Carrick no United, Arbeloa no Real: técnicos de elite estão em falta na Europa

Sem muita convicção, o United contratou Carrick como técnico
Sem muita convicção, o United contratou Carrick como técnicoRobbie Stephenson / PA Images / Profimedia

A escolha do Manchester United por Michael Carrick como técnico interino após a demissão de Ruben Amorim parece menos uma decisão ousada e mais uma admissão de cansaço, resultado do que acontece quando um clube que já foi referência em moldar o futuro do futebol se vê vasculhando um armário de treinadores cada vez mais vazio.

O futebol moderno é, mais do que nunca, um jogo de treinador. Identidade tática, valor do elenco, alcance comercial e até a percepção da marca global estão cada vez mais ligados ao profissional que comanda o time à beira do campo.

No entanto, apesar de todo esse poder, a oferta de super técnicos diminuiu de forma preocupante.

Existe um único nome indiscutível nesse cenário: Pep Guardiola, um treinador que segue dominando as competições de alto nível. Fora isso, o panorama fica nebuloso rapidamente.

Jürgen Klopp está atualmente sem clube. Carlo Ancelotti e Jose Mourinho já caminham para a reta final de suas carreiras – ainda são competentes, mas não parecem mais ser os arquitetos ideais para clubes que exigem domínio imediato e duradouro.

A nova geração não chegou em número suficiente, e o vazio está sendo preenchido por nomes batidos, concessões e nostalgia.

Um dos novos nomes mais badalados do momento era Xabi Alonso, que acaba de sair do Real Madrid após 7 meses no cargo. Seu substituto é o ex-jogador Álvaro Arbeloa, um "Carrick" de Madri. Arbeloa é uma aposta, já que só treinou o time B do Real.

Alonso brilhou no Leverkusen, mas fracassou no Real
Alonso brilhou no Leverkusen, mas fracassou no RealAFP

Bilhões gastos na dança das cadeiras

A Premier League, com toda sua riqueza e suposta impiedade, virou um exemplo claro dessa estagnação.

Nos últimos cinco anos, os clubes da elite inglesa gastaram, segundo diversas fontes, mais de meio bilhão de libras apenas em recisão de contratos, dinheiro gasto para mandar embora treinadores e suas comissões.

Esse valor não inclui o custo de substituí-los, de reconstruir elencos para se alinhar a novas filosofias, ou de reparar os danos à coesão e à confiança do grupo.

O Chelsea segue sendo o exemplo mais extravagante. O clube demitiu Enzo Maresca mesmo após uma sequência de conquistas.

A escolha posterior por Liam Rosenior, cujo trabalho no Hull City foi respeitável, mas nada revolucionário, e cuja passagem pelo Strasbourg mal teve repercussão fora do leste da França, diz muito sobre o mercado atual. A ambição segue altíssima. As opções, nem tanto.

Em Old Trafford, a decisão de dispensar Amorim foi especialmente chocante, principalmente pelo momento em que ocorreu.

United estava, pelos padrões recentes, em sua melhor posição competitiva dos últimos anos, mostrando estrutura, clareza e um caminho definido.

Mas a paciência virou artigo raro em salas de reunião cheias de investidores para quem o futebol é apenas um item na carteira, não uma paixão de vida. Os resultados oscilam, agentes sussurram, as redes sociais explodem e a guilhotina cai.

Objetivos de longo prazo, realidades de curto

Sir Alex Ferguson resumiu a essência da gestão de alto nível no United com sua habitual clareza: "Quando você dirige qualquer organização, precisa olhar o mais longe possível para o futuro," escreveu em seu livro Leading. É uma frase que parece cada vez mais fora de sintonia com o futebol atual, onde os clubes planejam em planilhas de três anos, mas agem em ciclos de três semanas.

Ferguson podia pensar em temporadas, não apenas em jogos, absorvendo turbulências de curto prazo em prol do domínio a longo prazo. Hoje, o mesmo clube salta de ideia em ideia, de nome em nome, raramente olhando além da próxima Data FIFA.

A nomeação interina de Carrick não é um projeto de futuro, mas sim uma solução provisória nascida da impaciência institucional. O caminho ainda existe. O United simplesmente não parece mais disposto, ou talvez capaz, de segui-lo.

A volta de Carrick, então, não é realmente sobre Carrick. Seu trabalho como técnico no Middlesbrough foi sólido, mas nunca chegou a mudar expectativas. Mostrou competência, reflexão, mas no fim das contas, limitações, e não conseguiu levar o Boro de volta à elite.

Esse perfil antes o descartaria até mesmo para uma função interina em um clube do porte do United. Hoje, coloca Carrick no centro da discussão, ao lado de Ole Gunnar Solskjær – outro ex-jogador que os Red Devils já demitiram.

A verdade incômoda – pelo menos para os torcedores – é que o poder de atração do Manchester United diminuiu. Isso não é novidade para ninguém.

O nome ainda tem peso, mas os técnicos de elite olham para o cenário e enxergam instabilidade, interferências e contratos que prometem fortuna, mas pouca segurança.

Quando qualquer queda de desempenho pode significar demissão, o cargo deixa de ser o auge da carreira e vira uma roleta russa bem remunerada, o que levanta uma questão mais profunda sobre como o papel do treinador é avaliado.

Os técnicos recebem elencos inchados, montados por vários antecessores, amarrados a contratos longos que exigem sucesso imediato, e são julgados sem considerar estratégia de contratações, influência dos jogadores e interferência da diretoria.

Jogadores e seus representantes têm cada vez mais poder, muitas vezes permanecendo mais tempo que o treinador encarregado de potencializá-los.

Enquanto isso, grupos de investidores com muitos recursos, mas pouco conhecimento de futebol, continuam tomando decisões caras e desconectadas da realidade do campo.

Interino é o novo normal na Europa

A nomeação de Carrick é um sintoma, não uma solução. Reflete um esporte obcecado pelo culto ao treinador, mas que ao mesmo tempo mina as condições para que a gestão de elite floresça.

Até que essa contradição seja resolvida, clubes como o Manchester United vão continuar apostando em rostos conhecidos, se perguntando onde estão os grandes treinadores e ignorando silenciosamente o próprio papel nesse sumiço.

E agora, numa era em que duas temporadas já são consideradas longevidade, o conceito de técnico interino começa a soar absurdo.

Se toda nomeação é temporária por natureza, a distinção perde o sentido, e a instabilidade deixa de ser consequência do fracasso para se tornar parte do modelo de gestão.

Brad Ferguson
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