Além da Copa de 2014, o ex-jogador do Manchester City e do Bayern de Munique também falou das chances da Alemanha no Mundial 2026 e relembrou seus melhores momentos na carreira.
Confira a entrevista na íntegra:
• Em 2014, você foi um dos destaques da histórica vitória por 7 a 1 sobre o Brasil. Que lembranças você tem daquele jogo no Mineirão?
Aquele jogo contra o Brasil entrou para a história do futebol alemão com todo mérito. Vencer uma potência do futebol por aquele placar foi algo surreal. Estávamos extremamente bem preparados, mas naquela noite tudo simplesmente fluiu para nós, enquanto para eles foi um pesadelo. Marcamos em praticamente todo ataque, o clima era quase místico, e para nós não foi fácil manter a calma, o foco e a concentração sem se deixar levar pela emoção.
Obviamente, aquela vitória nos deu uma confiança incrível para a final, mas sabíamos muito bem que um 7 a 1 na semifinal não garante vantagem de gols na decisão. A final contra a Argentina foi um jogo completamente diferente, muito difícil.
É uma página histórica da qual tenho muito orgulho. Preciso admitir, porém, que ao final do jogo também senti um pouco de tristeza: o povo brasileiro nos recebeu e tratou muito bem durante todo o torneio, e ver o estádio inteiro e um país chorando foi um momento esportivo muito forte e, de certa forma, estranho de viver em campo.

• Naquela final contra a Argentina, você fez uma atuação monumental. Que lembranças tem daquele dia especial?
Tenho uma lembrança especial daquela final. Acordei no dia do jogo sentindo uma sensação muito estranha. Fiquei me perguntando o que estava acontecendo porque me sentia incrivelmente bem. Dormi muito bem e sentia uma energia e força no corpo fora do comum. Claro, havia tensão, como em todo grande evento, mas era aquele nervosismo positivo que te motiva.
Essa sensação de onipotência física e mental ficou comigo durante os 120 minutos da partida. Acho que foi o melhor jogo da minha carreira. Tive muita sorte de esse auge físico e mental ter acontecido justamente na final da Copa do Mundo.

• Como você avalia a abordagem tática de Julian Nagelsmann? Acha que a Alemanha pode ter sucesso neste Mundial?
No momento, me parece que o time está respondendo muito bem às ideias dele. É um técnico jovem e muito interessante, está fazendo um ótimo trabalho. Acho que, para um treinador da idade dele, é normal ainda cometer alguns pequenos erros, mas ele mostra grande capacidade de adaptação.
Ele é muito autocrítico e é excepcional na gestão do grupo. Existe uma ótima química entre ele e os jogadores, e sabemos bem que a harmonia no vestiário é um dos fatores-chave para ir longe em uma Copa do Mundo.
• Além da Alemanha, quem você vê como favoritos para vencer a Copa do Mundo este ano?
Para ser sincero, até agora a Espanha não me pareceu no melhor momento, mas ainda é uma seleção que sempre precisa ser considerada entre as candidatas ao título. Depois, com certeza, tem a França: com o elenco que tem, precisa estar entre as favoritas. Acho que a Inglaterra também tem grandes chances e pode ir longe.
Sobre o Brasil, não estou cem por cento convencido. O mesmo vale para a Argentina: é um grande time, mas tenho algumas dúvidas sobre como vão se sair quando enfrentarem as seleções mais fortes.
Se eu tiver que citar uma possível surpresa que pode ir longe, diria a Colômbia. Eles têm excelentes jogadores, são um bom coletivo e sabem lutar juntos em campo.
Lembranças do Manchester City
• Durante seu tempo no Manchester City, seu técnico era Roberto Mancini. Como era sua relação com ele e qual impacto ele teve na sua carreira naquela fase?
Sempre tive uma ótima relação com ele; afinal, foi o homem que me quis no Manchester City. Ele me ensinou muito taticamente numa época em que eu ainda era um jogador jovem em desenvolvimento. Ele me passou as bases e os segredos de como defender na Inglaterra aplicando os princípios da escola italiana de defesa, e sou muito grato a ele por isso.
Meus primeiros passos na Premier League sob o comando dele não foram fáceis, também porque me lesionei logo que cheguei ao clube, mas ele sempre me apoiou. Saí de Manchester depois de apenas uma temporada, mas não por problemas com ele ou com o ambiente – simplesmente, quando o Bayern de Munique te chama e você é peça importante da seleção alemã, você quer voltar para casa para ficar mais em evidência.
Recentemente o encontrei em Doha, no Catar; ficamos tristes por não termos nos visto por mais tempo, mas o respeito mútuo continua o mesmo. Realmente considero ele um grande treinador.

