Exclusiva com Héliton, zagueiro do Goztepe: do racismo aos bons números na Turquia

Héliton faz parte da melhor defesa do Campeonato Turco
Héliton faz parte da melhor defesa do Campeonato TurcoGoztepe

O zagueiro Héliton, do Goztepe-TUR, tem sido um dos pilares da boa campanha do clube, 5° colocado na liga local. Depois de chegar ao time quando ainda era parte da 2ª divisão, ele viveu o crescimento que permite que, hoje, o pensamento seja estar em uma competição europeia na próxima temporada.

Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, Héliton fala do segredo do sucesso da melhor defesa do Campeonato Turco, da boa relação com o técnico Stanimir Stoilov - um fã declarado de brasileiros - e do caso recente de racismo com Vini Jr. Ele ainda admitiu proposta recente do Grêmio, que não foi pra frente e relembrou de quando o pai pediu R$ 50 emprestado para que ele pudesse fazer um teste, deixando clara a realidade dura que precisou superar. 

Siga a Super Lig pelo Flashscore

Como muitos negros, ele também já sofreu racismo e não vê um fim definitivo neste câncer da sociedade. Com 1,95m, ele tem no porte físico uma das grandes qualidades para fazer a diferença em um sistema em que precisou se adaptar bem como homem central. 

A boa fase no Goztepe o faz pensar mais alto, não somente no Velho Continente, mas em um possível retorno ao Brasil, desde que seja para vestir uma camisa de peso. Uma negociação frustrada, recentemente, com o Grêmio, ainda é lamentada, sem deixar de apagar o desejo de voltar ao futebol brasileiro para ter o devido reconhecimento.

Confira abaixo a entrevista completa:

Você chegou no Goztepe na temporada 23/24. O time estava na 2ª divisão. Qqueria que você contasse sobre o crescimento do time. 

Eu cheguei no returno da 2ª divisão da Turquia. O time já estava bem encaminhado para subir, fazia uma boa campanha. Cheguei para agregar no que já estava bom. Conseguimos o acesso e, com o trabalho do nosso treinador, que ama brasileiros, pude ajudar os companheiros. No ano passado, quase nos classificamos para um torneio europeu, ficamos a poucos pontos da vaga.

Na atual temporada, estamos em um caminho muito bom e espero que alcancemos esse objetivo. Está sendo muito bom estar aqui, todos estão evoluindo bastante. Apesar do clube não ser tão conhecido mundialmente, estamos fazendo história e creio que seremos reconhecidos.

A impressão que passa é de um trabalho pé no chão, que tem acontecido de forma gradativa. O que te chama a atenção no projeto para as coisas darem certo, sem atropelar processos? 

O pensamento é ambicioso. Apesar de muitos clubes que chegam da 2ª divisão terem o objetivo de se manterem, conseguimos mostrar nosso potencial já na primeira temporada. Quase chegamos a nos classificar para um torneio internacional. Estamos no caminho certo, esse pensamento também atingiu o grupo. 

Vocês têm a melhor defesa da Liga Turca. Quando você está em campo, a média de gols sofridos do time é muito baixa. O que tem ajudado para este desempenho?

Não falo somente da defesa, porque isso tudo vem desde o ataque. Os meus companheiros ajudam nessa construção. O sistema do nosso treinador também é fundamental, a gente respeita muito o que ele pede pra fazer taticamente. Temos sido obedientes taticamente. Aprendi muito com esse treinador, como se comportar dentro de campo, como se comunicar. E isso ele não passa só pra mim, mas para todos que chegam. Espero continuar nesse caminho.

O técnico que você mencionou é o Stanimir Stoilov, um búlgaro de 59 anos. Você mencionou que ele gosta muito de brasileiros. O que você sabe dessa preferência dele?

Eu o conheço desde quando ainda estava na Bulgária, joguei contra ele umas duas vezes. No antigo time dele, já tinham muitos brasileiros. Ele sempre falou que gosta de brasileiros porque gostamos de trabalhar.

Atacante Rômulo comemora boa fase na Turquia após poucas chances no Athletico-PR

Ele tem um olhar pontual. Todos os brasileiros que ele trouxe, deram certo. Foi assim com Rômulo, hoje no RB Leipzig, com o Emerson, que foi para a França, com o Djalma, agora no Goiás, além do Juan, que está nos ajudando com gols. O Allan é outro zagueiro nosso com números bons também. O treinador não gosta só de atacante brasileiro, ele faz um mix de posições.

