, Slot destaca a presença de equipes tecnicamente fortes no jogo entre as áreas, com maior ênfase na construção das jogadas e na circulação da bola pelo meio-campo. Para ele, enquanto a Premier League vem se transformando cada vez mais em um jogo de bola na área, a Champions League privilegia o que acontece fora das áreas, com mais elaboração e controle do jogo.

Existem muitas nuances que esse debate pode abrir, mas a história recente das duas competições, contada pelos números, é bastante indicativa.

A começar pela quantidade de empates sem gols já registrada nas 26 rodadas disputadas do Campeonato Inglês. Até agora, são 18 resultados em 0 a 0, contra 16 em toda a temporada anterior e apenas 11 na penúltima, considerando todas as 38 rodadas. Os números atuais são os mais altos desde o período pós-pandemia — quando, sem torcida, o jogo também mudou.

A quantidade de partidas sem gols em 2025/26 remete ao estilo defensivo típico dos clubes ingleses dos anos 1990. No século passado, quatro temporadas da Premier League (criada em 1992/93) tiveram mais de 40 jogos zerados por edição.

Números de jogos sem gol têm crescido na Premier League
Números de jogos sem gol têm crescido na Premier LeagueFlashscore

Menos gols com bola rolando

Quando o tema é bola na rede, a comparação entre a Premier League e a Liga dos Campeões — apesar dos formatos totalmente diferentes — também revela movimentos opostos nas duas corridas ao título. Entre os times ingleses, os gols com bola rolando caíram 25% da penúltima temporada para a atual. Já no principal torneio de clubes da Europa houve um aumento de 83%. 

É verdade que os gols de bolas paradas cresceram nos dois contextos. Mas, na ilha onde surgiu o futebol, sai quase um gol de bola parada por jogo, contra 0,5 na Champions. A participação dos gols com bola rolando (65% do total) é a segunda menor da história da Premier League, ficando à frente apenas da temporada 2010/11.

Comparação de média de gols por jogo entre Champions e Premier League
Comparação de média de gols por jogo entre Champions e Premier LeagueFlashscore

Latereio como tática

Há pelo menos 15 anos, o debate sobre o estilo de jogo da Premier League só cresce, sob vários pontos de vista — em um campeonato que nunca teve um treinador inglês campeão. A velha escola, cada vez menos presente, ainda teve alguns exemplos relativamente recentes, como o do galês Tony Pulis.

Pelos clubes em que passou, o caso mais notório ocorreu no Stoke City, em 2008. A equipe era fortemente dependente dos arremessos laterais de Rory Delap. Havia, inclusive, a estratégia de lançamentos longos para o ataque com o objetivo de provocar um lateral próximo à área.

“Não dá para dizer que é futebol. Está mais para rugby com goleiros”, disse à época Arsène Wenger sobre a imposição física do Stoke. Em 2016, o mesmo Pulis replicou o estilo no West Bromwich. A lógica era simples: bola alçada para a área na tentativa de que o centroavante Salomón Rondón resolvesse pelo alto.

Se Klopp, Guardiola e companhia (como Slot, por exemplo) deram novos ares ao futebol inglês, a questão agora é saber para onde caminha o estilo da Premier League, com muitos dos principais clubes montando equipes robustas e altamente treinadas para explorar bolas paradas. Os cruzamentos, por exemplo, são uma das principais armas do Arsenal de Arteta, que pode voltar a levantar o troféu até maio.

Comparação de gols de bola rolando entre Champions e Premier League
Comparação de gols de bola rolando entre Champions e Premier LeagueFlashscore

Menos chutes a gol

Com as áreas mais congestionadas — afinal, defender virou um lema —, chutar a gol também ficou mais difícil, algo que os números ajudam a explicar. A queda é acentuada nos últimos três anos quando se consideram apenas os disparos, excluindo os chutes travados pelo adversário. Como acertar o alvo se tornou mais complicado, o número total de gols vem caindo. O movimento é oposto ao observado na Liga dos Campeões.

Premier League tem apresentado queda no número de chutes a gol
Premier League tem apresentado queda no número de chutes a golFlashscore

Tabu em jogo

Há mais de 40 anos um clube inglês não conquista a Champions League com um treinador inglês — Tony Barton venceu com o Aston Villa em 1982. Sem técnicos considerados “da casa” ou associados a uma escola moderna local, os triunfos mais recentes ficaram com estrangeiros. Nas últimas 10 finais da Liga dos Campeões, três equipes inglesas foram campeãs. Apenas o Manchester City de Guardiola venceu uma equipe estrangeira na decisão (a Inter, em 2023).

O que fica em aberto é se o Campeonato Inglês, com a maioria dos clubes adotando um estilo híbrido, mas quase sempre vertical e físico, vai contaminar o restante da Europa nos próximos anos — ou se ocorrerá o contrário.

Carlo Ancelotti, por exemplo, o treinador mais vitorioso da história da Champions League, não conseguiu levantar o troféu quando passou pelo Chelsea, entre 2009 e 2011, apesar de ter conquistado a Premier League. A pergunta que permanece é se o estilo veloz e mais técnico do Real Madrid está melhor talhado para jogos de mata-mata. Ou uma defesa bem montada e bolas lançadas para área também têm o seu charme. As próximas semanas poderão dar pistas para encorporar o debate.