• Quando você estava no City, o clube estava apenas começando sua ascensão para se tornar a potência que é hoje. Já sentia naquela época que o clube estava decolando?
No futebol inglês, sim, percebia claramente a enorme ambição deles e a presença de profissionais que faziam um trabalho extraordinário. Depois, a chegada do Pep Guardiola foi a peça final do quebra-cabeça, foi meio que um 'destino já traçado.'
Na Europa, eles foram muito bem na temporada em que conquistaram a Champions League. Acho que podem evoluir ainda mais nos próximos anos, recentemente deixaram escapar algumas oportunidades. De qualquer forma, hoje já se consolidaram entre os quatro ou cinco maiores times da Europa.
Comparações com a Itália
• Você jogou na Bundesliga, Premier League, Ligue 1 e, mais recentemente, também teve uma passagem pela Serie A. Qual a maior diferença em termos de estilo de jogo e ritmo que você notou no campeonato italiano em relação às outras grandes ligas europeias?
A principal diferença está no aspecto tático.
Na Itália, a preparação estratégica dos técnicos e dos times é levada ao extremo. O futebol italiano é menos frenético do que o inglês ou o alemão, mas exige concentração total. Marcar gol é extremamente difícil porque quase todos os times defendem com organização impecável. Raramente você vê jogos terminando com placares elásticos como 5 a 0; os resultados mais comuns são 1 a 0, 1 a 1 ou 2 a 1, e isso torna o campeonato muito interessante.
Por outro lado, na minha experiência, a intensidade geral é um pouco menor em comparação com a Premier League, Ligue 1 ou Bundesliga. Acredito que, se as gigantes históricas como Inter, Milan e Juventus conseguirem elevar o ritmo e a intensidade para padrões mais altos, voltam a ser dominantes. Na Serie A, estão acostumados a controlar o jogo e ter muita posse de bola contra adversários teoricamente mais fracos, mas quando enfrentam gigantes como o Bayern ou o Real Madrid na Champions League, a falta desse hábito de intensidade alta faz diferença.

• Que lembranças você tem da sua experiência na Serie A?
Meu único verdadeiro arrependimento é ter chegado em Salerno tarde demais e, infelizmente, ter me lesionado depois de apenas alguns jogos. Mas quero dizer que amei a cidade de Salerno e seu povo. É um lugar fantástico, com uma paixão incrível.
Infelizmente, as coisas não saíram como esperávamos em campo, mas realmente espero que a Salernitana consiga se recuperar rápido e voltar para a Serie A muito em breve. É um clube que merece o melhor e desejo ao clube e à torcida tudo de melhor para o futuro.
• Teve algum adversário em especial que te fez passar sufoco em campo?
Posso contar uma história muito engraçada sobre um grande campeão italiano: Alessandro Del Piero.
Tenho muitos amigos na Itália que, quando eu era mais novo, sempre falavam o quanto ele era forte. Vendo só pela TV ou na Copa de 2006, eu sempre respondia: 'Sim, ele é um grande atacante, mas não parece esse fenômeno todo que vocês falam.'
Aí, em 2010, com o Manchester City, enfrentamos a Juventus na Liga Europa. Ele já tinha 36 ou 37 anos. Bastou ver ele tocar na bola de perto, em campo, para mudar completamente minha opinião: fiquei literalmente sem palavras. Percebi que estava diante de um dos jogadores mais extraordinários que já vi na vida. Ele tinha um controle de bola e uma técnica absurdos, coisa de outro mundo.
Lembro que bastou um toque dele para me deixar para trás enquanto ele ia para o outro lado. Foi uma verdadeira aula de futebol. Espero que o Alessandro me perdoe por tê-lo subestimado na juventude. Não o conheço pessoalmente, mas além de ser um craque mundial, ele realmente parece uma pessoa maravilhosa e encantadora.