Héliton tem média superior a muitos destaques da Europa
Héliton tem média superior a muitos destaques da EuropaFlashscore / Opta by Stats Perform

Tem alguma coisa no sistema defensivo que chamou sua atenção?

Ele foca muito no sistema tático. Eu nunca havia jogado com 3 zagueiros. Quando vim pra cá, estranhei um pouco. Como canhoto, achava que ia jogar pela esquerda, mas ele me colocou no meio da zaga.

Ex-São Paulo, Juan aproveita boa fase na Turquia sem deixar de sonhar com Premier League

Pra mim, foi um choque. Por isso falo que ele me ensinou muita coisa para que eu pudesse chegar onde estou hoje. Uma coisa interessante é a forma como ele aborda os jogadores em relação ao sistema tático. Tem que ser obediente. Se falhar em alguma coisa, a bola vai entrar. Ele fala que, se quisermos chegar longe, tudo precisa começar na defesa. Ele coloca isso na nossa mente. Se a defesa vai bem, o time todo vai bem. 

Você tem 1,95m. Como isso ajuda na sua função, além do posicionamento?

Quando se pensa em um zagueiro de 1,95m, imagina-se um jogador durão, mas eu tenho minha confiança e sei que desempenho bem meu papel. O futebol turco é muito físico, tem muita bola parada e longa, acho que isso ajuda o meu estilo de jogo a prevalecer. Acho que eu tenho sido importante para o sistema táctico do time e minha altura e força ajudam bastante.  

Queria abordar o mais novo episódio de racismo que o Vini Jr. sofreu. Você já sofreu racismo na Europa ou até mesmo aqui no Brasil? Já teve o desgosto de passar por isso?

Se eu falar que não, estou mentindo. Toda pessoa preta já passou por isso. Infelizmente é uma coisa que a gente tem que lutar todos os dias. Tenho dentro de mim que isso não vai acabar. Dia desses comentei com a minha esposa sobre racismo e disse: 'morrem racistas, mas nascem racistas'. É importante ter um psicológico muito bom para não se abater.

A cor de pele não muda nada, independentemente se você é branco, preto, se você anda ou não. Somos iguais à semelhança de Cristo, não deveria ter diferenças, mas temos que conviver com isso. Já aconteceu comigo aqui na Turquia contra o Besiktas, na Bulgária e Portugal também, no Brasil idem. É importante lutar pelo seu direito, mas é importante saber que isso pode afetar seu desempenho. É muito difícil comentar, é um assunto delicado. É preciso ter a cabeça muito forte para continuar fazendo seu trabalho. A vida continua, as coisas não vão mudar. É preciso saber lidar porque nossos filhos vão crescer e conviver com isso. 

Você acha que falta punição?

Seria um bom caminho mas, mesmo com punição, isso não vai acabar. A punição costuma atingir mais a classe baixa. Mas a classe média e alta também contam com pessoas racistas. E essas pessoas não serão punidas. Punir é um bom caminho, vai ajudar pelo menos a diminuir. 

Aqui no Brasil, você foi revelado pelo Santo André, jogou no XV de Jaú, no Figueirense e teve destaque no ABC de Natal antes de ir para Portugal. Era um desejo seu ir para Portugal?

Eu aceitei este desafio muito pela falta de oportunidades no Brasil. Quando surgiu essa oportunidade de ir para Portugal, mesmo que fosse na 2ª divisão, eu sabia que era algo que poderia abrir mercado. Era um caminho para ser reconhecido e foi o que aconteceu. Fico muito grato pelo que aconteceu, era uma oportunidade que eu não poderia deixar passar. 

Héliton tem levado a melhor sobre os atacantes da liga turca
Héliton tem levado a melhor sobre os atacantes da liga turcaGoztepe - Divulgação

A trajetória que você construiu na Europa superou sua expectativa? 

Eu vim pra cá um pouco tarde, tinha meus 24, 25 anos. Como não tinha muita minutagem no Brasil, isso atrapalhou o desempenho. Aquele foi o meu momento, eu posso dizer que é o momento de Deus. As coisas aconteceram de forma gradativa pra mim: Covilhã, CSKA Sofia e Goztepe. Acho que ainda não é meu limite de clube e de liga. Creio que eu posso mais, independentemente de ter 30 anos, me cuido muito bem. Vejo que tenho muito potencial de atuar em ligas melhores e clubes maiores. Creio que meu próximo pulo será ainda mais alto. 

Héliton tem se destaca com a camisa do Goztepe
Héliton tem se destaca com a camisa do GoztepeGoztepe

Algum desses países te marcou mais? 

