Depois da vitória da Seleção Brasileira na Filadélfia, a rotina de cobertura exigiu mais uma madrugada de deslocamento. O trajeto passou por Newark, em Nova Jersey, com os procedimentos de check-in presencial preenchendo as primeiras horas da manhã. Em época de Mundial, o relógio perde a importância. O foco está sempre em chegar ao próximo destino.
Veja como foi Alemanha 2 x 1 Costa do Marfim
O cenário agora é o Canadá, palco da vitória da Alemanha sobre a Costa do Marfim por 2 a 1 neste sábado (20), véspera de dia dos pais no hemisfério norte. A experiência na nova sede começa logo no Aeroporto Billy Bishop.

Com o fluxo ágil na imigração e o acesso facilitado pelas credenciais da FIFA, a chegada à cidade se dá de forma rápida. Para deixar o terminal, os visitantes atravessam o tradicional túnel construído sob as águas, cujas paredes trazem imagens de todos os campeões mundiais desde 1930, incluindo os grandes ídolos do Brasil.
Diferente do México, onde o torneio se impunha pela paixão popular, ou dos Estados Unidos, marcado pela grandiosidade da estrutura, o Canadá apresenta o Mundial de forma sutil. Na saída do aeroporto, voluntários orientam o público. Muitos optam por fazer o trajeto de cerca de 30 minutos até o estádio a pé, margeando o Lago Ontário e cruzando os parques locais.

Confira a tabela da Copa do Mundo no Flashscore
O reflexo nas ruas
A paisagem ao redor do estádio é serena. Moradores correm, pedalam e passeiam com animais de estimação, dividindo o espaço com torcedores. O movimento do torneio se integra à rotina da cidade sem interrompê-la.

Sentado em um banco de praça no caminho para o estádio, aproveitando a vista ao lado da esposa e do filho, o torcedor Raul Torrez exemplifica o perfil do público que viajou para acompanhar esta sede. Residente do Texas, nos Estados Unidos, ele viajou ao Canadá especificamente para acompanhar a seleção alemã.
"Sou um grande fã do futebol alemão e vim justamente para assistir ao jogo. Já estou acompanhando algumas partidas desta Copa e aproveitei para trazer a minha família para visitar o Canadá. O clima aqui é realmente mais tranquilo e sereno, mas, de qualquer forma, é possível sim perceber a atmosfera de Copa. Dá para ver as pessoas envolvidas e nós nos sentimos muito bem recebidos com essa tranquilidade canadense", afirmou Torrez ao Flashscore.
Poucos metros adiante, também aproveitando o parque com a esposa, o canadense Jason Boldt era outro que vestia a camisa da Alemanha e carregava consigo uma história que resume a própria formação de Toronto. Para ele, o embate no BMO Field tinha um significado histórico pessoal: era a primeira vez na vida que ele pisaria em um estádio para ver uma partida de futebol.

"No Canadá, o cenário é bem dividido: existem as pessoas que se importam muito com a Copa e outras que realmente não ligam. Eu faço parte do grupo dos que se importam. Apesar de acompanhar esportes e conhecer a modalidade, este é o primeiro jogo de futebol que vou presenciar na vida. Antes tarde do que nunca, né? Guardei a estreia para o melhor momento possível, que é uma Copa do Mundo", brincou Boldt.
A escolha da camisa também foi um resgate de suas origens.
"Tenho raízes alemãs. Minha família migrou para o Canadá há cerca de 40 anos e hoje vesti a camisa para prestigiar essa história familiar e realizar o sonho de ver o jogo. A única reclamação fica por conta dos ingressos, que estão bem caros. Mas, no geral, é perceptível que a cidade tem um clima de muita receptividade em relação ao Mundial", completou o morador local.
A ótica de quem roda o mundo
Se para uns o torneio representa uma estreia, para outros é a continuação de uma longa jornada. Caminhando rumo ao estádio acompanhado do amigo Bernd Hein, o alemão Roger Menzer carrega na bagagem a experiência de quem já viveu as Copas de 2006 (Alemanha), 2010 (África do Sul), 2014 (Brasil), 2018 (Rússia) e 2022 (Catar).
Testemunha ocular do histórico 7 a 1 no Mineirão, ele recorda o episódio com bom humor. "Os gols iam acontecendo e eu ficava triste pelos brasileiros no estádio, mas, claro, feliz pelo resultado e pelo título que veio depois", brincou.

Embora também critique os preços abusivos dos ingressos nesta edição, Menzer encontrou em Toronto algo que o impressionou profundamente e que transcende o valor do bilhete: a universalidade do futebol em uma cidade multicultural.
"A Alemanha vem passando por problemas sociais complexos e, muitas vezes, usar os símbolos do país ou a camisa da seleção em solo alemão gera julgamentos e divisões na população. Aqui em Toronto, eu vi pessoas de várias raças e nacionalidades — latinos, asiáticos, africanos, norte-americanos — vestindo a camisa da Alemanha sem receio, celebrando o futebol de um time tetracampeão do mundo. Eu me senti em uma verdadeira festa, algo que não vejo no meu próprio país", relatou Menzer.
Para o veterano de Copas, essa atmosfera resume a verdadeira essência do torneio da FIFA.
"Nossa sociedade está muito dividida. Não há nada melhor que uma Copa do Mundo para estancar essas divisões e trazer as pessoas de volta ao sentido de união entre os povos. É o momento em que qualquer pessoa, de qualquer origem, pode vestir a camisa que quiser, sentar junto e curtir o futebol sem barreiras. Esse é o maior significado de uma Copa", concluiu o torcedor alemão.

O ritmo local
O contraste com outras sedes é evidente. Enquanto Nova York pulsa com uma energia caótica, o México se mobiliza com policiamento intenso, e a Filadélfia transforma estacionamentos em grandes celebrações, Toronto mantém o seu próprio ritmo. No centro da cidade, o mar vermelho, amarelo e preto toma conta, mas nada que interrompa a rotina ordeira.

O BMO Field conta com um esquema de segurança robusto, a operação da FIFA funciona integralmente e os voluntários estão postos, mas o cotidiano local, àquele em volta do estádio, permanece inalterado. Não à toa, o trocadilho no título do Diário da Copa, o estádio está literalmente à beira do lago.
Mais do que uma cidade transformada pelo futebol, Toronto integra o torneio à sua própria normalidade, oferecendo uma experiência mais reservada e organizada para o público e para as delegações.

O ponto negativo da experiência
O BMO passou por uma mudança visível no horizonte. Estruturas temporárias ampliaram a capacidade do estádio do Toronto FC para cerca de 45 mil torcedores. Mas o aumento na base do "improviso" não acompanhou a demanda de público.
No intervalo, próximo ao setor da imprensa, o único banheiro feminino e masculino possuíam filas que dobravam os corredores. Já fica o conselho, se você não for antes, é quase certo que você perderá o início do segundo tempo. Algo inimaginável para a finesse canadense.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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