Bayern de Munique e Vincent Kompany
• Você viveu os melhores anos da sua carreira no Bayern de Munique, e jogou ao lado de Vincent Kompany. Você vê nele como técnico a mesma personalidade que tinha como jogador?
Primeiro de tudo, quero dizer que o Vincent é um grande amigo meu, tenho enorme respeito pelo Kompany como pessoa. O estilo de jogo atual dele é claramente resultado das experiências que teve com grandes técnicos como Mancini, Pellegrini e, claro, Guardiola.
Como jogador, ele era um zagueiro formidável: muito forte fisicamente, agressivo, dominante no jogo aéreo, rápido e dinâmico. O futebol dele refletia perfeitamente esse perfil. Como técnico, por outro lado, vejo nele uma figura extremamente calma e ponderada. Ele é muito sereno nas decisões, sabe exatamente o que está fazendo e é incrivelmente inteligente para encontrar as soluções táticas certas.
Tive o privilégio de conversar muito sobre futebol com ele e ele sempre tem ideias muito claras. Trouxe ao Bayern uma identidade clara e uma excelente gestão do relacionamento humano com os jogadores.
Em campo, dá para ver que o time joga com tranquilidade; não digo que jogam só pelo treinador, mas dá para perceber que estão felizes, à vontade e compraram totalmente a filosofia de futebol dele. No futebol moderno, isso faz toda a diferença.

Passado e futuro
• O que te inspirou na infância a jogar futebol?
Minha primeira e maior inspiração foi meu pai. Ele também jogava futebol, mas infelizmente teve que parar muito cedo por causa de problemas sérios no joelho e não conseguiu chegar a um nível alto. Ele começou a me deixar chutar bola assim que aprendi a andar. Foi aí que tudo começou.
Conforme fui crescendo, comecei a devorar futebol na TV: lembro das primeiras imagens da Copa de 1990 na Itália, o espetáculo do Brasil, depois a Euro 96 e a Copa de 1998. Meus ídolos absolutos eram os defensores da escola italiana, principalmente Paolo Maldini e Fabio Cannavaro; eu estudava eles o tempo todo.
Em 2006, quando eu tinha só 17 anos, tive a honra de jogar um amistoso com meu time contra a seleção alemã antes deles irem para a Copa; foi uma emoção indescritível.
Eu era literalmente obcecado por futebol: era louco pelo Ronaldo (Nazário) e pelo Zinedine Zidane. Lembro que à noite, quando meus pais mandavam eu ir dormir, eu escondia a TV no quarto para assistir aos programas que mostravam os melhores momentos dos campeonatos italiano e espanhol. Na minha cabeça, só tinha espaço para futebol.

• Você jogou nos clubes mais prestigiados da Europa, ganhou uma Copa do Mundo e conquistou dois históricos triples coroados. Quando falarem da carreira de Boateng daqui a vinte anos, por qual aspecto específico você mais gostaria de ser lembrado?
Depende muito da cultura futebolística de quem estiver falando de mim.
Gostaria que lembrassem da minha evolução técnica e tática: como consegui mudar e aprimorar meu estilo de jogo, de jovem promessa a zagueiro maduro e experiente nos anos de ouro no Bayern, na Champions League e na Copa do Mundo. Se quem estiver falando realmente acompanhou minha carreira, entende de futebol e sabe por que consegui me manter nesse nível por tantos anos, aí vai ser interessante.
Se, por outro lado, a lembrança se limitar a um simples 'Ele ganhou isso e aquilo, foi um bom zagueiro', então é alguém que só fica na superfície e não mergulha na verdadeira essência do futebol.
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