“A minha pergunta, muitas vezes, era se estava fazendo tudo o possível para que ele (Alcaraz) melhorasse. Me perguntava muitas vezes como ele podia ser melhor como pessoa e jogador. É preciso fazer essa pergunta, porque quando você se conforma, a evolução estanca”, declarou.
Eterno treinador de Carlitos – acompanhou o tenista desde criança até dezembro passado –, Juan Carlos Ferrero participou nesta sexta-feira do "Simpósio nacional de treinadores de tênis”, promovido pela Federação Portuguesa de Tênis, no Complexo do Jamor, em Oeiras, dedicando-se a contar os segredos para “Pensar, treinar e competir como um campeão”.
“O mais importante em relação ao Carlos era que evoluísse como pessoa, que mantivesse os valores que trazia de casa”, admitiu em uma conversa com Rui Machado, o capitão de Portugal na Copa Davis.
Ex-número 1 do mundo e vencedor de Roland Garros em 2003, Ferrero contou alguns dos segredos da sua parceria bem-sucedida com o vencedor de sete Grand Slams, seis deles sob a sua orientação, comentando que “dava muita importância” a que o jogador estivesse “fresco, motivado e com as ideias claras” e apontando sem hesitar qual o aspeto mais difícil.
“Há tanto interesse e tantos compromissos com a imprensa, com os patrocinadores, com os fãs, que é difícil ter tempo de qualidade. Há que fazer bem os deveres para gerir isso”, pontuou.
Filosofia com Alcaraz
Ferrero revelou que “o serviço sempre foi o saque” que Alcaraz mais trabalhou para melhorar – “ano após ano fomos aperfeiçoando a técnica” – e que, “com todo o respeito pelos outros tenistas”, Jannik Sinner foi sempre o alvo preferencial do trabalho específico que fez com o espanhol de 22 anos.
Aposentado desde 2012, o "Mosquito", como era conhecido, defendeu reiteradamente a importância da equipe que trabalha com o jogador e indicou como decisivo para o sucesso dos futuros tenistas o “estar aberto a querer melhorar continuamente”.
O valenciano, que esteve acompanhado por seu treinador de longa data, Antonio Martínez Cascales, confessou que aceitou treinar Alcaraz por sentir “falta de viver esses momentos, de ir do zero ao topo”.

“Gostei de viver como treinador o que vivi como jogador”, completou, declarando ter chegado até onde pôde chegar, sem nunca se referir ao seu amargo divórcio do líder do ranking ATP.
Formação além das quadras
O espanhol de 46 anos detalhou também a experiência que tem na sua academia, onde aposta em um trabalho mais direcionado e “familiar” com jovens jogadores.
“É muito importante que um treinador não faça as coisas apenas como quer. Tem que saber como é o jogador e como se aproveitar de sua forma”, declarou, defendendo que a técnica é “importante, sobretudo quando são jovens” e que o ideal é ter “um jogador explosivo, flexível, rápido”.
Ao ser questionado sobre o erro mais comum entre os jovens que chegam à sua academia, Ferrero destacou algo que chama de “jogo invisível”.
“A maioria dos jogadores não usa a informação do próprio golpe para antecipar como virá a bola seguinte. Muitos jovens esperam para ver como a bola vem e não reagem a tempo. É preciso explicar ao jogador que é como um jogo de xadrez. Usei isso nos últimos anos com o Carlos”, revelou.
Dizendo-se “em casa” em Portugal, país que frequenta desde jovem, o treinador também falou sobre os altos e baixos de sua carreira, destacando o primeiro título da Copa Davis, a conquista de Roland Garros e a chegada ao número 1 do mundo como os momentos mais marcantes.
“Tenham paciência com os jovens, porque o trabalho de um treinador envolve várias funções: técnico, psicólogo e até um pouco de pai”, concluiu, dirigindo-se aos treinadores portugueses que lotaram as arquibancadas do Centro de Alto Rendimento de Tênis do Jamor.