Portugal foi minha porta de entrada. O time não estava bem, mas consegui fazer alguns golzinhos e pude mostrar algo. Na Bulgária, mostrei meu potencial, nos classificamos para a Conference League. Foi meu primeiro campeonato europeu por um clube, fui capitão e isso foi muito gratificante, me ajudou a performar melhor e fazer outros clubes terem alguma atenção. No Goztepe, encontrei minha melhor performance. 

Números de Héliton
Números de HélitonFlashscore

Tem alguma particularidade do futebol turco que chama a sua atenção? O pessoal fala muito do fanatismo da torcida...

Sim, aqui a torcida é bem fanática. A torcida do Goztepe é linda demais, todos os jogos são lotados, eles cantam músicas e vemos a paixão deles. Parece que a cidade vive futebol. No Brasil, também tem essa paixão, mas eu vejo a torcida turca como mais apaixonada.

Você tem vontade de retornar ao futebol brasileiro?

Eu gostaria mas, no momento, prefiro ficar aqui na Europa. Eu tenho essa vontade de jogar em um time grande do Brasil. Tudo que passei me ajudou a performar melhor, me fortaleceu psicologicamente também. Se eu voltar pro Brasil, me vejo pronto pra jogar em qualquer time. Já tive algumas situações para voltar, mas acabei acabei não aceitando. No ano passado, apareceu uma proposta do Grêmio. Eles queriam me comprar, mas o Goztepe não liberou. Era meio de temporada, o time estava bem. Foi uma frustração pra mim, eu queria muito disputarum Brasileirão, brigar por Libertadores ou Sul-Americana. Se for para voltar pro Brasil, que seja pra jogar na elite.

Fiquei curioso para saber a sua relação com o técnico em relação ao idioma. Você fala um pouco de turco ou é tudo no inglês?

Ele é búlgaro, mas fala português. Ele já trabalhou em Portugal. Acho que isso o ajudou a gostar de brasileiros. A nossa comunicação no clube é toda em inglês. Ele só fala em português quando quer brincar com os brasileiros, para descontrair. Quando o time está reunido, o idioma é o inglês.

Você nasceu em Mauá (SP). Seu foi o responsável por colocar o futebol na sua vida? Sempre quis ser zagueiro?

Na verdade, eu era atacante quando comecei a jogar, sempre quis ser centroavante. Tudo começou a partir do sonho do meu pai. Ele tentou ser jogador, mas não conseguiu. Ele sempre foi aquele cara de comandar times amadores, isso lá em Mauá. Quando eu nasci, ele passou essa paixão pra mim. Ele me ajudou bastante nesse caminho. Meu pai faleceu em 2017, mas me deixou num caminho maravilhoso para seguir não só o meu sonho, como o dele também. Foi a partir dele que tudo começou, desde a escolinha, todos os momentos de manhã à noite, sempre treinando em dois ou três períodos em duas escolinhas diferentes, sempre me incentivando a ser jogador.

Sou muito grato, primeiramente à Deus e ao meu pai. Quando eu tinha 17 ou 16 anos, ainda jogava na várzea. Surgiu uma peneira no Santo André e precisava pagar R$ 50, mas meu pai não tinha esse valor. Ele pegou emprestado com um agiota e foi ali que uma chave virou na minha vida. Foi quando percebi que aquela situação não podia seguir como estava. Eu via meu pai fazendo todo aquele sacrifício por mim. Levei isso como um sonho para que se tornasse realidade.

Também tenho que exaltar a vida da minha mãe, que sempre foi empregada doméstica. Ela folgava às terças e quintas, mas começou a trabalhar nestes dias para ter uma melhor condição para que eu seguisse jogando. Fui saber disso anos depois. Isso tudo foi uma mudança de vida pra mim, me fez levar o futebol a sério. Não teve na minha vida papel mais importante do que o feito pelos meus pais.

E você virou zagueiro quando? 

Depois dos 13 anos. Eu jogava de centroavante, mas um técnico me colocou de volante. Aí só fui descendo de posição. Minha altura aumentou, me colocaram de zagueiro e aceitei. Só não posso cair pra goleiro (rsrsrs). 

Quem que é seu ídolo de infância?

Quando eu era criança, eu sempre gostei do Juan, zagueiro ex-Flamengo, Seleção e Roma. Sempre gostei dele. Depois que ele aposentou, o meu ídolo é o é Virgil van Dijk, do Liverpool.